Desastre de Bhopal
O desastre de Bhopal ocorreu em 1984, na Índia, quando 40 toneladas de isocianato de metila vazaram de uma fábrica de pesticidas da Union Carbide. Considerado a maior tragédia industrial da história, o evento liberou uma nuvem de gás tóxico e denso que se espalhou por 40 km2, matando milhares de pessoas em poucas horas e afetando centenas de milhares com sequelas permanentes, como cegueira e danos em órgãos vitais.
O desastre de Bhopal foi causado por uma sucessão de falhas de segurança e negligência, já que equipamentos cruciais de refrigeração e neutralização de gases estavam inoperantes. Além das mortes imediatas, o impacto ambiental persiste até hoje com a contaminação do solo e de águas subterrâneas por metais pesados e substâncias químicas. O caso é lembrado mundialmente pela impunidade dos executivos envolvidos e pela luta das vítimas por indenizações e limpeza da área.
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Resumo sobre o desastre de Bhopal
- O desastre de Bhopal foi o pior acidente industrial do mundo, causado pelo vazamento de 40 toneladas do gás tóxico isocianato de metila em uma fábrica de pesticidas na Índia.
- Vitimou fatalmente milhares de pessoas em poucas horas devido à alta toxicidade e densidade do gás, que se acumulou próximo ao solo.
- É consequência de graves falhas de segurança e negligência técnica, com sistemas de refrigeração e neutralização de gases desligados no momento da tragédia.
- O desastre de Bhopal deixou sequelas permanentes em mais de 500 mil sobreviventes, incluindo cegueira, problemas respiratórios crônicos e danos genéticos em gerações seguintes.
- Citam-se ainda impactos ambientais graves, como a contaminação persistente do solo e das águas subterrâneas da região por resíduos químicos tóxicos.
O que foi o desastre de Bhopal?
O desastre de Bhopal foi caracterizado pelo vazamento de gás de isocianato de metila ocorrido na noite entre os dias 2 e 3 de dezembro 1984, nas instalações industriais da fábrica de pesticidas da multinacional americana Union Carbide, na cidade de Bhopal, Índia.
O evento é considerado como o pior desastre industrial da história, uma vez que, em questão de poucas horas, o gás vitimou fatalmente, segundo o governo indiano, 5295 pessoas, embora fontes citem mais de oito mil pessoas mortas (ativistas especulam números maiores, da ordem de 20 mil).
Causas do desastre de Bhopal
O acidente de Bhopal foi causado por um vazamento de gás, o isocianato de metila (ICM), na noite entre os dias 2 e 3 de dezembro de 1984. O gás era oriundo da unidade asiática da empresa americana Union Carbide e seria utilizado para a fabricação de pesticidas. Segundo testemunho do diretor da fábrica à época, Vijay P. Gokhale, o gás teria escapado quando uma válvula no tanque quebrou, sob pressão.
Como foi o desastre de Bhopal?
A tragédia se iniciou na noite entre os dias 2 e 3 de dezembro. Bhopal, à época, era uma cidade densamente povoada, com cerca de 900 mil habitantes. Dessa forma, havia uma grande aglomeração de casas em volta da fábrica da Union Carbide, que havia sido construída no ano de 1969.
Por volta de 23h30 do dia 2 de dezembro, funcionários observaram um vazamento. Ao alertarem o supervisor, ele desdenhou das preocupações, dizendo que o líquido que vazava era apenas água e que cuidaria dessa questão depois do seu próximo intervalo para o chá. O gás era oriundo da evaporação do isocianato de metila (ICM), um líquido altamente inflamável, pungente e incolor, utilizado na fabricação de pesticidas, o qual deveria ter sido alocado para um tanque reserva, mas que não se encontrava vazio, conforme o protocolo previa.
