Guerras napoleônicas

As guerras napoleônicas foram uma série de conflitos conduzidos pelo imperador da França, Napoleão Bonaparte, contra os Estados europeus aliados em coalizões entre os anos de 1803 e 1815. Foram tão impactantes para a história que redefiniram o mapa europeu do século XIX e refletiram-se por praticamente o mundo todo, incluindo o Brasil. 

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Leia também: Revolução Francesa — o fato histórico que iniciou a Idade Contemporânea

Resumo sobre as Guerras Napoleônicas

  • As guerras napoleônicas foram uma sucessão de conflitos entre o Império francês, liderado por Napoleão, e diversas nações europeias.
  • A primeira guerra napoleônica foi a Guerra da Terceira Coalizão, iniciada em 1803, e a última, a Guerra da Sétima Coalizão, que derrotou Napoleão de forma definitiva em 1815.
  • Na Guerra da Quarta Coalizão, entre 1806 e 1807, Napoleão decretou o Bloqueio Continental, que traria consequências de grande impacto para a história da Europa e, indiretamente, para o mundo.
  • A Guerra Peninsular foi o único confronto a não levar o nome de uma coalizão, por se tratar de um caso isolado envolvendo a invasão francesa da Península Ibérica.
  • O término da Guerra da Sétima Coalizão se encerrou com o Império francês em seu auge territorial.
  • A Guerra da Sexta Coalizão significou a maior derrota de Napoleão, que perdeu cerca de 95% de suas tropas enviadas para a frente de batalha na Rússia.
  • Com a derrota na Rússia, Napoleão foi exilado para a Ilha de Elba, mas conseguiu fugir e reorganizar um novo exército de volta à França.
  • As guerras napoleônicas se encerraram definitivamente com a derrota de Napoleão na Batalha de Waterloo, em 1815, onde lutou contra a Sétima Coalizão.
  • Como consequências das guerras napoleônicas, o mapa europeu foi praticamente redesenhado após o Congresso de Viena, além de influenciar na criação da Santa Aliança e o fortalecimento do Reino Unido.
  • No ano de 1807, a invasão de Napoleão sobre Portugal levou o príncipe regente D. João VI a fugir com a família real para o Brasil, onde desembarcou em janeiro do ano seguinte.

O que foram as guerras napoleônicas?

“A Batalha de Austerlitz”, por François Gérard (1810), uma das batalhas travadas no contexto das guerras napoleônicas. [imagem_principal]
“A Batalha de Austerlitz”, por François Gérard (1810), uma das batalhas travadas no contexto das guerras napoleônicas. 

As guerras napoleônicas foram uma série de conflitos conduzidos pelo imperador da França, Napoleão Bonaparte, contra os Estados europeus aliados em coalizões entre os anos de 1803 e 1815. Elas tiveram início na Guerra da Terceira Coalizão, com a França e seus aliados frente às forças beligerantes do Reino Unido, Áustria, Rússia, Suécia e alguns reinos italianos, e se encerraram com a Guerra da Sétima Coalizão, liderada por Reino Unido e Prússia, que pôs fim ao período napoleônico.

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Quais foram as guerras napoleônicas?

As guerras napoleônicas são formadas, em sua maioria, por períodos de coalizão em confronto com a França. No entanto, é necessário atentar que os confrontos do período napoleônico se iniciam a partir da Terceira Coalizão, e não da primeira, porque houve outras duas guerras de grupos que se aliaram contra a França após o advento da Revolução de 1789 e antes da ascensão de Napoleão como imperador. Assim, as guerras napoleônicas são divididas usualmente em seis conflitos, apresentadas a seguir em ordem cronológica de acontecimentos:

