Poesia concreta

A poesia concreta começou a ser desenvolvida pelos poetas Décio Pignatari, Haroldo de Campos e Augusto de Campos por volta de 1952, quando lançaram a revista-livro Noigandres  (antologia poética publicada em cinco números). No entanto, a poesia concreta só foi oficializada no Brasil em 1956, com a realização, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, da Exposição Nacional de Arte Concreta.

A principal bandeira estética dessa vertente da poesia brasileira é a composição do poema-objeto, em que o verso tradicional é abolido em prol de uma construção que explora os recursos sonoros, visuais, semânticos, e principalmente o espaço tipográfico e a disposição geométrica dos vocábulos na página.

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Contexto histórico do concretismo

As décadas de 1950 e 1960 vivenciaram uma série de transformações comportamentais, tecnológicas, científicas e políticas no Brasil e no mundo. Em território nacional, no plano político, destacou-se o período de governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961), presidente responsável pela construção de Brasília e pela transferência da capital do país da cidade do Rio de Janeiro para essa localidade, além de ter sido um forte incentivador da indústria automobilística por meio da abertura do país ao capital estrangeiro.

Em relação aos aspectos culturais, o Brasil vivenciou, no plano musical, o surgimento da bossa nova; no plano cinematográfico, o cinema novo; nas artes cênicas, o teatro de arena. Em relação à literatura, o destaque é o surgimento da vanguarda concreta na poesia.

A partir de 1964, momento em que se instala no país o regime militar, apesar da forte censura à arte, as manifestações artísticas apresentaram-se como resistência ao totalitarismo. Nesse contexto, foi criado em São Paulo o Teatro Oficina, espaço alternativo que encenou a peça O rei da vela, texto do modernista Oswald de Andrade; surgiu o movimento musical tropicalismo; foram criados em muitos locais do país os Centros Populares de Cultura, os chamados CPCs.

Esse agitado período cultural foi abafado pela instituição, por meio de decreto presidencial, do Ato Institucional 5 (AI-5) em 1968.

Objetivos da poesia concreta

O concretismo objetivava principalmente a construção do poema-objeto, que seria encarado como um produto semelhante ao fabricado industrialmente. Esse procedimento propiciaria que o poeta, no processo de composição do poema, eliminasse qualquer marca subjetiva ou psicológica do autor em seu produto. O poetas concretistas opunham-se à manifestação da subjetividade no poema, propondo, portanto, o fim do eu lírico. Além disso, um outro objetivo principal dos concretistas era eliminar o verso tradicional, dispondo as palavras de forma não linear com base na exploração do espaço gráfico da página.

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Características da poesia concreta

  • Valorização dos aspectos visuais do poema com o emprego de caracteres tipográficos, desenhos, formas;
  • Exploração dos aspectos sonoros dos vocábulos com o uso de aliterações, assonâncias e paronomásias;
  • Uso de neologismos;
  • O poema concreto comunica-se por meio de sua estrutura-conteúdo;
  • Ausência de eu lírico, de expressão subjetiva.

Poetas concretistas

  • Décio Pignatari

Nasceu em 20 de agosto de 1927, em Jundiaí, interior de São Paulo, e faleceu em 2 de dezembro de 2012, em São Paulo. Foi ensaísta, tradutor, contista, romancista, dramaturgo, publicitário, professor, mas foi como poeta que se notabilizou, sendo um dos fundadores do concretismo.

Publicou seus primeiros poemas na Revista Brasileira de Poesia, em 1949. Em 1950 publicou seu primeiro livro de poemas, Carrossel, e, em 1952, participou da fundação e da edição da revista-livro Noigandres, em parceria com os poetas Haroldo de Campos (1929-2003) e Augusto de Campos (1931).

Em 1953, formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, seguindo, nesse mesmo ano, para a Europa, onde passou dois anos, ocasião em que manteve contato com diversos intelectuais. Em 1956, participou do lançamento oficial do movimento de poesia concreta, ocorrido durante a Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Em 1956, o grupo do qual fez parte Décio Pignatari lança o Plano-piloto para poesia concreta, sistematização teórica do concretismo. Em 1965, ainda com Haroldo e Augusto de Campos, lançou o livro Teoria da poesia concreta.

→ Livros de poesia publicados

  • O carrossel (1950);
  • Organismo (1960);
  • Exercício findo (1968);
  • Poesia pois é poesia 1950-1975 (1977);
  • Vocogramas (1985);
  • Poesia pois é poesia - poetc (1986).
Décio Pignatari: “Beba Coca-Cola”, 1957.
Décio Pignatari: “Beba Coca-Cola”, 1957.

