Augusto Pinochet

Augusto Pinochet foi o ditador militar do Chile que governou o Estado entre os anos de 1973 e de 1990. No ano de 1973, a república do Chile sofreu um golpe militar liderado por ele, ocasionando a morte do 29º presidente do Estado, Salvador Allende. O golpe, como parte da Operação Condor e a interferência dos Estados Unidos, serviu de pretexto para configurar um regime livre das influências progressistas consideradas ideologicamente perigosas para a potência estadunidense no contexto da Guerra Fria. O regime autoritário de Pinochet, que durou até o ano de 1990, resultou no aprisionamento de mais de 40 mil pessoas e no assassinato de pelo menos 3 mil cidadãos chilenos.

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Resumo sobre Augusto Pinochet

  • Augusto Pinochet foi o ditador militar do Chile que governou o Estado entre os anos de 1973 e de 1990.
  • Na qualidade de general do Exército, Pinochet foi responsável pelo golpe de Estado que ocasionou no assassinato do presidente Salvador Allende.
  • Esse golpe foi incentivado pelos Estados Unidos e pelos ditadores alinhados à potência capitalista por temerem a influência do socialismo soviético em território estadunidense.
  • O governo de Pinochet foi uma das ditaduras mais violentas da América Latina, ocasionando mais de 40 mil aprisionamentos e 3 mil assassinatos, além dos casos de tortura e de abuso sexual.
  • As políticas econômicas do Chile, no período, possuíam cunho ultraliberal, fundamentado na ampla abertura para capital estrangeiro, no enriquecimento das classes da elite e na privatização massiva de instituições estatais.
  • A pressão popular e a opinião pública internacional levaram Pinochet a ser retirado do poder em 1990, apesar de continuar exercendo o cargo de chefe do Exército.
  • Durante a década de 1990, descobriram-se milhões de dólares guardados em um banco estadunidense, desviados por Pinochet em conivência de sua família durante a ditadura.
  • No ano de 1998, após minuciosas investigações envolvendo o descumprimento dos direitos humanos por meio do regime de Pinochet, o ex-ditador foi preso durante uma viagem à Inglaterra.
  • Pinochet morreu em 2006 aos 91 anos, ainda durante os processos investigativos sobre os crimes cometidos.

Quem foi Augusto Pinochet?

Fotografia oficial de Augusto Pinochet, ditador que governou o Chile entre 1973 e 1990.
Augusto Pinochet governou o Chile em um regime ditatorial entre 1973 e 1990. [1]

Augusto Pinochet, ditador e 30º presidente do Chile, foi o responsável por aplicar um golpe militar de Estado no país em 1973 sob incentivo dos Estados Unidos. O período de governo conduzido por ele, que durou até 1990, foi marcado por diversos episódios de violência e de intensa repressão.

→ Nascimento de Augusto Pinochet

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte nasceu na cidade chilena de Valparaíso, no Chile, em 25 de novembro de 1915. Foi o primeiro de seis filhos de Augusto Pinochet Vera, então funcionário alfandegário, e Avelina Ugarte Martínez, dona de casa.

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→ Juventude de Augusto Pinochet

Os pais de Augusto Pinochet eram chilenos, mas descendiam de uma tradicional cultura europeia francesa (por parte do pai) e basca (por parte da mãe). No contexto familiar, o jovem Pinochet foi criado por meio de uma rotina disciplinada e conservadora, algo que o incentivou a interessar-se pela carreira de oficial das Forças Armadas.

Após o ensino médio, Pinochet procurou, sem êxito, ingressar na Escola Militar. Reprovado, iniciou um curso preparatório para as Forças Armadas. Aos 17 anos, ingressou como cadete na Escola Militar do Chile (oficialmente Escola Militar do Libertador Bernardo O’Higgins) na capital, em Santiago. Em 1936, formou-se alferes (equivalente a segundo-tenente, na época), que era, então, o cargo mais baixo do oficialato militar chileno.

