Repertório sociocultural
Repertório sociocultural é o conjunto de conhecimentos de caráter social e cultural que abrangem diversas áreas científicas, a filosofia, a arte, a literatura, o cinema, a história e as variadas manifestações artísticas e culturais. Na redação do Enem, usar tal repertório na argumentação é necessário para que o(a) participante seja bem avaliado(a) na competência II.
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Resumo sobre o repertório sociocultural
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O repertório sociocultural é um conjunto de conhecimentos acerca da sociedade e da cultura.
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Na redação do Enem, o repertório sociocultural deve ser usado como estratégia de argumentação por meio de citação direta ou indireta.
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Temas filosóficos de cunho universal e artigos da Constituição de 1988 são conhecimentos que podem ser utilizados no desenvolvimento de variados temas.
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Fazem parte do repertório sociocultural filmes, livros, obras de arte, além de conhecimentos históricos e notícias atuais.
Videoaula com tipos de repertório sociocultural
O que é repertório sociocultural?
Segundo a Cartilha do (participante) da redação do Enem de 2024, repertório sociocultural: “se configura como uma informação, um fato, uma citação ou uma experiência vivida que, de alguma forma, contribua como argumento para a discussão proposta”. Tal repertório deve estar associado a uma ou a mais áreas do conhecimento e se refere, portanto, aos “conhecimentos construídos” ao longo da formação do(a) participante.
Como usar o repertório sociocultural na redação do Enem?
A presença de repertório sociocultural é um aspecto avaliado na competência II da redação do Enem, que consiste em: “Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas de conhecimento para desenvolver o tema dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa”.
Desse modo, o(a) avaliador(a) buscará encontrar “um repertório sociocultural produtivo” na argumentação do(a) participante. Portanto, é preciso mencionar ou citar algum conhecimento relacionado ao tema da redação. Fazem parte do repertório sociocultural livros, filmes, canções, conhecimentos científicos ou filosóficos, além de fatos de conhecimento geral.
A forma mais segura de usar o repertório sociocultural na redação do Enem é por meio da citação direta ou indireta. A citação direta é aquela que aparece entre aspas e reproduz exatamente o que o(a) autor(a) do texto citado expressou. Esse tipo de citação é viável para o(a) participante que tem facilidade de decorar trechos importantes de livros ou filmes.
Já a citação indireta é aquela que não aparece entre aspas, porque é uma paráfrase, ou seja, o(a) participante escreve, com suas próprias palavras, a ideia expressa pelo(a) autor(a) de um texto citado. Obviamente, em ambos os casos, é necessário explicitar o nome do autor ou da autora do texto citado.
Outra forma de demonstrar seu repertório sociocultural é mencionar algum fato ou acontecimento de conhecimento geral. Ele pode ser de caráter artístico, histórico ou notícia atual. Ao mencionar acontecimentos atuais, é preciso recorrer às notícias veiculadas por veículos de comunicação sérios, comprometidos com a veracidade da notícia e que não veiculem notícias falsas, isto é, fake news.
Assim, o repertório sociocultural deve estar associado à argumentação, pois é uma informação que ajuda a dar credibilidade às ideias defendidas pelo(a) participante em sua redação. Ele pode aparecer de forma diversificada em várias partes da redação, mas sempre associado à expressão do(a) participante, ou seja, do(a) autor(a) da redação.
A seguir, alguns exemplos de como usar o repertório sociocultural na redação do Enem. Os trechos foram retirados de redações que alcançaram a nota 1000 na redação de Enem de 2023, cujo tema era “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”:
Sob este viés, é preciso atentar para a omissão estatal presente nessa problemática. Nessa perspectiva, o pensador Thomas Hobbes afirma que o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, pois a falta de atuação das autoridades corrobora a permanência do trabalho de cuidado não remunerado e mal pago realizado, principalmente, por mulheres — que inclui cuidar de crianças e idosos, bem como os afazeres domésticos —, visto que o Governo não tem cumprido seu papel no sentido de assegurar os direitos básicos a esse grupo social, como o direito a um salário digno. Assim, as funções sociais e estatais são descumpridas, agravando o problema.
Amanda Teixeira Zampiris.
A Constituição Federal de 1988, documento jurídico mais importante do país, garante o trabalho remunerado e a dignidade humana como direitos de todo cidadão brasileiro, além de estabelecer a igualdade entre os gêneros masculino e feminino na sociedade. Entretanto, nota-se que tal prerrogativa não tem se reverberado na prática, visto que ainda há uma invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil, o qual, muitas vezes, não apresenta retorno financeiro. Portanto, faz-se necessária a análise dos principais fatores que contribuem para esse triste cenário: o machismo e o descaso estatal.
Lucas Malta de Carvalho.
A filósofa contemporânea Hannah Arendt constata, por meio do conceito denominado “Banalidade do Mal”, a tendência existente nas sociedades no que tange à naturalização das mazelas presentes na coletividade. Nessa vertente, percebe-se que, na realidade brasileira atual, a proposição teórica mencionada se torna evidente, sobretudo quando são considerados os entraves para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Com efeito, hão de ser analisados os principais intensificadores da temática em questão: o machismo estrutural e a omissão estatal.