Veja também: Mário de Andrade – escritor da primeira fase do modernismo no Brasil

  • Haroldo de Campos

Nascido em São Paulo, no dia 19 de agosto de 1929, e falecido na mesma cidade, em 16 de agosto de 2003, Haroldo de Campos, irmão mais velho do também poeta Augusto de Campos, foi poeta, tradutor, ensaísta e professor. Seu primeiro livro de poemas, O auto do possesso, foi publicado em 1950.

Com o irmão Augusto e o poeta e ensaísta Décio Pignatari, formou, em 1952, o grupo Noigandres e editou a revista-livro que leva o mesmo nome. Participou, em 1956, da organização da Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Em 1958, publicou, na revista-livro Noigandres 4, o Plano-piloto para poesia concreta, em colaboração com seu irmão Augusto e Décio Pignatari, e, juntos, lançaram, em 1965, o livro Teoria da poesia concreta.

Lançou, em 1976, a antologia de seus poemas Xadrez de estrelas. Como tradutor de poesia, especializou-se na obra de autores de vanguarda, como o poeta norte-americano Ezra Pound (1885-1972) e o romancista irlandês James Joyce (1882-1941). Além disso, trabalhou nas transcriações da poesia japonesa e chinesa.

Após seu falecimento, em 2003, o acervo de 35.000 volumes de sua biblioteca pessoal foi doado pela família à Casa das Rosas, rebatizada de Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, espaço cultural sediado na cidade de São Paulo.

Casa das Rosas - Espaço Haroldo Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo (SP).[1]
Casa das Rosas - Espaço Haroldo Campos de Poesia e Literatura, em São Paulo (SP).[1]

→ Livros de poesia publicados

  • Auto do possesso (1950);
  • Servidão de passagem (1962);
  • Xadrez de estrelas, percurso textual 1949/1974 (1976);
  • Signantia: quasi coelum (1979);
  • Galáxias (1984);
  • A educação dos cinco sentidos (1985);
  • Finismundo: a última viagem (1990);
  • Yugen, cuaderno japonés (1993);
  • Gatimanhas e felinuras, com Guilherme Mansur (1994);
  • Crisantempo (1998);
  • A máquina do mundo repensada (2000);
  • Isto não é um livro de viagem, com Alberto Marsicano (1992);
  • Xilo VT e/ou elogio da xilo. CD sobre textos de Haroldo de Campos, com oralizações do autor, Bete Coelho e Arnaldo Antunes (1994);
  • Cadumbra – metapoemas. CD e livro da escultora Denise Milan, texto e oralização de Haroldo de Campos (1997).
Poema “nascemorre”, Haroldo de Campos (1958).
Poema “nascemorre”, Haroldo de Campos (1958).
  • Augusto de Campos

Nascido em 14 de fevereiro de 1941, em São Paulo, capital, Augusto de Campos é poeta, tradutor, ensaísta e advogado. Em 1949, publicou na Revista Brasileira de Poesia, do Clube de Poesia de São Paulo, ligado à chamada Geração de 45. Publicou, em 1951, o livro de poemas O rei menos o reino. Com o irmão Haroldo e o poeta e ensaísta Décio Pignatari,  formou, em 1952, o grupo Noigandres e participou da edição da revista-livro Noigandres.

Publicou, em 1955, no segundo número da Noigandres, uma sequência de poemas em cores, Poetamenos, considerada o marco inaugural da poesia concreta no Brasil. A expressão "poesia concreta", que dá nome à corrente poética da qual participou, apareceu pela primeira vez como título de um artigo seu, publicado em 1956.

Nesse ano, participou, com seu irmão e com Décio Pignatari, da organização da Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1958, publicou, no 4º volume da revista-livro Noigandres, o Plano-piloto para poesia concreta, novamente em parceria com seu irmão Haroldo e com Décio Pignatari. Juntos, esses escritores lançaram também, em 1965, o livro Teoria da poesia concreta. Sua obra valoriza a utilização de recursos tecnológicos e a interação da poesia com a música.

Como tradutor de poesia, especializou-se, assim como seu irmão, na obra de autores de vanguarda, como Ezra Pound (1885-1972) e James Joyce (1882-1941), e, como ensaísta, no resgate de autores, como Sousândrade (1833-1902) e Pedro Kilkerry (1885-1917).