→ Casamento de Augusto Pinochet

Augusto Pinochet e sua esposa, María Lucía. [2]
Augusto Pinochet e sua esposa, María Lucía. [2]

Augusto Pinochet casou-se com María Lucía Hiriart Rodríguez em 1943, uma mulher chilena de família influente, rica e envolvida em política (nas décadas de 1930 e de 1940, o pai dela exerceu o cargo de senador da República e Ministro do Interior do Estado do Chile).

Durante todo o período de ditadura chefiada por Pinochet, a primeira-dama auxiliou na máquina propagandística do regime, principalmente através da presidência da Fundación CEMA-Chile, uma instituição criada sob pretexto de zelar pelo bem-estar feminino, inclusive das mulheres de baixa renda, mas cujos propósitos reais eram o de fiscalizar e o de controlar socialmente as cidadãs do país. Ela mesma, contraditória ao movimento (apesar de pregar valores tradicionais ligados ao trabalho, ostentava publicamente uma vida de riquezas), era vista como uma figura crucial à política conservadora, pois detinha influência na nomeação ou na remoção de ministros e demais autoridades do Estado.

→ Filhos de Augusto Pinochet

Augusto Pinochet e María Lucía tiveram cinco filhos, que se tornaram figuras centrais públicas durante a ditadura chilena: Lucía, Augusto Osvaldo, Jacqueline Marie, Marco Antonio e María Verónica.

Anos após o regime autoritário, os filhos do ex-ditador, principalmente Augusto e Marco, foram alvos de investigação no “Caso Riggs”, que revelou, em 2004, uma conta milionária ilegal do pai sob posse dos herdeiros. Conforme sugerem diversas investigações, há também diversas acusações contra Marco Antonio, principalmente de envolvimento com o narcotráfico.

Confira também: Francisco Franco — o ditador da Espanha entre os anos de 1936 e de 1973

Carreira militar de Augusto Pinochet

Após a obtenção do título de alferes, em 1936, Augusto Pinochet foi designado para o regimento “Chacabuco”, na cidade de Concepción, em 1937. A partir do ano seguinte, agora como tenente, até 1945, serviu no regimento “Maipú”, e em 1948, obteve o título de capitão.

Em 1951, ingressou na Academia de Guerra, destinada à formação de oficiais de alta patente, adquirindo a posição de major em 1953. Nesse ínterim, Pinochet aprofundou-se na área de pesquisa, especializando-se em geopolítica e em história militar e publicando artigos e livros na sua área de especialização. O contato com as pesquisas angariou-lhe o título de professor de geopolítica e de geografia política, tornando-o um oficial direcionado à inteligência e ao planejamento, e não no comando direto de tropas.

Em 1960, foi promovido a tenente-coronel, e, em 1965, obteve o cargo de subdiretor da Academia de Guerra. Assumiu o comando do regimento “Chacabuco” em 1966 — o mesmo de sua primeira designação – agora na qualidade de coronel. Foi designado general de brigada em 1968, general de divisão em 1971 e, finalmente, general do exército em 1973 (nomeação realizada diretamente pelo presidente Salvador Allende, que tomaria o golpe de Estado por parte de Pinochet algumas semanas mais tarde).

Augusto Pinochet e o golpe militar no Chile

No ano de 1970, Salvador Allende foi eleito 29º Presidente da República do Chile. Como fundador do Partido Socialista do país, Allende adotou uma postura progressista de caráter marxista,e tinha como objetivo instaurar políticas de reformas sociais e nacionalismo econômico.

Assim como ocorreu em outros países da América Latina, Allende foi visto pelos Estados Unidos como uma “ameaça comunista”. Receosos com a disseminação da ideologia propagada inicialmente pela União Soviética, os Estados Unidos imediatamente iniciaram planos para apoiar um golpe de Estado militar, alinhado ao capitalismo, no Estado chileno. Naquela ocasião, em plena Guerra Fria, o governo estadunidense de Richard Nixon procurava impedir, a todo custo, a disseminação do socialismo nas Américas.

