Tribos urbanas

As tribos urbanas são grupos sociais que se desenvolvem no ambiente urbano e se constituem por interesses comuns. Têm como principal característica uma identidade comum, que serve como forma de afirmar um senso de pertencimento a uma coletividade, por meio de vestimentas, estilos, perspectiva político-filosóficas e comportamentos.

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São exemplos de tribos urbanas os punks, hippies e geeks, que partilham de uma identidade comum e se organizam socialmente como forma de representar seus estilos de vida particulares. No Brasil, além dessas tribos mencionadas, pode-se observar grupos específicos, como os funkeiros e sertanejos.

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Resumo sobre tribos urbanas

  • As tribos urbanas são grupos sociais que surgem e se organizam socialmente por partilharem interesses ou perspectivas comuns.
  • Entre as principais características, pode-se destacar a existência de uma identidade comum ao grupo, tendo como referências a vestimenta, estilo de vida ou ideologias próprias.
  • Hippies, punks e geeks são exemplos de tribos urbanas populares, que possuem características próprias e formas de organização e representação social distintas.
  • No Brasil, em virtude da globalização, pode-se observar a existência de tribos urbanas presentes em outros países. Além dessas, destaca-se a existência de grupos específicos, que surgem a partir de características específicas de nosso país, como os funkeiros e os sertanejos.
  • As tribos urbanas têm origem a partir da Revolução Industrial e o processo massivo de urbanização.
  • No cinema, diversas obras retratam o estilo de vida das tribos urbanas, como o filme Capitão Fantástico, Pistol e Nosso Sonho.

O que são tribos urbanas?

Representação caricata das variadas tribos urbanas. [imagem_principal]
As tribos urbanas representam os mais diversos modos de viver em sociedade.

As tribos urbanas são definidas como grupos sociais que se organizam ou se associam em razão de interesses comuns. Nesse sentido, observa-se que elas, na contemporaneidade, são homogêneas e compreendem um conjunto completo de relações, interesses, estilos de vida, perspectivas político-filosóficas e até mesmo aspectos morais e religiosos. Esses grupos sociais, ao serem formados por “interesses comuns”, constroem suas identidades sociais e desenvolvem um senso de pertencimento.

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Características das tribos urbanas

  • Vestimenta e estilo: as tribos urbanas, em sua maioria, possuem formas de vestimenta e estilo comuns. Esse processo pode ser observado, por exemplo, em tribos urbanas góticas e roqueiras, com o uso de roupas pretas, correntes, botas, sobretudo, cabelos coloridos ou grandes, além de maquiagem pesada. A vestimenta e o estilo não são aspectos característicos apenas para as tribos urbanas vinculadas ao rock, mas também pode ser observada, por exemplo, em tribos do sertanejo, hip-hop e funk.
Grupo punk com vestimentas características no México.[1]
Grupo punk com vestimentas características no México.[1]
  • Práticas e manifestações culturais: uma das características fundamentais das tribos urbanas consiste na produção de manifestações culturais. Dessa maneira, verifica-se, por exemplo, as batalhas de rima no hip-hop, que são espaços em que os adeptos dessa tribo se encontram para produzir manifestações artísticas como música e poesia. Além disso, pode-se destacar encontros ou eventos sociais como as cavalgadas ou vaquejadas, em que os sertanejos se encontram e reproduzem tradições.
  • Identidade e pertencimento: as tribos urbanas possuem uma identidade muitas vezes fechada, ligada a um conjunto de características partilhadas  pelos integrantes do grupo, como a vestimenta, comportamentos e interesses. Esse processo não é aberto, ou seja, não é flexível em relação a outras tribos, mas sim restrito, isto é, somente os indivíduos que se integram a essas dinâmicas pertencem a tribo.

