Allan Kardec
Allan Kardec, pseudônimo do professor e escritor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, foi o principal responsável pela sistematização dos princípios que deram origem à doutrina espírita. No contexto da expansão do positivismo na Europa, ao longo do século XIX, diferentes áreas do conhecimento passaram a adotar uma postura mais crítica e investigativa diante de fenômenos até então explicados predominantemente por concepções religiosas. Nesse cenário, os fenômenos naturais passaram a ser examinados por meio de métodos científicos fundamentados na observação e no empirismo, contribuindo para avanços em áreas como física, química e biologia. Foi nesse contexto que Kardec se interessou pelo fenômeno conhecido como “dança das mesas” ou “mesas girantes”, que se popularizava em diferentes partes do mundo. Suas investigações envolveram o contato com médiuns e espiritualistas, que atribuíam os movimentos das mesas à manifestação de espíritos e relatavam formas de comunicação com os vivos, entre elas a psicografia. A partir da análise e da organização dos textos obtidos nessas sessões, Kardec publicou obras que estabeleceram os fundamentos do espiritismo.
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Resumo sobre Allan Kardec
- Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, nasceu na França, em 1804. Ele foi o principal responsável por codificar e registrar os preceitos da doutrina espírita.
- Antes de se dedicar ao espiritismo, próximo dos cinquenta anos de idade, Allan Kardec ocupava o ofício de professor e pedagogo.
- Kardec foi um dos principais nomes da “fé racional”, que procurava compreender as manifestações dos espíritos por meio de análises científicas.
- Uma das primeiras manifestações espirituais observadas por Kardec foi a “dança das mesas”, na qual determinadas mobílias pareciam se mexer sozinhas para contatar os vivos.
- Entre as crenças centrais de Kardec, registradas em suas obras, incluem-se a reencarnação, a imortalidade espiritual, a multiplicidade dos planos espirituais e a hierarquia dos espíritos.
- A sua obra precursora, “O Livro dos Espíritos” (1857), é a síntese primordial da filosofia espírita.
- Além da publicação de diversas obras parcialmente psicografadas, Allan Kardec foi responsável pela criação da Revista Espírita e da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
- Allan Kardec faleceu em 1869 e está atualmente sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.
- Um dos principais legados de Allan Kardec foi a disseminação do espiritismo pelo mundo, especialmente no Brasil.
Quem foi Allan Kardec?
Allan Kardec foi o principal responsável por codificar, organizar e registrar os fundamentos da doutrina espírita. Nascido na cidade francesa de Lyon, em 1804, Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, exerceu o ofício de pedagogo e publicou diversos artigos acadêmicos que incluíam tópicos sobre educação, gramática e aritmética. Casou-se com a professora Amélie Gabrielle Boudet Rivail, em 1832, e não teve filhos.
Como espiritualista ativo, suas atividades se iniciaram apenas aos mais de 50 anos de idade, dedicando-se à publicação de livros (muitos dos quais parcialmente psicografados por médiuns de sua confiança), à fundação e direção da Revista Espírita, à criação e presidência da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, entre outras.
A sua obra precursora, “O Livro dos Espíritos”, lançada primeiramente em 1857, constitui a síntese filosófica fundamental entre os estudiosos e médiuns espíritas. Ele morreu com 65 anos, após cerca de catorze anos de dedicação aos estudos dos fenômenos mediúnicos.
Nome verdadeiro de Allan Kardec
O nome verdadeiro de Allan Kardec era Hippolyte Léon Denizard Rivail. A razão para a criação do pseudônimo, de acordo com ele mesmo, era diferenciá-lo das atividades como professor. Ele afirmava que o nome provinha de uma encarnação distante, de quando havia sido um sacerdote druida da antiga cultura celta.
Em que Allan Kardec acreditava?
Allan Kardec acreditava que a espiritualidade e suas entidades poderiam ser compreendidas por meio de análises racionais e científicas — uma filosofia compreendida por alguns espíritas como “fé racional”. O acesso a essas informações seria obtido por meio da comunicação entre os médiuns (do mundo material) e os espíritos (do mundo imaterial).
Essas crenças, refletidas nas características do espiritismo kardecista, foram registradas em livros parcialmente psicografados. Neles, levantou hipóteses sobre a reencarnação, a multiplicidade dos planos espirituais e a hierarquia dos espíritos (entre imperfeitos, bons e puros), ao mesmo tempo em que procurou desconstruir os dogmas construídos por crenças supersticiosas, definidas especialmente pela religião no decorrer do tempo. Um dos exemplos mais conhecidos pelo espiritismo, nesse sentido, é a crença de mundos com diferentes propósitos que auxiliam no progresso espiritual de cada entidade, que, por sua vez, possui um espírito imortal.
No kardecismo, diferentemente de como pregam muitas tradições religiosas, uma alma não poderia ir para o inferno, purgatório ou paraíso após o ciclo da vida, conforme a associação geralmente axiomática desses lugares como físicos e eterno. Isso significa que o espírito passaria por um processo de desenvolvimento constante, experimentando reencarnações sucessivas, na Terra ou em outros mundos, que o amadureceriam e o levariam a superar a maldade e os instintos mais primitivos (em grande parte das religiões, os maus espíritos, ou os menos evoluídos, estariam associados aos demônios e outras criaturas malignas).