O apoio de golpes militares na América já havia suscitado ditaduras no Paraguai (1954), na Guatemala (1954), no Brasil (1964) e na Bolívia (1964). Em Cuba, Fulgêncio Batista havia realizado um golpe em 1952, mas foi deposto com a Revolução Cubana, de caráter socialista, em 1959, algo que, para os políticos estadunidenses, deveria ser impedido de se repetir a todo custo. Por isso, para o governo estadunidense, com o Chile, não deveria haver exceção. Diante disso, tornou-se necessário, aos olhos dos empresários chilenos, dos conservadores dos poderes Legislativo e Judiciário e, sobretudo, do alto oficialato das Forças Armadas, um golpe militar de Estado alinhado aos Estados Unidos.

Além disso, no início da década de 1970, vigorava a execução da Operação Condor, uma aliança internacional entre os países sul-americanos sob regimes autoritários que cooperavam, entre si, para a manutenção de seus poderes através da perseguição e da morte de seus opositores.

No Chile, o principal candidato a uma liderança autoritária de extrema direita era Augusto Pinochet, que assumiu o poder do governo em 11 de setembro de 1973, após um intenso bombardeio sobre o palácio presidencial, que acabou, inclusive, assassinando o presidente Allende.

Acesse também: Como foi a Ditadura Militar no Brasil?

Governo de Augusto Pinochet

Augusto Pinochet, no carro, batendo continência em desfile de aniversário do golpe de Estado, em 1982. [3]
Augusto Pinochet, no carro, batendo continência em desfile de aniversário do golpe de Estado, em 1982. [3]

O governo de Augusto Pinochet foi violento e repressivo. Além dos mais de 40 mil aprisionados, compostos principalmente por opositores ao regime autoritário, estima-se a morte ou o desaparecimento de mais de 3 mil pessoas e cerca de 200 mil exilados. Opositores ao golpe foram, em sua maioria, aprisionados no Estádio Nacional em Santiago: o número de vítimas encarceradas, durante o regime, ultrapassou as 40 mil, das quais várias foram abusadas sexualmente, torturadas e executadas.

Em 1976, a violência do regime tornou-se mundialmente explícita quando Orlando Letelier, ex-embaixador do Chile, foi assassinado pela polícia secreta de Pinochet em Washington, nos Estados Unidos. As investigações sobre o atentado revelaram as primeiras conexões de colaboração entre o governo estadunidenses e os regimes autoritários chileno, brasileiro, uruguaio e argentino.

O alinhamento socioeconômico ao capitalismo refletiu por meio de uma política ultraliberal de abertura ao capital estrangeiro e privatizações em massa sobre diversos setores do Estado, como a educação, a saúde e a previdência social, além de direcionar a maior concentração de renda nas mãos de poucos empresários. Como resultado, na década de 1980, o país passou a enfrentar críticos níveis de inflação, desemprego e dívida externa.

Em 1982, o país enfrentou uma recessão. Sindicatos, grupos estudantis e vários grupos da sociedade civil, inclusive autoridades da Igreja Católica do Chile, iniciaram protestos contra o regime de Pinochet, os quais repercutiram internacionalmente.

Fim do governo de Augusto Pinochet

Manifestação fazendo homenagem às vítimas da ditadura de Augusto Pinochet.
A memória das vítimas da ditadura de Augusto Pinochet é homenageada, no Chile, até os dias atuais. [4]

A atenção da mídia aos protestos angariou notoriedade internacional à repressão do governo de Pinochet e influenciou nas relações diplomáticas do Chile. No ano de 1988, um plebiscito elaborado pelo próprio Pinochet para manter-se no poder rendeu-lhe uma maioria negativa de votos: quase 56% da população mostrou-se a favor da redemocratização. Em 11 de março de 1990, Pinochet entregou o cargo de presidente a Patricio Aylwin, do Partido Democrata Cristão do Chile, mas manteve-se no posto de comandante em chefe do Exército até 1998.