Gabriela Larissa de Souza Gurgel.
No filme nacional “Que horas ela volta?”, a empregada doméstica de origem nordestina Val é crucial para o funcionamento de uma casa. Ao mesmo tempo, a personagem é subjugada e mal remunerada por seus patrões, tendo que dormir no quarto dos fundos, por exemplo. De forma semelhante, o Brasil encontra desafios para a valorização do trabalho de cuidado, majoritariamente exercido por mulheres. Isso ocorre porque os papéis de gênero estão enraizados na sociedade e por conta da maioria dessas trabalhadoras compor grupos sociais que já são invisibilizados.
Bruno Henrique Alves dos Santos.
Repertório coringa para qualquer tema
Existe um repertório, digamos, universal, que pode ser utilizado em diversos temas. Fazem parte desse repertório artigos da Constituição de 1988. Principalmente aqueles referentes aos princípios fundamentais (artigos I ao IV) e aos direitos e garantias fundamentais (artigos V ao XVII).
Como exemplo, indicamos abaixo repertórios que podem ser usados amplamente para desenvolver temáticas que envolvam questões relacionadas à cidadania, liberdade, justiça e igualdade:
“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil construir uma sociedade livre, justa e solidária.”
(Artigo 3o)
“Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.”
(Artigo 3o)
“Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.”
(Artigo 5o)
“São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”
(Artigo 6o)
Conhecimentos filosóficos de cunho universal também podem ser usados ao desenvolver um texto de qualquer tema. Por exemplo, questões morais e éticas:
“Tornamo-nos justos praticando atos justos.”
(Aristóteles em Ética a Nicômaco)
“O respeito é a representação de um valor que vai ao encontro do meu amor-próprio.”
(Kant em Fundamentos da metafísica dos costumes)
“A justiça é virtude e sabedoria, e a injustiça vício e ignorância.”
(Platão em A república)
“O homem que recebeu instrução sobre todas as coisas é bom juiz em geral.”
(Aristóteles em Ética a Nicômaco)
“O homem é um ser político e está em sua natureza o viver em sociedade.”
(Aristóteles em Ética a Nicômaco)
Filmes para repertório sociocultural
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FILME |
ASSUNTO |
TEMAS ASSOCIADOS |
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Tempos modernos (dir. Charlie Chaplin, 1936) |
Critica a industrialização, a mecanização e fala sobre as condições do trabalho. |
Trabalho e direitos humanos. |
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2001, uma odisseia no espaço (dir. Stanley Kubrick, 1968) |
Mostra um futuro em que a Inteligência Artificial adquire consciência. |
Inteligência Artificial e humanidade. |
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Laranja mecânica (dir. Stanley Kubrick, 1972) |
O retrato de uma juventude violenta. |
Violência e deficiências do sistema judicial. |
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Ilha das flores (dir. Jorge Furtado, 1989) |
O documentário mostra a forma desumana como seres humanos são tratados e critica o capitalismo. |
Desigualdade social e consumismo. |
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Central do Brasil (dir. Walter Salles, 1998) |
Uma mulher e uma criança, em uma viagem no interior nordestino, evidenciam dramas brasileiros. |
Analfabetismo, desamparo infantil, desigualdade social. |
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Mar adentro (dir. Alejandro Amenábar, 2004) |
Um homem tetraplégico que busca legalmente o direito de morrer com dignidade. |
Eutanásia, direito e liberdade. |
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A onda (dir. Dennis Gansel, 2008) |
Ao falar sobre o autoritarismo, um professor propõe um trabalho que consiste no desenvolvimento de uma autocracia. |
Autoritarismo, manipulação ideológica. |
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A rede social (dir. David Fincher, 2010) |
Conta a história da criação de uma famosa rede social. |
Redes sociais. |
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A garota dinamarquesa (dir. Tom Hooper, 2015) |
Conta a história real de uma mulher trans, uma das primeiras na história a passar por uma cirurgia de redesignação sexual. |
Gênero, direitos humanos, transexualidade, diversidade. |
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Meu pai (dir. Florian Zeller, 2021) |
Mostra a realidade de um homem que tem Alzheimer. |
Alzheimer, dignidade da pessoa idosa, envelhecimento. |
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Ainda estou aqui (dir. Walter Salles, 2024) |
Relata a trajetória de Eunice Paiva após o sequestro e desaparecimento de seu marido, Rubens Paiva, vítima da Ditadura Militar. |
Autoritarismo, ditadura, direitos humanos, Alzheimer, democracia. |
Livros para repertório sociocultural
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LIVRO |
ASSUNTO |
TEMAS ASSOCIADOS |
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A república, de Platão. |
Platão mostra como seria uma república ou país ideal. |
Cidadania e organização social. |
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O diário de Anne Frank, de Anne Frank. |
Diário de uma adolescente judia durante a Segunda Guerra Mundial. |
Adolescência, guerra, autoritarismo, direitos humanos, diversidade. |
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Eichmann em Jerusalém, de Hannah Arendt. |
Análise do julgamento do nazista Adolf Eichmann. |
Autoritarismo, responsabilidade civil, banalidade do mal. |
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O segundo sexo, de Simone de Beauvoir. |
Análise da opressiva condição social histórica da mulher. |
Feminismo, igualdade entre gêneros, opressão. |
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1984, de George Orwell. |
Narra acontecimentos de uma sociedade distópica e autoritária comanda por uma figura opressora chamada de o Grande Irmão. |