  • Guerra da Terceira Coalizão (1803-1805): apesar de o Tratado de Paz de Amiens (1802) ter suspendido as hostilidades entre França e Reino Unido quando Napoleão se proclamou imperador, a paz entre as duas potências de histórica rivalidade era ilusória: os britânicos se negavam a desocupar a estratégica ilha de Malta, no mar Mediterrâneo, conforme previsto no documento de paz. A intimidação de Napoleão em relação ao caso resultou em uma nova declaração de guerra por parte do Reino Unido, que obteve a aliança da Rússia e da Áustria para formar a Terceira Coalizão; a França não lutou sozinha, contando com o apoio principalmente da Espanha. Esse primeiro grande conflito das guerras napoleônicas culminou em grandes batalhas, a exemplo da marítima Batalha de Trafalgar (1805), na qual a Marinha britânica frustrou o eventual plano de Napoleão em invadir a Grã-Bretanha, e a Batalha de Austerlitz (1805), onde a França derrotou as principais forças da Rússia e da Áustria com mais ou menos 70 mil soldados — uma quantidade significativamente menor em comparação aos 85 mil da coalizão.
Navios franceses e ingleses em combate na obra "A Batalha de Trafalgar", por Nicholas Popock (c.1808).
Navios franceses e ingleses em combate na obra "A Batalha de Trafalgar", por Nicholas Popock (c.1808).
  • Guerra da Quarta Coalizão (1806-1807): a Quarta Coalizão foi formada inicialmente por Rússia, Suécia, Prússia, Grã-Bretanha e o Reino da Saxônia. As tropas dessa aliança somavam algo em torno de 420 mil soldados contra os mais de 400 mil combatentes franceses, que, mais uma vez, subjugaram a coligação das potências. Foi durante esse conflito que Napoleão decretou o Bloqueio Continental (1806), que vetava o trânsito de quaisquer navios que comercializassem com a Grã-Bretanha. Devido à inviabilização de uma Marinha francesa eficiente, em decorrência da Batalha de Trafalgar, o bloqueio tinha como objetivo o enfraquecimento do Reino Unido por meios econômicos. A Rússia, no entanto, se negou em respeitar a exigência, levando Napoleão a direcionar grande força de seu efetivo militar sobre a Europa Oriental; Portugal também se posicionou contra o bloqueio, o que incentivou Napoleão a invadir a Península Ibérica sob concessão inicial da Espanha.
  • Guerra Peninsular (1808-1814): o período que abrange essa guerra ocorre de forma parcialmente simultânea a dois outros confrontos de larga escala: a Guerra da Quinta Coalizão (1809) e a Guerra da Sexta Coalizão (1812-1814). A Guerra Peninsular é referenciada como um conflito à parte por seu contexto particular: trata-se de um evento ocorrido especificamente na Península Ibérica e se inicia em decorrência da Guerra da Quarta Coalizão. O motivo foi o descontentamento de Napoleão perante a administração da sua então aliada família real espanhola e a negação de Portugal, aliado dos ingleses, em aderir ao Bloqueio Continental. Essas razões foram motivos suficientes para que o imperador da França invadisse a Península Ibérica e depusesse a família real espanhola para colocar o seu irmão, José Bonaparte, no trono; a família real portuguesa, por sua vez, fugiu para o Brasil horas antes de Napoleão tomar a capital, Lisboa. A Guerra Peninsular durou até 1814 porque envolveu guerrilhas ibéricas contra as tropas da França, motivadas tanto por sentimentos patrióticos quanto pela lealdade às suas respectivas monarquias. O constante apoio britânico ao fortalecimento da guerrilha obrigou Napoleão a destinar quase 300 mil soldados à península, o que enfraqueceu o contingente do exército francês em outras frentes de batalha.
  • Guerra da Quinta Coalizão (1809): a Quinta Coalizão foi formada por Reino Unido e Áustria — outrora já derrotada na Guerra da Terceira Coalizão (1803-1805) —  e os reinos da Sicília e da Sardenha, que não participaram diretamente dos combates. A guerra se estendeu simultaneamente em diversos locais do continente, incluindo a Península Itálica e os Países Baixos. Essa guerra acarretou o auge das conquistas territoriais de Napoleão.
Mapa com extensão do Império francês em seu auge.
Extensão do Império francês em seu auge, em 1802. A cor azul-escura mostra a administração direta da França, e o azul-claro, seus Estados-clientes.[1]
  • Guerra da Sexta Coalizão (1812-1814): apesar de a Sexta Coalizão ter sido formalizada no decorrer dos anos de 1813 e 1814, unindo Rússia, Prússia, Áustria, Suécia e Reino Unido, a guerra que leva o seu nome se iniciou quando Napoleão se voltou contra o Império Russo e marchou com suas tropas pela Europa Oriental para capturar a capital, Moscou. No entanto, a campanha significou o maior desastre para o exército francês: de cerca de 600 mil soldados invasores, apenas uma média de 25 mil a 30 mil sobreviveram (algo em torno de 95% de perdas), resultado ligado à tática russa da terra arrasada e ao severo inverno que alcançou, em seu pico, cerca de -37,5°C. A notícia da perda do contingente francês encorajou a criação da nova aliança contra Napoleão, que agora derrotado, foi deposto pela coalizão que tomou a capital francesa, Paris, em 1814.
  • Guerra da Sétima Coalizão (1815): com a deposição de Napoleão Bonaparte do governo francês e seu exílio para a Ilha de Elba, as potências antifrancesas passaram a se sentir exponencialmente mais seguras sem a presença do ex-imperador. Em seu lugar, formaram um governo provisório, sucedido pela restauração da Dinastia Bourbon, representada por Luís XVIII; no entanto, Napoleão conseguiu fugir do exílio com o apoio de centenas de apoiadores e desembarcou em Antibes, no sul francês. A partir de então, reuniu antigos aliados e, em vinte dias, marchou sobre a Paris restaurada, o que ocasionou a fuga de Luís XVIII. A formação de um novo exército em pequeno espaço de tempo foi possível principalmente graças à convocação de ex-combatentes e a incorporação do exército comandado pelos Bourbon, mobilizando até 280 mil soldados (em grande parte voluntários). Alarmados com a rápida reascensão de Napoleão, os aliados antifranceses criaram a Sétima Coalizão, organizada pelo Reino Unido, Rússia, Áustria e Prússia, a qual Napoleão tentou subjugar separando o efetivo das tropas estacionadas na Bélgica; lá, porém, o atraso da ofensiva, impactada pela chuva torrencial, permitiu que seus inimigos se organizassem e repelissem o ataque francês — tinha-se início a fatídica Batalha de Waterloo, na qual o imperador francês foi definitivamente derrotado pela união das tropas aliadas sob o comando do duque de Wellington. Dias após a batalha, Napoleão foi novamente deposto e exilado, dessa vez para a Ilha de Santa Helena, onde morreria, em 1821, provavelmente em decorrência de um câncer no estômago. 

