Antônio Conselheiro

Antônio Conselheiro foi um beato e líder religioso que atuou no Sertão nordestino na segunda metade do século XIX. Nasceu em uma família que sobrevivia do comércio, tendo uma boa instrução. Passou a peregrinar pelo Sertão nordestino a partir da década de 1860, quando o seu casamento ruiu.

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Tornou-se um líder religioso que era seguido por milhares de pessoas no Sertão nordestino. Fazia promessas messiânicas de salvação, denunciava a pobreza e a violência dos coronéis e se opunha a república no Brasil. Fundou o Arraial de Canudos, habitado por quase 30 mil habitantes, local que foi palco da Guerra de Canudos.

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Resumo sobre Antônio Conselheiro

  • Antônio Conselheiro foi um beato e líder religioso que atuou no Sertão nordestino no final do século XIX.
  • Nasceu no interior do Ceará, sendo de uma família que vivia do comércio e tendo uma boa formação cultural.
  • Passou a peregrinar pelo Sertão nordestino depois que seu casamento acabou no começo da década de 1860.
  • Tornou-se um líder religioso, pregando uma fé popular e messiânica e denunciando as injustiças sociais de sua época.
  • Fundou o Arraial de Canudos, estabelecendo uma comunidade autossustentável. O arraial foi destruído depois de quatro expedições militares.
  • Foi o principal líder da Guerra de Canudos.

Quem foi Antônio Conselheiro?

Pintura retratando Antônio Conselheiro, o principal líder da Guerra de Canudos. [imagem_principal]
Antônio Conselheiro foi um líder religioso que liderou Canudos no final do século XIX. [1]

Antônio Vicente Mendes Maciel, popularmente conhecido na história do Brasil como Antônio Conselheiro, foi um beato e líder religioso que atuou no Sertão nordestino no final do século XIX, além de ser o principal líder da Guerra de Canudos.

Ele nasceu no dia 13 de março de 1830, na cidade de Quixeramobim, no interior do Ceará. A data de nascimento dele gera algumas polêmicas, pois alguns apontam que ele poderia ter nascido, na verdade, em 1828.

Ele era filho de um casal que sobrevivia como comerciante, sendo que seu pai se chamava Vicente e sua mãe se chamava Maria Joaquina. Antônio Conselheiro teve uma boa formação educacional, um grande privilégio na sua época, tendo sua infância marcada pela perda precoce de sua mãe, que faleceu quando ele tinha 6 anos de idade.

O pai de Antônio Conselheiro trabalhava como comerciante, mas faleceu em 1855, deixando o negócio para Antônio Conselheiro. Pouco tempo depois, casou-se com uma mulher chamada Brasilina Laurentina de Lima, mas o casamento durou pouco tempo. Em 1861, ele descobriu que sua mulher o traía com um sargento de polícia.

Durante o período de seu casamento, chegou a atuar como professor. Após o fim do casamento, abandonou a vida que tinha, tornando-se um peregrino pelo Sertão nordestino. Na sua peregrinação, Antônio Conselheiro aderiu à vida religiosa, tornando-se um respeitado beato, passando a atrair a atenção da população local. Ele se inspirou em outra figura do tipo, o padre Ibiapina, passando por diversos estados do Nordeste.

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Ideias de Antônio Conselheiro

Depois de se tornar um errante no Sertão nordestino, Antônio Conselheiro passou a atuar na construção de igrejas e de cemitérios, sendo que as primeiras notícias que temos dele como uma figura religiosa são de 1874, quando um jornal publicou a respeito de um personagem que dava conselhos e construía igrejas, chamado Antônio dos Mares.

O nome Antônio Conselheiro vem exatamente do fato de que ele se popularizou como uma figura que dava conselhos, principalmente religiosos, à população do Sertão nordestino. Chegou a ser preso, acusado de matar a mãe e a esposa, mas foi liberto por falta de provas. A continuidade de sua vida como pregador fez com que ele ganhasse inúmeros seguidores que o acompanhavam em suas andanças.

Antônio Conselheiro trazia uma mensagem religiosa e atraía a população pobre de sertanejos, que, desalentados com a ordem política e com a situação institucional da Igreja Católica, abraçava discursos religiosos e messiânicos de figuras como Antônio Conselheiro como forma de lutar por sua própria sobrevivência.

Antônio Conselheiro, por sua vez, não trazia apenas um discurso religioso e que falava sobre a salvação, mas também denunciava a pobreza da população com um forte discurso político e social. Além disso, no contexto da mudança de regime da monarquia para a república, Antônio Conselheiro fazia enormes críticas.

Ele não concordava com o sistema republicano, insatisfeito com o aumento de impostos, orientando seus seguidores a não pagar os impostos ao governo republicano. Além disso, ele se incomodava com o modelo republicano por conta de sua ligação com as ideias laicistas, sendo um crítico da separação entre Estado e Igreja.

Guerra de Canudos e Antônio Conselheiro

Em 1893, Antônio Conselheiro decidiu se estabelecer um uma fazenda abandonada localizada às margens do Rio Vaza-Barris, no interior do estado da Bahia. Lá, formou o Arraial de Belo Monte, popularmente conhecido como Canudos, atraindo os seguidores e uma multidão de todas as partes do Nordeste. Antônio Conselheiro se estabeleceu como o líder do novo arraial.

