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Talibã e a retomada do poder no Afeganistão

2021 é o ano em que o grupo fundamentalista Talibã retornou ao poder do Afeganistão após ter sido derrubado 20 anos atrás.
Ashraf Ghani, presidente do Afeganistão desde 2014, fugiu do país com o avanço do Talibã.[1]
Ashraf Ghani, presidente do Afeganistão desde 2014, fugiu do país com o avanço do Talibã.[1]

O Talibã é um grupo fundamentalista que surgiu no Afeganistão em 1994, durante a Guerra Civil Afegã. Esse grupo governou o país durante cinco anos e foi derrubado, em 2001, pela invasão norte-americana. Em 2021, o Talibã retomou o poder do Afeganistão após o governo norte-americano anunciar a retirada permanente de suas tropas do país.

Acesse também: Estado Islâmico, o grupo fundamentalista que dominou parte do Iraque e Síria

Resumo

  • Em 2021, o Talibã retomou o poder do Afeganistão depois que as tropas norte-americanas retiraram-se do país.

  • O Talibã é um grupo fundamentalista que surgiu em 1994 e que governou o Afeganistão de 1996 a 2001.

  • Em 2001, foram derrubados depois da invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos.

  • A campanha militar do Talibã foi fulminante, e a chegada dele a Cabul levou pânico à população.

  • O Talibã anunciou que não procura vingança e garantiu manter alguns direitos das mulheres, mas a comunidade internacional vê esses anúncios com desconfiança.

Contexto

O Afeganistão é um país asiático que fica em uma região, do ponto de vista geopolítico, considerada estratégica, pois está próxima de potências globais, como a China e Rússia, e de potências regionais, como o Irã e o Paquistão. A importância desse país o tornou alvo de disputa de interesses que se arrasta por décadas.

O atual momento do Afeganistão é crítico e exige atenção minuciosa de toda a comunidade internacional, uma vez que não se sabe ainda quais serão os efeitos de tudo que se passa nesse país asiático. O entendimento do que acontece no Afeganistão passa, obrigatoriamente, por conhecer o que é o Talibã e como ele surgiu.

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Surgimento do Talibã

O Talibã é um grupo fundamentalista islâmico que defende a aplicação de uma interpretação radical da Sharia, a lei islâmica. Essa lei, basicamente, é o conjunto de orientações dadas aos muçulmanos com base no Corão e nas ações de Muhammad (profeta Maomé) e das fatwas, decretos religiosos emitidos pelos estudiosos do islamismo.

O Talibã surgiu em um cenário de instabilidade do Afeganistão, após anos de guerra. O surgimento dessa organização fundamentalista aconteceu em 1994, durante a Guerra Civil Afegã, conflito que se iniciou depois que o governo socialista do Afeganistão foi derrubado, em 1992. O Talibã surgiu no interior dos mujahidin — os guerreiros santos que lutaram no país contra os soviéticos.

Os mujahidin se estabeleceram no país a partir de 1979, quando os Estados Unidos, Arábia Saudita e Paquistão passaram a financiar, armar e treinar rebeldes para lutarem contra o governo socialista do país e contra os soviéticos, que invadiram o Afeganistão em 1979. Entre eles, uma parte considerável era de extremistas religiosos.

Os mujahidin conseguiram expulsar os soviéticos do Afeganistão em 1989 e derrubaram os socialistas do poder em 1992. Formou-se um novo governo no Afeganistão, mas as diferenças de interesses no grupo levaram ao início de uma nova guerra. Havia aqueles que possuíam visões moderadas, seculares e progressistas, e aqueles que eram radicais, fundamentalistas religiosos e conservadores.

Dentro desse segundo grupo, surgiu o Talibã. Essa organização foi fundada por Mohammed Omar, também conhecido como Mulá Omar. O Talibã surgiu como uma milícia armada e contou com a adesão de muitos estudantes das escolas religiosas do Afeganistão, as madrasas. O termo taliban, em pachto, significa “estudantes”, uma referência a esses alunos das madrasas.

Em 1996, o Talibã tomou Cabul e formou um governo no Afeganistão, nomeando o país Emirado Islâmico do Afeganistão. O governo do Talibã foi violento e autoritário, conhecido por promover açoitamentos e amputações em público, bem como execução de opositores.

As mulheres, em particular, foram um dos grupos que mais sofreram com as inúmeras violências do Talibã. Elas eram proibidas de trabalhar (com exceção da área da saúde) e estudar, não podiam andar nas ruas sozinhas, eram obrigadas a usar a burca, e as punições para as que descumprissem isso eram bastante severas.

Acesse também: Muhammad, o profeta do islamismo, dando origem a essa religião no século VII

Queda do Talibã

Soldados norte-americanos no Afeganistão.
A invasão do Afeganistão por tropas norte-americanas em 2001 levou à queda do Talibã do poder.[2]

Em 2001, o Talibã foi derrubado por tropas da Otan, lideradas pelos Estados Unidos. A invasão do Afeganistão foi consequência do 11 de setembro, quando atentados terroristas foram realizados nos Estados Unidos, resultando na morte de quase três mil pessoas.

Esse ataque foi coordenado pela Al-Qaeda, grupo fundamentalista liderado por Osama bin Laden, um radical da Arábia Saudita. A Al-Qaeda, como o seu líder, abrigava-se em território afegão, e isso fez com que os Estados Unidos exigissem que o Talibã expulsasse-a de lá e lhes entregasse Bin Laden.