Motivo das guerras napoleônicas

O principal motivo da eclosão das guerras napoleônicas foi a expansão do Império francês liderada por Napoleão Bonaparte, que levou os Estados inimigos da França a se organizarem em coalizões para impedir o seu domínio sobre a Europa. Além disso, a totalidade de nações que aderiram às coalizões temia os ideais revolucionários e liberais da burguesia francesa, que colocavam em risco a manutenção de governos monarquistas e absolutistas baseados no Antigo Regime. 

Consequências das guerras napoleônicas

As guerras napoleônicas desencadearam uma profunda mudança no mapa geopolítico da Europa e, com isso, diversas alterações nos recortes territoriais do continente. Essas mudanças foram estipuladas principalmente durante o Congresso de Viena (1814-1815), iniciado anteriormente aos eventos ocorridos no Governo dos Cem Dias. O congresso procurava restaurar as fronteiras anteriores ao advento da Revolução Francesa (1789), com alterações favoráveis aos regimes monárquicos.

Com essas alterações, os britânicos obtiveram vantagem principalmente com a obtenção de Malta e o acesso às Índias e às Antilhas; a Itália foi fragmentada em diversos principados e repúblicas até sua unificação, concluída em 1870; criou-se a Confederação Germânica, que unia 39 Estados alemães liderados pela Áustria e pela Prússia (que eventualmente travariam uma guerra pelo controle da confederação, resultando na criação da Alemanha como Estado contemporâneo unificado, em 1871); fundiram-se os Estados da Suécia e Noruega; Rússia incorporou a Finlândia e partes da Polônia a seu território e a Holanda anexou a Bélgica.

Mapa geopolítico da Europa após o Congresso de Viena, em 1805.[2]
Mapa geopolítico da Europa após o Congresso de Viena, em 1805.[2]

Resultante do congresso, também, foi a criação da Santa Aliança, que unia as potências monarquistas da Rússia, Áustria e Prússia no objetivo de conter militarmente revoluções na Europa e suas colônias. O Reino Unido se opôs à aliança por ser favorável às revoluções latino-americanas que viabilizariam vantagens econômicas sobre a sua rival, a Espanha, mas aderiu à Quádrupla Aliança com os mesmos Estados, que assegurava o controle sobre a Europa.

No contexto da Guerra Peninsular, as guerras napoleônicas também interferiram diretamente na história do Brasil, como veremos com mais detalhes no tópico a seguir.

Consequências das guerras napoleônicas para o Brasil

No ano de 1806, Napoleão Bonaparte já havia conquistado grande parte da Europa, mas com a perda de sua frota naval, ele decretou o Bloqueio Continental ao redor da costa leste do continente. O objetivo era enfraquecer o Reino Unido economicamente, impedindo que outros Estados comercializassem diretamente com os britânicos.