Dessa forma, novas ações de um espírito que envolvessem caridade, bondade e outras virtudes seriam refletidas ainda em sua mesma existência material ou em vidas próximas, muitas vezes em um plano superior que não a Terra; igualmente, crê-se na existência de lugares espiritualmente menos desenvolvidos que o nosso mundo, onde as provações de cada ser tendem a ser ainda mais dificultosas.
Esse ciclo explicaria a existência de entidades reconhecidas muitas vezes como anjos e divindades, que são espíritos mais evoluídos que aqueles que vivem no mundo material. Em casos excepcionais, um espírito evoluído poderia se voluntariar para auxiliar na evolução espiritual dos habitantes de planos inferiores. O maior exemplo seria Jesus Cristo, uma entidade muito mais evoluída que aquelas que compõem a humanidade, cujo espírito se dedicou a ensinar o amor, a compaixão e outras virtudes, mesmo tendo previamente reconhecido seu trágico fim antes de encarnar. Acima de todos os entes, Deus age de forma onipresente e onisciente como a Causa Primária e a Inteligência Suprema.
Não menos importante, Kardec defendia a importância do esquecimento das vidas passadas no processo evolutivo dos espíritos. Se o espírito se lembrasse das experiências anteriores, não poderia progredir devidamente devido à tendência de manipular o processo de seu próprio aprendizado. Essas informações só seriam consideradas em seu estado imaterial e desencarnado, cujas provações em vida seriam escolhidas antecipadamente por cada um.
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Mentor espiritual de Allan Kardec
Allan Kardec se referenciava a seu mentor espiritual como Espírito de Verdade, designado como uma entidade muito evoluída e muitas vezes associada ao Espírito Santo.
No livro de João, na Bíblia Sagrada, esse espírito, também referenciado como Paráclito, que em grego significa “consolador”, é apresentado como aquele “que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece” (14:17), mas que constantemente “recordará tudo o que vos tenho dito” (14:26).|1| Nesse sentido, o Espírito de Verdade seria o responsável por relembrar à humanidade os ensinamentos dados por Deus por meio de Jesus Cristo.
Allan Kardec, então, seria um dos mensageiros da entidade por meio da codificação das manifestações espirituais, nas quais o Espírito de Verdade se identificou da seguinte forma: “Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos.”|2|
Allan Kardec e o espiritismo
Allan Kardec é considerado por grande parte da comunidade espírita não como o fundador do espiritismo, mas um dos mais importantes codificadores que conceituaram a filosofia da doutrina por meio de seus livros, artigos e palestras.
O espiritismo surgiu no século XIX como um fenômeno quase indissociável ao seu contexto histórico: as sociedades europeias — com grande destaque para os franceses — passaram a se interessar enfaticamente pela ideologia positivista. Desenvolvido pelo filósofo francês Auguste Comte naquele mesmo século, o positivismo atribuía a obtenção do conhecimento ao empirismo (experiência da tentativa e erro) e à razão científica, em constante exercício de progresso, ao passo que procurava superar os dogmas religiosos e superstições.
Não por acaso, o método se tornou o princípio básico de todas as áreas de conhecimento possíveis de se aplicar, e também na França o professor Hippolyte Léon buscou explicar as manifestações sobrenaturais por meio de um viés científico. A primeira delas a ser observada, por volta da metade do século XIX e em diversos lugares do mundo, foi a “dança das mesas”, em que certos objetos — especialmente mesas — começaram a se mexer supostamente sozinhas.
O fenômeno foi primeiramente analisado por meio dos preceitos da física, mas os resultados se mostraram inconclusivos; a partir de então, o fenômeno passou a ser acompanhado por médiuns, que foram impelidos a se comunicarem com as entidades espirituais por meio de lápis e papel (de forma semelhante às sessões com tabuleiros ouija, populares no século seguinte). Entretanto, a psicografia se mostrou o método mais prático de comunicação entre o mundo material e o imaterial.
Allan Kardec foi o maior codificador dos preceitos fundamentais do espiritismo. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, ele não psicografava seus textos mecanicamente, mas analisava e compilava sistematicamente os registros dos médiuns que julgava serem de sua confiança. Entre os primeiros registros apresentados por Kardec, apontou-se a existência de Deus como um ser dotado de inteligência suprema, “eterno, infinito, imutável, imaterial, único, todo-poderoso e soberanamente justo e bom”|3|, mas sem diminuir a importância das leis do universo e dos fenômenos da natureza. Também são mencionadas a imortalidade do espírito e a necessidade de reencarnar para se atingir o aperfeiçoamento em inteligência e moral. Os vastos registros de cada fenômeno observado e codificado por Kardec foram dispostos em suas obras (apresentadas no tópico “Obras de Allan Kardec”, mais abaixo) e se tornaram os alicerces do espiritismo.
Morte de Allan Kardec
Allan Kardec faleceu em Paris em decorrência de um aneurisma cerebral (alguns biógrafos sugerem ainda um infarto fulminante) no dia 31 de março de 1869. Ele foi sepultado no Cemitério de Montmartre e posteriormente transferido para o Cemitério do Père-Lachaise.
