Ebulição global
Ebulição global é um termo que descreve a fase atual de intensificação do aquecimento global, usado pela primeira vez pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, em julho de 2023, quando o planeta Terra atingiu uma temperatura de 17º C. Essa foi a média mais alta da história para o período em questão. As temperaturas sem precedentes são a principal característica da ebulição global, resultando na ocorrência de eventos climáticos e atmosféricos extremos, como secas severas, ondas de calor e inundações, de forma mais recorrente.
Impedir o avanço da ebulição global demanda a ação imediata dos países desenvolvidos, principalmente, para o cumprimento das metas climáticas estabelecidas em acordos como o Acordo de Paris. Uma forma de se alcançar esse objetivo e que deve, inclusive, ser pautada nos países emergentes é a adoção de uma matriz energética mais limpa e menos dependente dos combustíveis fósseis, que ainda respondem por 80% da geração de energia do mundo.
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Resumo sobre ebulição global
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Ebulição global é um termo usado para descrever a fase atual do aquecimento global.
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A ebulição global é causada principalmente pela intensificação das emissões de gases do efeito estufa, resultado do negligenciamento das metas estabelecidas nos acordos climáticos.
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O aumento acentuado das temperaturas do planeta Terra é a principal característica da ebulição global, o que é comprovado pela década mais quente da história (2015-2024).
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A intensificação da ocorrência de fenômenos climáticos e atmosféricos de grande magnitude é a principal consequência da ebulição global.
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Chuvas volumosas, ondas de calor duradouras, secas severas, frio intenso, enchentes e inundações estão entre os eventos climáticos decorrentes da ebulição global.
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As ondas de calor recorrentes no Brasil entre 2023 e 2024 e as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 são exemplos de consequências do período de ebulição global.
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Para impedir o avanço da ebulição global, é preciso que países desenvolvidos cumpram as metas climáticas dos acordos preestabelecidos, além do estabelecimento de novas metas mais ambiciosas.
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Uma medida que tem sido discutida para reduzir os impactos da ebulição global é a adoção de uma matriz energética limpa e o gradual abandono dos combustíveis fósseis.
O que é ebulição global?
Ebulição global é uma expressão que define a atual fase do aquecimento global. Ela foi cunhada pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, e utilizada pela primeira vez ao descrever as temperaturas sem precedentes que o planeta Terra registrou no mês de julho de 2023, junto da ocorrência de eventos climáticos extremos que antes eram tidos como raros. Dessa forma, a ebulição global representa a acentuação do processo de aumento da temperatura média da Terra e, por conseguinte, a intensificação dos efeitos provocados por ela.
Quais as causas da ebulição global?
A ebulição global tem como principal causa o negligenciamento das políticas climáticas e das medidas voltadas para a desaceleração do aquecimento global, que provocaram a acentuação do aumento das temperaturas do planeta Terra. Dentre essas medidas, estão as metas para a redução das emissões de gases poluentes na atmosfera que foram estabelecidas no Acordo de Paris de 2016, documento esse que substituiu o Protocolo de Kyoto. Os países desenvolvidos, que são os principais emissores, foram também aqueles que mais ficaram aquém das metas estabelecidas.
O uso contínuo de combustíveis fósseis, que se mantêm como principais fontes geradoras de energia no mundo, e a manutenção de um modelo de produção que explora de forma intensiva os recursos naturais e a intervenção humana na natureza de maneira intensa são, igualmente, causas da ebulição global. Em suma, esse fenômeno apresenta as mesmas causas do aquecimento global, que seguem acontecendo de forma equivalente ou até mesmo mais acentuada do que em tempos passados, agravando as suas consequências.
Principais características da ebulição global
A ebulição global é caracterizada pelo registro de temperaturas médias recorde para a Terra, a exemplo de quando o termo foi utilizado pela primeira vez. No mês de julho de 2023, o planeta atingiu 17º C. Essa foi a maior temperatura para o período já registrada, ultrapassando os 16,9º C alcançados no ano de 2016. A diferença pode parecer pequena, mas ela é significativa quando se leva em consideração que a variação aconteceu em escala planetária.
Ainda considerando a temperatura, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que o ano de 2024 foi o ano mais quente da história do planeta Terra. O aumento da temperatura ficou 1,55º C acima dos níveis pré-industriais, o que significa que o limite de 1,5º C estabelecido pelo Acordo de Paris foi superado. Esse dado é representativo da década mais quente desde o início das medições, considerando o intervalo entre 2015 e 2024, e corrobora a ideia de que o aquecimento global foi ultrapassado e que o mundo adentrou na era da ebulição global.
Consequências da ebulição global
As consequências da ebulição global são devastadoras para o planeta Terra, e já vem sendo observadas em diversos países. Uma vez que a elevação das temperaturas acontece de forma acelerada, seus efeitos sobre a dinâmica atmosférica acontecem na mesma velocidade. Por isso, fenômenos anteriormente classificados como raros ou que tinham um intervalo maior entre uma ocorrência e outra estão sendo registrados de maneira frequente, até mesmo atingindo áreas que anteriormente pareciam manter certa estabilidade com relação a eventos climáticos de grande porte.