Sirenes começaram a disparar, contudo esses alarmes (que serviam para indicar um vazamento de gás iminente e perigoso) tinham o mesmo barulho dos que soavam cerca de 20 vezes por semana em exercícios de prática de instalação e perfuração. Sem motivos claros, os empregados da fábrica não reagiram de imediato. A pressão do taque continuou a subir até que a válvula de segurança quebrou. Os gases de ICM e de outras substâncias químicas foram expelidos para o ar, carregados por uma área de quase 40 km2.
Perto de 01:00, alguns moradores que residiam próximo à fábrica começaram a notar um cheiro forte, pungente, e seus olhos começaram a arder. O cheiro foi se intensificando, ficando ainda pior e mais forte. Pessoas relatavam que a sensação era de uma queimadura por diversas pimentas. Muitos começaram a se queixar de falta de ar e também a vomitar.
Estima-se que foram lançados ao ar 40 toneladas do isocianato de metila. Ao evaporar, o isocianato de metila forma um gás denso, de alta toxicidade e que pode ser letal em alguns casos. Em poucas horas, a nuvem do gás se dispersou sobre a cidade, matando milhares de pessoas na noite do vazamento, assim como outras milhares de mortes nos dias seguintes.
Os números apontam que foram vitimadas de maneira letal cerca de oito mil pessoas, sendo que três mil foram apenas na primeira noite. Não demorou muito para o caos e o pânico eclodirem na cidade e adjacências, com dezenas de milhares de pessoas tentando fugir ao mesmo tempo. Durante a fuga, multidões de pessoas inalaram ainda mais gás, já que este, sendo mais denso que o ar, acumulava-se em camadas mais inferiores.
Ao amanhecer, a polícia e demais autoridades competentes encontraram milhares de corpos, entre seres humanos, gatos, cães, vacas e aves. Os necrotérios da cidade se encheram muito rapidamente. Embora o governo admita que 5295 pessoas foram a óbito com a tragédia, acredita-se que, nas primeiras 72 horas após o vazamento do gás, mais de oito mil pessoas tenham falecido. Ativistas apontam para mais de 20 mil vítimas fatais, uma vez que outros milhares morreram nos meses seguintes. Assim, é possível dizer que não há consenso sobre o número de vítimas fatais.
A Anistia Internacional estima que 570 mil pessoas foram expostas a níveis perigosos do gás. Os que não faleceram alegaram sequelas, como câncer, cegueira, danos no fígado e nos rins após a contaminação. Relatos também mostram que Bhopal tem uma alta e incomum incidência de crianças com problemas congênitos e deficiência de crescimento, além de tipos de câncer e outras doenças crônicas. Muitos bhopalis também convivem com deficiência permanente após o acidente, o que lhes impede de trabalhar.
Em 2023, a Netflix lançou a série Heróis dos Trilhos (The Railway Men), a qual conta uma parte da história do acidente de Bhopal. Nenhum funcionário do alto escalão da Union Carbide foi julgado sobre o acontecimento. O ex-presidente da empresa, Warren Anderson, chegou a ser preso pela polícia indiana durante uma visita à fábrica após o desastre, mas foi libertado sob fiança e prontamente deixou o país. Embora considerado como fugitivo, o governo indiano jamais pressionou de forma acintosa os Estados Unidos pela sua extradição. Anderson morreu em setembro de 2014.
O governo indiano, representante legal dos sobreviventes, requereu uma indenização de 3,3 bilhões de dólares, mas um acordo na justiça fez com que a Union Carbide pagasse bem menos, cerca de 470 milhões de dólares, no ano de 1989, o que foi altamente criticado por vítimas, as quais alegaram não ter sido consultadas. Boa parte das vítimas recebeu uma indenização inadequada, de cerca de 568 dólares cada, ou cobertura integral de tratamento médico por cinco anos.
Em 2001, a Union Carbide e a Dow se fundiram, em um acordo que omitiu qualquer menção a processos criminais pendentes pela Union Carbide. A Dow já chegou a receber intimações para comparecer ao tribunal em Bhopal, mas ignorou todas elas. A Dow sustenta que não é responsável pelas ações da Union Carbide em Bhopal.