Portugal, que já não significava mais a potência de outrora, não concordava com o bloqueio porque dependia economicamente do Reino Unido. A negação do reino lusitano em aderir à exigência de Napoleão serviu de pretexto para que os franceses invadissem a Península Ibérica. A única saída possível para o príncipe regente português D. João VI seria fugir para o Brasil com a família real. Com o apoio de uma escolta britânica, a família real partiu de Portugal em 29 de novembro de 1807 e desembarcou na capital brasileira, Salvador, em 22 de janeiro de 1808.

Apesar da transferência da corte portuguesa para o nosso país e a elevação do status de colônia para a integração do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves no ano de 1815, não houve ainda mudanças sociais significativas em território brasileiro; por sua vez, a transferência desencadeou uma série de eventos que definiram a história do país para sempre, como a Proclamação da Independência do Brasil (1822) pelo príncipe D. Pedro I, por exemplo, e assim por diante.

Leia também: Império Napoleônico e a consolidação burguesa

Exercícios sobre guerras napoleônicas

Questão 1. (Cesgranrio)

Caricatura mostra os vencedores das guerras travadas contra Napoleão Bonaparte.

Na caricatura, os vencedores de Napoleão – o rei da Inglaterra, o rei da Prússia, o czar da Rússia e o imperador austríaco – se preparam para dividir um patê, que contém o antigo Imperador. Sob a mesa, o rei francês Luís XVIII espera as migalhas. No que se refere a esse momento histórico, é INCORRETO afirmar-se que:

a) o Congresso de Viena, ao reformular o mapa europeu e favorecer os grandes rivais da França napoleônica, não respeitou as reivindicações nacionais das populações dos territórios ocupados. 

b) a França recebeu algumas “migalhas”, pois manteve sua integridade territorial e teve restaurada no poder a dinastia deposta pela Revolução Francesa, apesar de temporariamente ocupada por forças militares vencedoras. 

c) as grandes reservas de matéria-prima necessárias ao desenvolvimento econômico dos países vencedores encontravam-se nas áreas submetidas, até então, ao domínio da França, o que explica a situação humilhante do rei francês na caricatura. 

d) todos os soberanos sentados à mesa obtiveram vantagens territoriais pelo Congresso de Viena, contudo, coube à Inglaterra a anexação da maior parte de áreas estratégicas para a manutenção da supremacia marítima. 

e) alguns dos países cujos soberanos foram retratados na caricatura reuniram-se, dando origem à Santa Aliança, na tentativa de evitar, a qualquer custo, a eclosão de revoluções liberais, contendo a burguesia e mantendo o Antigo Regime. 

Resposta: Letra c).

A matéria-prima necessária para a manutenção econômica das potências europeias não provinha dos territórios ocupados por Napoleão; pelo contrário, ela era extraída principalmente de territórios coloniais ultramarinos, especialmente por parte do Reino Unido.

Questão 2. (UFRGS) Em 1815, foi encerrado o Congresso de Viena que tinha como propósito reorganizar o mapa político da Europa. A respeito desse Congresso, considere as seguintes afirmações.

I. Foi realizado após a derrota de Napoleão Bonaparte, que havia alterado o equilíbrio de forças na Europa.

II. Resultou na formação da Santa Aliança para coibir qualquer tentativa de revolução liberal.

III. Garantiu a Portugal e Espanha ganhos territoriais na Europa, por terem lutado contra as forças napoleônicas. 

Quais estão corretas?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas I e II.

d) Apenas I e III.

e) I, II e III.

Resposta: c)

Apesar dos conflitos entre a França e os Estados da Península Ibérica, não houve ganhos ou anexações para os reinos de Portugal e Espanha, mas perdas territoriais. A potência europeia mais beneficiada pelo Congresso de Viena foi o Reino Unido, o que levou os países ibéricos a ceder possessões ultramarinas.

Créditos da imagem

[1] Wikimedia Commons

[2] Wikimedia Commons

Fontes:

CHANTERANNE, David; PAPOT, Emmanuelle. Napoleão: sua vida, suas batalhas, seu império. Londres: Carlton Books, 2010.

CHARTIER, Roger. Origens culturais da Revolução Francesa. São Paulo: UNESP, 2009.

GOMES, Laurentino. 1808. São Paulo: Editora Planeta, 2007.

HOBSBAWM, Eric. A Era das Revoluções: 1789-1848. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

JORGENSEN, Christier. Great Battles: Decisive conflicts that have shaped History. Bath: Parragon, 2007.

Escritor do artigo
Escrito por: Cassio Remus de Paula Cássio é doutor em História pela UFPR, mestre e bacharel em História pela UEPG. Atua como professor de História, Filosofia e Sociologia.

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