O Arraial de Belo Monte atraiu sertanejos pobres, jagunços que abandonaram o ofício, ex-escravos, mães solos e outros grupos de pessoas que viviam às margens da sociedade no Sertão nordestino. A mensagem religiosa e política de Antônio Conselheiro fez com que a população visse o arraial como um alento para fugir da pobreza e da repressão que os acompanhava.

O local de construção do arraial foi estratégico, e os historiadores acreditam que Antônio Conselheiro já imaginava que as autoridades em algum momento poderiam querer destruir o arraial. Por isso, foi construído em um local isolado e cercado por cinco serras diferentes e por diversos rios, dificultando o acesso a ele.

O arraial atraiu milhares de pessoas, chegando a ter quase 30 mil habitantes e sendo marcado por uma vida comunitária, na qual o trabalho era dividido entre todos, com os mais jovens e saudáveis realizando os trabalhos mais difíceis, e os mais velhos fazendo tarefas mais simples. A comida era dividida entre todos, e moradias eram construídas para todos que chegavam ao arraial.

A vida em Canudos era simples, mas harmoniosa. Além disso, o líder Antônio Conselheiro estabelecia uma série de regras que deveriam ser seguidas pela população, além de alimentar o fervor religioso dos seus seguidores com discursos, com rezas e com celebrações religiosas. Além disso, a comunidade também possuía pessoas que atuavam na segurança do arraial.

A existência do Arraial de Canudos incomodou diversos grupos poderosos, fazendo com que esforços começassem a ser realizados para a sua destruição. Os coronéis estavam incomodados com a fuga de mão de obra para o arraial, além de que a existência do arraial ameaçava o poder que os coronéis exerciam naquele período.

Para a Igreja Católica, a existência de um líder religioso com uma mensagem messiânica que não fazia parte da instituição era vista como uma ameaça ao seu poder e influência. A Igreja Católica também tentou dissuadir as críticas de Antônio Conselheiro à república, mas sem sucesso. Por fim, a república viu o arraial como um foco de revolta por sua recusa a pagar impostos e pelas críticas de Antônio Conselheiro ao modelo republicano.

O estopim para o início de um ataque a Canudos aconteceu em 1896, quando um desentendimento aconteceu entre o arraial e comerciantes de Juazeiro. Esse desentendimento se deu porque o arraial pagou por um carregamento de madeira para construir uma igreja, e o carregamento não foi entregue.

Antônio Conselheiro avisou que iria a Juazeiro buscar a madeira que não havia sido entregue, mas um boato foi espalhado de que ele e os habitantes de Canudos saqueariam a cidade de Juazeiro. O boato nunca governado levou a uma reação do estado da Bahia, que enviou uma expedição militar para derrotar o arraial, em 1896.

O Arraial de Canudos foi alvo de quatro expedições militares, com a população do arraial resistindo às investidas do Estado. A última expedição se iniciou em março de 1897, com mais de 10 mil homens armados e apoiados por canhões. Canudos resistiu até outubro de 1897, quando se rendeu no dia 5 de outubro.

Os combatentes que lutaram pela defesa da cidade foram mortos degolados e os historiadores não sabem o que ocorreu com mulheres e crianças sobreviventes. Antônio Conselheiro faleceu antes mesmo da redenção final do arraial e morreu em 22 de setembro de 1897. As causas são desconhecidas pelos historiadores, mas existem teorias que apontam que ele morreu em combate e outros apontam que ele teria morrido de alguma doença (especula-se disenteria, tuberculose ou parada cardíaca).

Veja também: Guerra do Contestado — detalhes sobre esse conflito armado ocorrido na região fronteiriça entre Santa Catarina e Paraná

Frases de Antônio Conselheiro

Algumas frases atribuídas a Antônio Conselheiro são:

  • “Em 1896 há de haver mil rebanhos correndo da praia para o Sertão; então o Sertão virará praia e a praia virará Sertão.”
  • “Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança deste peregrino, que aspira ansiosamente a vossa salvação e o bem da Igreja. Praza aos céus que tão ardente desejo seja correspondido com aquela conversão sincera que tanto deve cativar o vosso afeto.”
  • “Agora tenho de falar-vos de um assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis, de um assunto que só a incredulidade do homem ocasionaria semelhante acontecimento: a República, que é incontestavelmente um grande mal tão bela sua estrela.”
  • “O Sertão vai virar mar, o mar vai virar Sertão.”

Curiosidades sobre Antônio Conselheiro

Cadáver de Antônio Conselheiro, a única foto que se tem do líder da Guerra de Canudos.
A única foto que se tem de Antônio Conselheiro é a foto do seu cadáver.
  • A história do Arraial de Canudos ficou famosa por conta do relato feito por Euclides da Cunha, em Os Sertões.
  • Antônio Conselheiro proibia o consumo de bebidas alcoólicas no Arraial de Canudos.
  • Existe apenas uma foto de Antônio Conselheiro, do seu cadáver.

Crédito de imagem

[1] Silvio Jessé / Wikimedia Commons (reprodução)

Fontes

FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs.). O tempo do liberalismo oligárquico: da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

SCHWARCZ, Lilia Moritz e STARLING, Heloísa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Escritor do artigo
Escrito por: Daniel Neves Silva Formado em História pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) e especialista em História e Narrativas Audiovisuais pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Atua como professor de História desde 2010.

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