Nos últimos cinco anos, pudemos acompanhar na mídia inúmeros registros de secas severas, de incêndios florestais de grande forte, de ondas de calor intensas e duradouras, de chuvas excessivas para um determinado período e de inundações de grande magnitude. Da mesma forma como as chuvas volumosas, longos períodos de estiagem, muitos deles provocados pela intensificação de fenômenos oceânico-atmosféricos como o El Niño e o La Niña, também são consequências da ebulição global.
O próprio território brasileiro vivenciou situações decorrentes da ebulição global, como a ocorrência de nove ondas de calor no ano de 2023 e oito ondas de calor no ano de 2024. A informação é do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). |1|
Ainda a respeito das ondas de calor no Brasil e das evidências da ebulição global, o monitoramento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostrou que, enquanto entre 1961 e 1990 o país passou por 7 dias de ondas de calor, o período que se estendeu entre 2011 e 2020 foi marcado por 52 dias de calor intenso. As chuvas intensas com volumes muito acima do convencional também aumentaram no Brasil, culminando em grandes tragédias climáticas, como aconteceu no estado do Rio Grande do Sul no mês de maio de 2024, quando 95% dos municípios gaúchos foram afetados por enchentes.
Ebulição global x aquecimento global
A ebulição global e o aquecimento global são faces de um mesmo problema. Denominou-se de aquecimento global o fenômeno de aumento das temperaturas médias do planeta Terra identificado a partir do processo de industrialização e de maior exploração dos recursos naturais pelos seres humanos. A despeito de inúmeros acordos climáticos e políticas com o objetivo de desacelerar o aumento da temperatura terrestre e de amenizar o aquecimento global e as mudanças climáticas, as metas estabelecidas não foram cumpridas pelos principais causadores desse problema, que são os países desenvolvidos e os agentes econômicos.
As demandas econômicas provenientes da atual fase do capitalismo e a maneira como os seres humanos interagem com o meio natural ocasionaram a aceleração do aumento das temperaturas terrestres, intensificando o aquecimento global. Por causa disso, foi cunhado o termo ebulição global: ele indica que o planeta entrou em uma fase de aquecimento anormal e sem precedentes e que necessita de ações urgentes para que ele possa ser amenizado e para que seus impactos sejam menos agressivos a médio e a longo prazo.
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Como evitar a ebulição global?
A ebulição global já se instalou e, portanto, é impossível evitá-la. O que pode ser feito é desacelerar o aumento das temperaturas do planeta Terra em una tentativa de não alcançar o chamado “ponto de não retorno”, que seria um aumento igual ou superior a 2º C com relação à era pré-industrial. Para tal, é imprescindível que os países desenvolvidos e os principais agentes econômicos do mundo atual implementem medidas internas de modo a cumprirem com os acordos climáticos preestabelecidos, além de determinarem novas metas para a máxima redução das emissões de gases do efeito estufa.
Uma medida que tem sido amplamente discutida em reuniões como as da COP, e que será pauta das próximas edições desse evento, abrangendo tanto países desenvolvidos quanto países emergentes, é a adoção de uma matriz energética mais limpa a partir da substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis. Os combustíveis fósseis ainda representam 80,9% da matriz energética mundial, dos quais 30,2% representam o petróleo, 27,6% representam o carvão mineral e 23,1% representam o gás natural. Eles são os maiores causadores da poluição atmosférica, e a adoção de fontes alternativas se faz urgente no atual cenário climático e ambiental.
Notas
|1| REDAÇÃO. Ondas de calor: os impactos da ‘emergência silenciosa’. Ministério da Tecnologia, Ciência e Inovação, 07 mar. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/03/ondas-de-calor-os-impactos-da-2018emergencia-silenciosa2019.
Crédito de imagem
[1] Dennis MacDonald / Shutterstock
Fontes
NASA. Global Temperature. NASA, [2024]. Disponível em: https://climate.nasa.gov/vital-signs/global-temperature/?intent=121.
O’SHEA, Claire. NASA Clocks July 2023 as Hottest Month on Record Ever Since 1880. NASA, 14 ago. 2023. Disponível em: https://www.nasa.gov/news-release/nasa-clocks-july-2023-as-hottest-month-on-record-ever-since-1880/.
REDAÇÃO. Número de dias com ondas de calor passou de 7 para 52 em 30 anos. Ministério da Tecnologia, Ciência e Inovação, 13 nov. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2023/11/numeros-de-dias-com-ondas-de-calor-passaram-de-7-para-52-em-30-anos.
REDAÇÃO NATIONAL GEOGRAPHIC. Aquecimento global: o que é a era da ebulição? National Geographic, 02 ago. 2023. Disponível em: https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2023/07/aquecimento-global-o-que-e-a-era-da-ebulicao.
UN NEWS. Hottest July ever signals ‘era of global boiling has arrived’ says UN chief. UN News, 27 jul. 2023. Disponível em: https://news.un.org/en/story/2023/07/1139162.