Metrificação

A metrificação é a análise da medida dos versos de um poema, feita principalmente pela contagem de suas sílabas poéticas. Essa contagem considera a sonoridade das palavras e pode ser diferente da divisão silábica gramatical.

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Leia também: Quais são os tipos de verso?

Resumo sobre metrificação

  • Metrificação é a análise da medida dos versos, realizada por meio da contagem de suas sílabas poéticas.
  • As sílabas poéticas são determinadas pela sonoridade do verso e nem sempre correspondem às sílabas gramaticais das palavras.
  • Na metrificação, a contagem termina na última sílaba tônica de cada verso.
  • A escansão é o procedimento de separar e contar as sílabas poéticas para determinar a métrica do verso.

O que é metrificação?

A metrificação é a análise da medida ou extensão dos versos de um poema. Essa medida é chamada de metro e corresponde ao número de sílabas poéticas presentes no verso.

As sílabas poéticas não são necessariamente iguais às sílabas gramaticais. Na divisão gramatical, cada palavra é separada individualmente conforme as regras da língua. Já na metrificação, considera-se principalmente como os sons são pronunciados durante a leitura do verso. Exemplo:

Amor é fogo que arde sem se ver.

Na divisão silábica gramatical, as palavras apresentam, ao todo, 11 sílabas:

A-mor / é / fo-go / que / ar-de / sem / se / ver

Porém, na contagem poética, as sílabas de “que” e “ar-”, de “arde”, podem ser pronunciadas juntas:

A / mor / é / fo / go / que ar / de / sem / se / ver

Assim, o verso apresenta 10 sílabas poéticas e é classificado como decassílabo.

Além disso, a contagem das sílabas poéticas termina na última sílaba tônica do verso. Caso existam sílabas átonas depois dela, elas não são contabilizadas. Veja:

É ferida que dói e não se sente.

É / fe / ri / da / que / dói / e / não / se / sen(te)

Nesse verso, a última palavra (“sente”) tem a última sílaba (“te”) com pronúncia menos forte do que a anterior (“sen”). Por isso, a última sílaba não é contada, e a contagem para na penúltima sílaba. Portanto, esse verso também tem 10 sílabas tônicas, sendo um decassílabo.

Por isso, metrificar um poema não significa simplesmente separar suas palavras em sílabas: é necessário observar a sonoridade e o ritmo da leitura.

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Recursos da metrificação

Na leitura poética, alguns sons vocálicos podem ser unidos ou separados. Esses fenômenos interferem na quantidade de sílabas métricas e ajudam a organizar o ritmo dos versos.

  • Sinalefa

A sinalefa ocorre quando vogais pertencentes a palavras diferentes são pronunciadas em uma única sílaba poética. Observe:

Amor é fogo que arde sem se ver.

A / mor / é / fo / go / que ar / de / sem / se / ver

No verso “Amor é fogo que arde sem se ver”, a união entre a vogal final de “que” e a vogal inicial de “arde” permite que as duas sejam contabilizadas como uma única sílaba poética.

  • Elisão

A elisão ocorre quando uma vogal átona no final de uma palavra deixa de ser pronunciada ou é absorvida pela vogal que inicia a palavra seguinte.

Esse fenômeno pode aparecer graficamente representado por apóstrofo em determinadas construções poéticas. Observe neste verso:

Eu visto a coberta d’alma

Eu / vis / to a / co / ber / ta / d’al(ma)

Nesse caso, a forma “d’alma” é usada no lugar de “de alma”.

  • Crase

Na metrificação, a crase corresponde à fusão de duas vogais iguais que se encontram no final de uma palavra e no início da palavra seguinte. Veja neste verso:

e, enfim, converte em choro o doce canto.

e en / fim / con / ver / te em / cho / ro o / do / ce / can(to)

Nesse verso, há três ocorrências de crase, já que há coincidência de mesma vogal final e inicial em sequência (“e” nos dois primeiros casos e “o” no terceiro caso).

Atenção! Esse uso do termo não deve ser confundido com o emprego do acento grave (à) estudado na gramática. Na versificação, trata-se de um fenômeno sonoro que pode fazer duas vogais serem contadas como uma única sílaba poética.

  • Sinérese

A sinérese ocorre dentro de uma palavra quando duas vogais que normalmente formariam um hiato são pronunciadas juntas e passam a corresponder a uma única sílaba poética. Dependendo do ritmo pretendido, uma sequência vocálica que seria pronunciada separadamente pode ser reunida durante a leitura do verso, como no exemplo a seguir:

Era outra luz, era outra suavidade,

E / ra ou / tra / luz / e / ra ou / tra / sua / vi / da(de)

Aqui, na divisão gramatical tradicional, a palavra suavidade apresentaria hiato:

su - a - vi - da - de

Porém, na metrificação, o hiato aparece na mesma sílaba poética (“sua”) devido ao ritmo da leitura.