Exemplos de tribos urbanas

  • Punks: tribo urbana presente em vários países. Esse grupo, guiado por perspectivas político-filosóficas anárquicas, tem o rock como gênero musical característico, o uso de vestimentas pretas, botas, coletes e roupas rasgadas. Além disso, os punks, muitas vezes, adotam uma forma de vida coletivista, ligada à ajuda mútua, coletividade e independência frente às instituições sociais. Essa tribo surgiu, sobretudo, em 1970, nos Estados Unidos, onde os jovens, muitas vezes desiludidos com os rumos da sociedade, pregavam a rebeldia e a cultura do “faça você mesmo” como forma de se contrapor à sociedade.
  • Hippies: também constituem uma tribo urbana popular, presente em diversos países. Esse grupo, que surgiu nos anos 1960, buscava repensar o estilo de vida do capitalismo, propondo uma filosofia amparada na vida comunitária, no modo de vida nômade e na luta pela emancipação social. Desse modo, os hippies, em sua máxima, defendem a paz e o amor como contraposição à guerra e à exploração capitalista. Além disso, caracterizam-se pelo uso de roupas leves, muitas vezes produzidas por eles mesmos, pela rejeição a produtos ou bens industrializados.
  • Geeks: constituem uma tribo urbana por essência. Desse modo, ao serem pensados como um grupo social amparado diretamente na urbanidade, essa tribo se organiza a partir do interesse comum em tecnologia, eletrônica, jogos, além da cultura “fantástica”, como quadrinhos, mangás, animes, filmes e séries. Embora não se possa precisar a origem dessa tribo urbana, pode-se destacar que a partir dos anos 1990, principalmente por meio da popularização das feiras de tecnologia e das convenções para amantes de quadrinhos, como a Comic-Con, essa tribo passou a se apresentar socialmente e se constituir como um grupo social relevante.

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Tribos urbanas no Brasil

As tribos urbanas no Brasil estão, muitas vezes, relacionadas a movimentos que ocorrem em outras partes do mundo. Nesse sentido, é importante considerar que muitas das tribos urbanas presentes em nossa sociedade surgiram, sobretudo, por influência de um movimento de globalização da cultura e da “contracultura”. Dessa forma, pode-se destacar que em nosso país existem tribos urbanas como, por exemplo, os punks, que foram diretamente responsáveis pelo ressurgimento do rock nacional, com bandas como Legião Urbana, Capital Inicial, Garotos Podres e Cólera.

Além disso, pode-se destacar também os hippies, que desenvolveram, no Brasil, uma ligação mais próxima com a natureza e a defesa do meio ambiente. Ademais, a partir do século XXI, por meio da popularização da internet e dos computadores, evidencia-se o surgimento dos geeks, que passaram a se reunir e promover eventos culturais próprios, como feiras de anime, encontros de amantes da cultura japonesa, além de eventos como a Comic-Con Brasil.

Todavia, embora o Brasil compartilhe das mesmas tribos urbanas que outros países, há tribos que surgem especificamente no país e são fruto das relações sociais que se desenvolvem nessa sociedade, a saber:

  • Funkeiros: esse movimento surge, sobretudo a partir dos anos 1990, nas periferias e favelas brasileiras. Fruto da influência do hip-hop e do rap nacional, a cultura do funk surgiu primeiramente na música e depois se expandiu para outros marcadores, como a vestimenta e o estilo. Nesse sentido, os funkeiros possuem uma forma de identificação muito particular, com o uso de roupas representativas do hip-hop, com o incremento de estilos ligados ao esporte, tênis, camisas e óculos, além da base musical amparada em um estilo eletrônico, com letras vinculadas à experiência periférica.
Apresentação de funk durante o Rock in Rio.[2]
Apresentação de funk durante o Rock in Rio.[2]
  • Sertanejo: essa tribo urbana, embora guarde direta relação com o movimento folk e country dos Estados Unidos, desenvolveram no Brasil formas únicas de representação e de identidade. Nesse sentido, pode-se observar que essa tribo se apresenta, principalmente, por meio do uso de vestimentas ligadas ao ambiente rural, com o uso de chapéus, botas, camisas e cintos que remetem a roupas típicas da vida no campo. Essa tribo, por sua vez, se apresenta por meio da música e eventos como cavalgadas e vaquejadas, além de incorporarem elementos culturais do “moderno” como um estilo musical também atrelado ao eletrofunk e à música eletrônica.

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Tribos urbanas na atualidade

Na atualidade, as tribos urbanas são mobilizadas para um cenário de constante transformação e mutação. Nesse sentido, observa-se que o fenômeno da globalização possibilitou que diferentes tribos urbanas pudessem surgir em diferentes contextos sociais e políticos. Esse processo de contato entre as culturas operou sobre as tribos urbanas uma dinâmica de mutação, ou seja, uma transformação de suas bases e a adoção de elementos específicos do contexto em que elas surgiram, bem como uma dinâmica de assimilação, em que diferentes tribos se fundem e dão origem a novas formas de representação.