A negativa do Talibã em cooperar com os Estados Unidos levou a uma reação do governo norte-americano. Em outubro de 2001, uma operação militar liderada pelos norte-americanos foi iniciada, e, em dezembro, o Talibã já havia sido destituído do poder afegão. Com isso, iniciaram-se os preparativos para a formação de um novo governo no Afeganistão.

A queda do Talibã não representou o fim dessa organização fundamentalista. Apesar de enfraquecidos, eles ainda estavam presentes no interior do país, e isso ficou evidenciado pelo fato de que os novos governos afegãos não conseguiam estender seu poderio para essa região. O Talibã também procurou expandir sua presença para locais como o Paquistão.

Nesse período de enfraquecimento, o Talibã se financiou por meio da produção de ópio, venda de heroína, mineração, extorsão, entre outros meios. Enquanto esteve fora do poder, o Talibã sofreu mudanças nos seus quadros. O fundador do grupo, Mohammad Omar, morreu em 2013, e, desde 2016, seu líder é Mawlawi Hibatullah Akhundzada.

  • Videoaula sobre a Al-Qaeda

Retorno do Talibã ao poder do Afeganistão

Vista aérea de Cabul, capital do Afeganistão.
Em agosto de 2021, as tropas do Talibã entraram em Cabul, capital do Afeganistão.

A ocupação norte-americana do Afeganistão foi um fracasso de muitas maneiras. Os Estados Unidos não conseguiram destruir em definitivo o Talibã e a Al-Qaeda e não conseguiram formar governos democráticos estáveis no país. Como vimos, o poderio dos governos afegãos era bem limitado no interior e concentrava-se apenas em Cabul.

Além disso, a corrupção tornou-se um problema gigantesco no Afeganistão, pois prejudicava a confiança da população no governo. O governo do país estava nas mãos de Ashraf Ghani desde 2014, e o Afeganistão possuía uma Constituição, promulgada em 2004 como parte dos esforços de reconstrução do país.

Acontece que os Estados Unidos e outras nações ocidentais não conseguiram viabilizar uma saída democrática para o país asiático, e, passados 20 anos de governos, a democracia ainda era frágil nele. Além disso, o governo norte-americano investiu no treinamento do exército afegão, como forma de garantir autonomia para o território.

O fracasso em reconstruir o país e o passar dos anos tornaram a ocupação do Afeganistão extremamente impopular nos Estados Unidos. Os diálogos pela retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão são de longa data. O ex-presidente Barack Obama prometeu, durante sua campanha eleitoral, que as retiraria, mas não cumpriu sua promessa.

O ex-presidente Donald Trump fez a mesma promessa e foi além: decidiu negociar com o Talibã. O governo de Trump queria garantias de paz por parte do grupo, mas as negociações entre os dois lados não avançaram. No fim, Trump também não cumpriu com sua promessa.

Além de todos esses fatores mencionados, a ocupação norte-americana no Afeganistão era excessivamente onerosa para os cofres norte-americanos. Só o treinamento do exército afegão custou 83 bilhões de dólares, enquanto que toda a ocupação no Afeganistão, ao longo de 20 anos, custou mais de dois trilhões de dólares.

Esse cenário fez com que o governo de Joe Biden decidisse pela retirada das tropas norte-americanas do Afeganistão. O presidente norte-americano definiu setembro para concluir essa a ação, mas ela foi adiantada para agosto de 2021. Joe Biden escorou sua decisão no fato da guerra ser muito impopular atualmente.

Isso possibilitou com que o Talibã avançasse pelo território do Afeganistão para reconquistar o país. O grupo havia aumentado sua atuação no Afeganistão desde que a Otan retirou suas tropas, e a saída definitiva dos EUA fez com que ele iniciasse uma campanha militar que reconquistou grande parte do território afegão.

A campanha militar do Talibã foi fulminante, e, em menos de duas semanas, todas as grandes cidades do país foram conquistadas e ocupadas pelos fundamentalistas. O presidente do país fugiu quando Cabul, a capital, foi cercada por tropas do grupo. Ashraf Ghani está exilado nos Emirados Árabes Unidos.

Acesse também: Guerra Civil Síria, conflito que se estende há mais de 10 anos

Futuro do Afeganistão com o Talibã no poder

Após a chegada do Talibã a Cabul, cenas de desespero foram vistas, pois a população teme pelo que vai acontecer com o país sob o comando desse grupo. Milhares fugiram e outros milhares tentam escapar do país. Muitos temem que o grupo vá se vingar de todos os que cooperaram com os estrangeiros durante os 20 anos de ocupação norte-americana.

Nações como os Estados Unidos e o Canadá já anunciaram que não reconhecerão o governo do Talibã, mas potências como Rússia e China já demonstraram interesse em manter relações diplomáticas com o grupo fundamentalista. Acredita-se que ambos países tenham fortes interesses no Afeganistão e veem no Talibã uma forma de estabilizar o país e tirá-lo da influência ocidental.

O grupo que mais teme o retorno do Talibã são as mulheres. Isso porque a primeira passagem dele pelo poder afegão demonstrou toda a sua opressão sobre elas. Muitas temem não poder mais trabalhar e estudar, assim como temem ser obrigadas a usar a burca e se casar com membros do grupo radical.

O Talibã anunciou, por meio de seu porta-voz, que não procura vingança contra aqueles que ajudaram os estrangeiros e que permitirá que as mulheres continuem a estudar e trabalhar, desde que dentro dos termos da Sharia. Protestos que aconteceram no país contra o Talibã já foram reprimidos com violência, e a comunidade internacional observa com desconfiança os desdobramentos desse retorno.

Créditos das imagens:

[1] Gints Ivuskans e Shutterstock

[2] Trent Inness e Shutterstock

Publicado por Daniel Neves Silva

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