  • Diérese

A diérese produz o efeito contrário ao da sinérese: um encontro vocálico que normalmente seria pronunciado em uma única sílaba é separado em duas sílabas poéticas. Assim, um ditongo pode ser desfeito durante a leitura para adequar a pronúncia ao ritmo do verso. Observe neste verso:

Hoje quase morri de saudade

Ho / je / qua / se / mor / ri / de / sa / u / da(de)

Agora, a palavra “saudade”, pronunciada normalmente com um ditongo (sau-da-de), foi pronunciada com um hiato na leitura deste verso.

Atenção! Todos esses recursos não precisam ocorrer sempre que houver um encontro entre vogais. A contagem deve levar em consideração a pronúncia possível no contexto do verso e o ritmo construído pelo poema.

Classificação dos versos

Os versos recebem diferentes nomes de acordo com a quantidade de sílabas poéticas que apresentam.

Número de sílabas poéticas

Classificação

1

monossílabo

2

dissílabo

3

trissílabo

4

tetrassílabo

5

pentassílabo ou redondilha menor

6

hexassílabo

7

heptassílabo ou redondilha maior

8

octossílabo

9

eneassílabo

10

decassílabo

11

hendecassílabo

12

dodecassílabo

Mais de 12

verso bárbaro

Algumas dessas denominações aparecem com maior frequência na tradição literária.

A redondilha menor apresenta cinco sílabas poéticas, enquanto a redondilha maior apresenta sete. Ambas são bastante empregadas em formas populares e tradicionais da poesia.

O decassílabo, composto por dez sílabas poéticas, tornou-se especialmente importante na poesia de língua portuguesa e aparece com frequência em sonetos.

Já o verso alexandrino é uma forma tradicional de dodecassílabo, geralmente organizada em duas partes de seis sílabas poéticas.

Há também os versos livres, que não seguem obrigatoriamente um padrão fixo de quantidade de sílabas. Isso não significa que eles não possam ser escandidos, mas que o poema não mantém necessariamente a mesma medida de verso ao longo de sua composição.

Leia também: Diferença entre poesia, poema e soneto

Como fazer metrificação

Para fazer a metrificação, deve-se analisar cada verso separadamente e determinar quantas sílabas poéticas ele possui.

  • Leia o verso em voz alta, observando sua sonoridade.
  • Separe as sílabas poéticas, considerando a maneira como os sons são pronunciados.
  • Observe possíveis uniões ou separações de vogais, como sinalefas, sinéreses ou diéreses.
  • Interrompa a contagem na última sílaba tônica do verso.
  • Conte as sílabas e classifique o verso conforme o resultado.

Veja como isso ocorre no soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”, de Luís de Camões:

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Considerando as dicas anteriores, vamos metrificar os quatro primeiros versos.

1º verso: A / mor / é / fo / go / que ar / de / sem / se / ver

2º verso: É / fe / ri / da / que / dói / e / não / se / sen(te)

3º verso: É / um / con / ten / ta / men / to / des / con / ten(te)

4º verso: É / dor / que / de / sa / ti / na / sem / do / er

Na primeira estrofe, todos os versos apresentam 10 sílabas poéticas. A repetição dessa medida ao longo do soneto mostra uma estrutura métrica regular, formada por versos decassílabos.

Diferenças entre metrificação e escansão

Metrificação e escansão são conceitos relacionados, mas não designam exatamente a mesma coisa.

A metrificação corresponde à análise da medida dos versos. Por meio dela, verificam-se quantas sílabas poéticas cada verso apresenta e qual é sua classificação métrica.

A escansão, por sua vez, é o procedimento utilizado para realizar essa contagem. Escandir um verso significa dividi-lo em sílabas poéticas, observar possíveis uniões ou separações sonoras e contar essas sílabas até a última tônica.

Esquema ilustrativo explica o que é metrificação. [imagem_principal]
A metrificação analisa a medida dos versos de um poema. (Créditos: Isa Galvão | Mundo Educação).

Exercícios resolvidos sobre metrificação

Questão 1

Leia esta estrofe:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Quais recursos de metrificação podem ser identificados nessa estrofe?

A) Sinérese e diérese.

B) Elisão e diérese.

C) Sinalefa e diérese.

D) Crase e sinérese.

E) Sinalefa e crase.

Resposta

Alternativa E. Há sinalefa em encontros como “se os”, “se as”, “se o”, “se a” e “Mundo é”, nos quais vogais de palavras diferentes são pronunciadas na mesma sílaba poética. Ainda, ocorre crase em “todo o”, pois duas vogais iguais se fundem em uma única sílaba poética.

Questão 2

Leia estes versos de Luís de Camões:

Aquela cativa
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Considerando a escansão, esses versos podem ser classificados como:

A) tetrassílabos.

B) pentassílabos ou em redondilha menor.

C) hexassílabos.

D) heptassílabos ou em redondilha maior.

E) decassílabos.

Resposta

Alternativa B. Os versos apresentam 5 sílabas poéticas, sendo classificados como pentassílabos, também chamados de redondilha menor.

Fontes

BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 38ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. 7ª ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2016.

Escritor do artigo
Escrito por: Guilherme Viana Bacharel e licenciado em Letras e em Educomunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalha com produção de conteúdo didático nas áreas de língua portuguesa, literatura e redação.

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