Desse modo, verifica-se, por exemplo, a cultura geek, que assimila elementos da cultura nerd e otaku, dando origem a uma tribo mais ampla e representativa desses grupos. Ademais, destacam-se ainda que determinadas tribos tendem a desaparecer ou ser apreendidas por outras tribos, como é o caso dos emos, que foram populares nos anos 2000 e passaram a ser incorporados por tribos urbanas maiores e mais consolidadas, como os roqueiros e góticos.

Concomitantemente, verifica-se que na atualidade, principalmente em razão da globalização, tribos urbanas com menor expressão passaram a se tornar mais populares. Esse processo pode ser observado, por exemplo, com a difusão das culturas japonesas e coreanas, que deram origem a tribos urbanas como os otakus e kpopers, respectivamente.

Origem das tribos urbanas

A origem das tribos urbanas ocorre conjuntamente com o processo de urbanização das sociedades, principalmente a partir da Revolução Industrial. A Revolução Industrial, bem como o surgimento do capitalismo, modificou profundamente as bases da sociedade e corroborou para um processo em que as instituições e bases da antiga sociedade feudal se esfaleceram. Nesse sentido, esse senso de pertencimento, que dava coesão social por meio das instituições — como a família e a religião — foi modificado para outras bases.

As tribos urbanas, em razão disso, surgem como novas formas de pertencimento e identidade, conectando diferentes indivíduos a partir de interesses, perspectivas ou comportamentos sociais comuns.

Filmes sobre tribos urbanas

No audiovisual, pode-se observar um conjunto de obras que retratam e representam modos de vida e relações sociais de tribos urbanas.

  • Capitão Fantástico (2016): o filme retrata o modo de vida hippie, em que um pai busca criar os filhos longe da civilização e da perspectiva do consumo exacerbado. Nesse sentido, a criação dos filhos é realizada por meio do trabalho comunitário e do modo de vida autossustentável. O filme também aborda os conflitos entre esse modo de vida e a presença da vida no ambiente urbano, tecnológico e consumista.  
  • Pistol (2022): obra retrata o estilo de vida punk nos anos 1970, tendo como base a emblemática banda de punk rock “Sex Pistols”. Dessa maneira, a produção, ao focar no surgimento da banda, permite compreender como essa tribo urbana se organiza em termos de identidade e de representação. Além disso, Pistol aborda os conflitos da banda com o ex-vocalista Sid Vicious, em virtude do consumo de álcool e drogas.
  • Nosso sonho (2023): o filme retrata o estilo de vida dos “funkeiros” no início dos anos 2000, no Brasil. Centrando-se na trajetória da dupla Claudinho e Buchecha, o filme mostra os desafios e a busca por reconhecimento desse grupo no cenário cultural. Além disso, a obra retrata os dilemas enfrentados pelos personagens na produção de formas de cultura periféricas.

Curiosidades sobre as tribos urbanas

  • O punk é uma tribo urbana que surge com forte influência do estilo de vida hippie, tendo o coletivismo e o anarquismo como perspectivas ideológicas.
  • O Festival Woodstock (1969) contribuiu significativamente para o surgimento e posterior fortalecimento da cena musical de tribos urbanas como os hippies.
  • Os hippies assumem maior expressividade e popularidade, sobretudo, a partir das campanhas contra a Guerra do Vietnã (1955-1975). Por meio da campanha contra a guerra, essa tribo desenvolveu seu slogan mais popular, isto é, a defesa da “Paz e Amor”.

Créditos da imagem

[1] Alejandro_Munoz / Shutterstock

[2] A.PAES / Shutterstock

Referências

FREHSE, Fraya. As realidades que as" tribos urbanas" criam. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 21, p. 171-174, 2006.

FURTADO, Janaina Rocha. Tribos urbanas: os processos coletivos de criação no graffiti. Psicologia & sociedade, v. 24, p. 217-226, 2012..

MAGNANI, José Guilherme Cantor. Tribos urbanas: metáfora ou categoria? Cadernos de Campo (São Paulo-1991), v. 2, n. 2, p. 48-51, 1992.

Escritor do artigo
Escrito por: Matheus Felipe Gomes Dias Bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (FCS/UFG). Mestre e doutorando em Sociologia pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (ICS/UnB). Tem interesse nas temáticas dos estudos sobre identidade, neoliberalismo, teoria sociológica e metodologias de pesquisa

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