Legado de Allan Kardec
A “fé racional” proposta por Allan Kardec foi um dos princípios espiritualistas mais difundidos da história contemporânea, especialmente no Brasil.
Atualmente, o espiritismo kardecista conta com cerca de 13 milhões de adeptos no mundo — cerca de 3,18 milhões apenas no Brasil (1,8% da população) de acordo com a publicação de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Federação Espírita Brasileira, no entanto, estima a existência de mais de 30 milhões de simpatizantes (que podem seguir outra religião, mas são adeptos da doutrina espírita), apesar das declarações do IBGE. Esdes números colocam o Brasil como o principal polo do espiritismo kardecista do mundo.
A filosofia kardecista serviu de influência para a criação de diversas instituições filantrópicas (sem fins lucrativos), entre hospitais, creches, centros de distribuição de alimentos, centros espíritas, entre outros, geralmente vinculadas à Federação Espírita Brasileira. Além disso, a doutrina teve influência no sincretismo cultural e religioso manifestado em grande parte pela umbanda, que combina elementos de fé africana, indígena, católica e espírita. Também no Brasil, tornou-se popular a personalidade de Chico Xavier, que foi considerado internacionalmente como um dos mais importantes médiuns da doutrina espírita.
Obras de Allan Kardec
As obras de Allan Kardec, além da compilação de artigos publicados entre 1858 e 1869 na Revista Espírita, incluem:
- O Livro dos Espíritos (1857)
- O que é o Espiritismo? (1859)
- O Livro dos Médiuns (1861)
- O Espiritismo em sua expressão mais simples (1862)
- Viagem espírita em 1862 (1862)
- O Evangelho segundo o Espiritismo (1864)
- O Céu e o Inferno (1865)
- A Gênese (1868)
- Obras póstumas (1890)
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Frases de Allan Kardec
Por meio da escrita, Allan Kardec registrou frases de sua própria autoria ou da psicografia de médiuns. Entre elas, extraídas de seus livros, pode-se ler:
- “[Deus] criou o universo, que compreende todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais.”
- “Os fenômenos espíritas se fundamentam na ação das inteligências que têm vontade própria e nos provam a cada instante que não estão à disposição dos nossos caprichos.”
- “A alma é um Espírito encarnado, sendo o corpo apenas o seu envoltório.”
- “Entre os Espíritos que se comunicam espontaneamente, há para nós muito mais desconhecidos do que os ilustres [...]; o nome das pessoas ilustres impressiona mais, é por isso que são mais notados.”
- “Os Espíritos pertencem a diferentes classes e não são iguais em poder, inteligência, saber e nem em moralidade.”
- “[Das várias encarnações,] resulta que todos nós tivemos muitas existências e que ainda teremos outras que, aos poucos, nos aperfeiçoarão, seja na Terra, seja em outros mundos.”
- “Fisicamente, o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a inventar com a inteligência [...].”
- “Quem pode nos assegurar que aqueles que dizem ter sido, por exemplo, Sócrates, Júlio César, Carlos Magno [...] etc. tenham realmente animado esses personagens? [...] Essa comprovação é, de fato, muito difícil de estabelecer, já que não pode ser apurada de uma maneira tão prática e simples como por meio de um documento de identidade.”
- “Os bons Espíritos nos atraem e estimulam para o bem, sustentando-nos nas provações da vida e ajudando-nos a suportá-las com coragem e resignação; os maus nos sugestionam para o mal — é um prazer para eles nos ver fracassar e nos assemelharmos a eles.”
- “Os Espíritos são atraídos em razão de sua simpatia pela natureza moral do ambiente em que são evocados.”
- “Distinguir os bons dos maus Espíritos é extremamente fácil: a linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna, nobre, repleta da mais alta moralidade, livre de toda paixão inferior.”
- “Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por este fato, médium.”
- “Orai, cada um, segundo as vossas convicções e o modo que mais vos toca.”
- - “O progresso da humanidade tem seu princípio na aplicação da lei de justiça, amor e caridade.”
- “Por muito tempo, os homens se estraçalharam e se amaldiçoaram em nome de um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-O com semelhante sacrilégio; o Espiritismo é o laço que os unirá um dia, porque mostrará onde está a verdade e onde está o erro.”
Notas
|1| BÍBLIA SAGRADA: Edição Pastoral-Catequética. São Paulo: Editora Ave Maria, p.1404-1405, 2003.
|2| apud KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, p.148, 2004.
|3| KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: Petit, p.46, 2012.
Fontes:
BÍBLIA SAGRADA: Edição Pastoral-Catequética. São Paulo: Editora Ave Maria, 2003.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Censo Demográfico 2022 – Religiões: Resultados preliminares da amostra, 2025. Disponível em <https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv102182.pdf>.
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: Petit, 2012.
SAUSSE, Henri. Biografia de Allan Kardec. Brasília: FEB, 2020.
SIMONETTI, Richard. Espiritismo: tudo o que você precisa saber. Bauru: CEAC, 2011.