→ Livros de poesia publicados

  • O rei menos o reino (1951);
  • Poetamenos (1953);
  • 1ª edição na revista-livro Noigandres, 1955. (2ª edição, São Paulo, Edições Invenção, 1973);
  • Antologia Noigandres, com Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald (1962);
  • Linguaviagem (cubepoem) (1970);
  • Equivocábulos (1970);
  • Colidouescapo (1971);
  • Poemóbiles (1968-74) (1974);
  • Caixa preta, com colaboração de Julio Plaza (1975);
  • Viva vaia (Poesia 1949-79) (2001);
  • Expoemas (1980-85) (1985).
  • Não, poema-xerox (1990);
  • Poemas, antologia bilíngue (1994);
  • Despoesia (1979-1993) (1994);
  • Poesia é risco (CD-livro), em colaboração com Cid Campos (1995);
  • Clip-poemas, 16 poemas-animados digitais (1997);
  • Anthologie - despoesia (2002);
  • Não, com CD-rom clipes-poemas (2003).
Poema “Tempo e Espaço”, de 1958.
Poema “Tempo e Espaço”, de 1958.

 

Acesse também: Verso, estrofe e rima – elementos das poesias clássicas

Exercícios resolvidos

Questão 1 - (IFRN – 2016). Considere os dois poemas:

 

 

Em relação aos poemas, é correto afirmar:

a) ambos são exemplares do poema processo, que enfatiza a exclusividade da imagem visual.

b) ambos são exemplares da poesia concreta, que utiliza a linguagem verbal aliada à não verbal.

c) o segundo é um poema concreto, pois utiliza a linguagem verbal, sobrepondo-se à linguagem não verbal.

d) o primeiro é um poema processo, pois evidencia a linguagem não verbal, rompendo com o discurso literário da poesia.

Resolução

Alternativa D. O primeiro poema, caracterizado pelo uso da linguagem não verbal, evidencia uma das principais características da poesia concreta: o entendimento do poema como objeto, o qual se comunica com o leitor por meio de sua forma.

Questão 2 - (PUCCamp SP/2015). Na década de 1960, a utopia que ganhava corações e mentes era a revolução (não a democracia ou a cidadania, como seria anos depois), tanto que o próprio movimento de 1964 designou-se como revolução. As propostas de revolução política, e também econômica, cultural, pessoal, enfim, em todos os sentidos e com os significados mais variados, marcaram profundamente o debate político e estético, especialmente entre 1964 e 1968. Enquanto alguns inspiravam-se na revolução cubana ou chinesa, outros mantinham-se fiéis ao modelo soviético, enquanto terceiros faziam a antropofagia do maio francês, do movimento hippie, da contracultura, propondo uma transformação que passaria pela revolução nos costumes.

(RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 44.)

No início da década de 60, movimentos de vanguarda, como os da Poesia Concreta e Poesia Praxis, buscaram firmar suas plataformas estéticas. Como costuma ocorrer com a arte vanguardista, esses movimentos

a) retomaram princípios clássicos da literatura para submetê-los a alguma revisão.

b) foram ao encontro do gosto popular, razão pela qual se alimentaram da oralidade e da gíria.

c) radicalizaram procedimentos formais, o que implicava a eliminação dos precedentes.

d) relativizaram a importância da pesquisa formal na literatura, privilegiando o conteúdo.

e) declararam-se eminentemente políticos, passando a comprometer-se com linhas partidárias.

Resolução

Alternativa C. Os poetas concretistas opunham-se a procedimentos poéticos como o uso do eu lírico, cultivado em movimentos anteriores, por isso radicalizavam nos procedimentos formais, como o uso de imagens e a disposição gráfica, para eliminar marcas de subjetividade.

Crédito da imagem

[1] Alf Ribeiro / Shutterstock

Publicado por: Leandro Guimarães
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Lista de Exercícios

Questão 1

Miragem, Augusto de Campos
Miragem, Augusto de Campos

Sobre o poema concreto de Augusto de Campos, estão corretas as proposições:

I. Em Miragem que em mim mira temos um exemplo de catacrese.

II. A oração eu tento tântalo pode ser compreendida como a forma coloquial eu tento tanto. É possível perceber que o poeta faz uma brincadeira com o nome da personagem mitológica por meio de uma paronomásia.

III. No poema é possível perceber a preocupação com o efeito ótico, recurso comum na poesia concreta.

IV. No poema de Augusto de Campos não há preocupação em romper com a estrutura discursiva do verso tradicional.

a) II e III estão corretas.

b) I e IV estão corretas.

c) II, III e IV estão corretas.

d) Todas estão corretas.

Questão 2

(UFRGS)

Considere as seguintes afirmações sobre o Concretismo.

I. Buscou na visualidade um dos suportes para atingir rupturas radicais com a ordem discursiva da língua portuguesa.

II. Teve como integrantes fundamentais Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari.

III. Foi um projeto de renovação formal e estética da poesia brasileira, cuja importância fica restrita à década de 1950.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas III.

d)Apenas I e II.

e) I, II e III.

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