Opressão, liberdade, autoritarismo, manipulação da verdade (ou fake news). |
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A revolução dos bichos, de George Orwell. |
Fábula política, que mostra a sublevação dos animais de uma fazenda, que tomam o poder dos humanos e constroem seu próprio sistema político e social. |
Corrupção, opressão, desigualdade social. |
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Vigiar e punir, de Michel Foucault. |
Analisa a história da punição estatal e o controle das ações humanas. |
Controle estatal, relações de poder, vigilância, repressão policial, direitos humanos, sistema carcerário. |
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Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus. |
Diário de uma mulher negra, pobre e moradora de uma favela brasileira. |
Desigualdade social, racismo, questões de gênero, pobreza, marginalização, direitos humanos, precariedade de moradia. |
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Lugar de fala, de Djamila Ribeiro. |
Evidencia as diferenças de classe, étnicas e de gênero e seus respectivos lugares de fala. |
Diferença de classe, racismo, lugares sociais. |
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Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex. |
Denuncia a realidade desumana do sistema manicomial brasileiro. |
Doença mental, direitos humanos, injustiça social, discriminação. |
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Tempos líquidos, de Zygmunt Bauman. |
Analisa a instabilidade da sociedade contemporânea. |
Sociedade contemporânea, globalização, consumismo. |
Obras de arte para repertório sociocultural
A seguir, importantes obras de arte e sua relação com possíveis temáticas:
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Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, retrata uma mulher com sorriso enigmático e postura altiva. Possíveis temas relacionados: questões de gênero, papel da mulher na sociedade, identidade feminina.

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São Jerônimo escrevendo, de Caravaggio, mostra São Jerônimo escrevendo, valoriza a transmissão do conhecimento e ressalta a mortalidade representada pela caveira. Possíveis temas relacionados: transitoriedade da vida humana, envelhecimento.

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A liberdade guiando o povo, de Eugène Delacroix, personaliza a liberdade. Possíveis temas relacionados: liberdade, luta por direitos, causas e consequências da guerra, violência.

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Autorretrato, de Artur Timóteo da Costa, retrata o próprio pintor, um dos poucos pintores negros brasileiros do século XIX. Portanto, apresenta importância não só artística, mas também histórica e política. Possíveis temas relacionados: protagonismo de pessoas negras, representatividade.

Repertório sociocultural sobre cultura
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OBRA |
ASSUNTO |
TEMAS ASSOCIADOS |
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O que é cultura?, de António José Saraiva. |
O livro discute “cultura” como conjunto dinâmico de conhecimentos e tradições. |
A importância da cultura, interação entre culturas, transmissão cultural. |
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A última floresta, de Luiz Bolognesi. |
O documentário mostra os costumes do povo yanomami. |
Cultura indígena, aculturação, garimpo ilegal. |
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Damas do samba, de Susanna Lira. |
O documentário mostra a participação das mulheres na cultura do samba brasileiro. |
Cultura brasileira, protagonismo feminino. |
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Manifestações culturais do Brasil, de Tino Freitas e Graça Ramos. |
O livro em dois volumes mostra toda a riqueza cultural brasileira. |
Diversidade cultural brasileira, tradições populares, identidade cultural. |
Repertório sociocultural sobre educação
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LIVRO |
ASSUNTO |
TEMAS ASSOCIADOS |
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Pedagogia do oprimido, de Paulo Freire. |
Critica a educação tradicional e defende uma educação reflexiva e transformadora. |
Problemas da educação tradicional, combate à desigualdade social, justiça social. |
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Interesse e esforço, de John Dewey. |
Associa o interesse como causa para o esforço em aprender. |
Mudanças na educação tradicional, causas do abandono escolar. |
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A psicologia da inteligência, de Jean Piaget. |
Valoriza a interação social e as experiências no desenvolvimento da inteligência. |
Interação social e desenvolvimento humano, estímulos sociais e educação. |
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O método natural, de Célestin Freinet. |
Valoriza a liberdade e a experiência infantil. |
Problematização dos currículos escolares, práticas educativas em consonância com a realidade. |
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Ensinando a transgredir, de bell hooks. |
Defesa de uma educação politicamente engajada. |
Transformação social por meio da educação, perspectiva ideológica da educação, educação e criticidade. |
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Preconceito linguístico, de Marcos Bagno. |
Mostra que a língua também pode ser utilizada como instrumento de poder. |
Preconceito linguístico, a variedade linguística e as relações de poder. |
Fontes
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Nova Cultural, 1991.
BRASIL. A redação no Enem 2024: cartilha do(a) participante. Brasília: Inep, 2024.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 2020.
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1964.
PLATÃO. A república. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.