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Impactos ambientais do desastre de Bhopal
Ambientalistas apontam que a toxina vazada contaminou o solo e as águas subterrâneas, mesmo com a negação do governo, que insiste em afirmar que o abastecimento de água no entorno da planta industrial é seguro.
A unidade foi fechada, mas a Union Carbide nunca a desmontou nem a limpou, deixando um esqueleto corroído da fábrica, o que deixava suspeitas da permanência de substâncias tóxicas. Em 1999, testes em águas da região, inclusive subterrâneas, apontaram níveis de mercúrio de 20 mil a 6 milhões maiores que o esperado. Substâncias carcinogênicas, causadoras de problemas no cérebro e causadoras de problemas congênitos também foram encontradas na água. Um exemplo é o tricloroetano, substância que impede o desenvolvimento propício do feto, que foi encontrado em níveis 50 vezes maior do que o recomendado.
Ainda assim, em 2012, a Suprema Corte reconheceu que resíduos tóxicos contaminaram as águas subterrâneas de 22 comunidades localizadas ao redor da fábrica, ordenando que o governo fornecesse água encanada potável para as pessoas da região.
Como poderia ser evitado o desastre de Bhopal?
Embora se cite o vazamento do gás isocianato de metila (ICM), especialistas apontam que uma série de erros culminaram na tragédia. Embora a Union Carbide possuísse recursos necessários para evitar a catástrofe, boa parte dos equipamentos não estava funcionando ou estava em manutenção. Também não havia equipe de controle de emergência para atuar, além de ter havido demora para a tomada de decisões.
Um exemplo do mau funcionamento dos equipamentos é o do sistema de refrigeração, o qual havia sido retirado de operação para manutenção, mesmo com o ICM necessitando ser mantido a uma temperatura de 0 °C. O lavador de gases, que utilizava hidróxido de sódio (NaOH) para neutralização do ICM, também estava sem funcionar no dia do acidente. Por fim, cita-se o não funcionamento do queimador de gases (flare), por conta da retirada de um trecho da tubulação para manutenção, o qual serviria para queimar o ICM e, assim, evitar a contaminação ambiental.
Citam-se também os problemas envolvendo o sistema de armazenamento do ICM. Havia três tanques, e o terceiro deveria estar vazio para ser utilizado como estocagem de emergência e controlar, temporariamente, o produto fora de especificação antes de seu reprocessamento. No entanto, os três tanques estavam cheios. Para completar, o sistema de pressurização também apresentou falhas, uma vez que a válvula apresentava vazamentos, permitindo a entrada de água no taque.
Produtos químicos do desastre de Bhopal
O principal agente químico do desastre de Bhopal é o gás de isocianato de metila. Esse gás apresenta um odor pungente e doce. Em temperatura ambiente, é um líquido altamente inflamável e incolor, mas com ponto de ebulição baixo, de 39 °C, o que deixa claro que evapora rapidamente quando exposto ao ar, principalmente em regiões mais quentes. Sua densidade é de cerca de 1,4 vezes maior que a do ar, o que explica o fato de ele tender a se manter próximo ao chão.
Ele reage com água/umidade, alcaloides e boa parte dos solventes mais comumente utilizados. Assim, precisa ser mantido sob condições inertes. Ele é utilizado para a síntese de pesticidas e em indústrias farmacêuticas, mas sua letalidade é elevada, podendo matar em uma dose relativamente baixa. Sua absorção se dá oralmente, pelo trato respiratório, ou via contato com a pele. Da classe dos compostos dos isocianatos, o isocianato de metila é o mais tóxico de todos, dada sua alta volatilidade e capacidade de exercer efeitos tóxicos em diversos sistemas do organismo.
Créditos da imagem
[1] arindambanerjee / Shutterstock
[2] arindambanerjee / Shutterstock
Fontes:
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