Naquele mesmo ano, Pinochet, então com 82 anos, foi preso em Londres, na Inglaterra, para onde viajou a fim de realizar uma cirurgia na coluna. Lá, foi surpreendido pela polícia londrina a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón, responsável pela investigação da participação do Chile na Operação Condor. Pinochet, segundo os critérios da jurisdição internacional, foi preso devido à promoção de diversos crimes que violavam os direitos humanos, como tortura e genocídio. Além disso, a Câmara dos Lordes britânica decretava a não impunidade a ex-chefes de Estado envolvidos em denúncias sobre crimes de tortura.

Acesse também: Ditadura militar chilena — mais detalhes sobre esse período da história do Chile

Morte de Augusto Pinochet

As condenações contra o ex-ditador prosseguiram no Chile após mais de 500 dias de prisão domiciliar em Londres, das quais não se obtiveram conclusões a tempo de Pinochet ser julgado. Ele morreu em dezembro de 2006, aos 91 anos, no Hospital Militar de Santiago, por insuficiência cardíaca.

No contexto, a presidente do Chile era Michelle Bachelet, que havia sido vítima da ditadura de Pinochet. Apesar de negar um funeral oficial do Estado, conciliatoriamente, ela permitiu que o ex-ditador recebesse as devidas honras militares.

Livros sobre Augusto Pinochet

Para conhecer mais a fundo a vida política de Pinochet e o período de ditadura no Chile, recomendamos alguns livros especializados, cuja maioria foi escrita por historiadores e outros estudiosos chilenos:

  • El regimén de Pinochet (em tradução livre, “O regime de Pinochet”), por Carlos Huneeus: nesta obra, o professor acadêmico e diplomata chileno Carlos Huneeus detalha a carreira política de Pinochet, analisando de perto a estrutura autoritária organizada pelo ditador.
  • Ditadura e Repressão, de Anthony W. Pereira: o historiador britânico Anthony W. Pereira, apesar de dedicar-se principalmente a estudos sobre os governos brasileiros, traz em sua obra uma analogia entre os países do Cone Sul que procura compreender os mecanismos de legitimação entre as instituições militares e judiciárias dos governos latino-americanos autoritários.
  • Miedo em Chile (em tradução livre, “Medo no Chile”), por Patricia Politzer: a jornalista e atualmente política chilena Patricia Politzer publicou, em seu livro, diversos relatos de populares chilenos sobre o país, registrando uma pluralidade de opiniões acerca do regime de Pinochet. O curioso é que o livro foi lançado ainda na metade da década de 1980, durante a ditadura.
  • Democracy after Pinochet (em tradução livre, “Democracia após Pinochet”), por Alan Angell: o livro escrito originalmente em inglês por Alan Angell, ex-professor de Política Latino-Americana de Oxford, investiga a fundo o processo de redemocratização chilena após a ditadura de Pinochet, analisando desde os impactos internacionais do golpe de Estado em 1973 até a reação popular chilena quando do aprisionamento do ex-ditador.
  • Battling for Hearts and Minds (em tradução livre, “Lutando por corações e mentes”), por Steve J. Stern: o historiador e professor estadunidense Dr. Stern escreveu o seu livro baseado em inúmeras fontes históricas, testemunhos e documentos produzidos durante o regime de Pinochet, apesar de ter sido originalmente publicado apenas na língua inglesa.

Créditos de imagem

[1] Ministerio de Relaciones Exteriores de Chile / Wikimedia Commons (reprodução)

[2] Biblioteca del Congreso Nacional / Wikimedi Commons (reprodução)

[3] Ben2 / Wikimedia Commons (reprodução)

[4] gonzagon / Wikimedia Commons (reprodução)

Fontes

BRITANNICA. Augusto Pinochet. 2025. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Augusto-Pinochet.

DALENOGARE, Waldemar N. Os Estados Unidos e a Operação Condor. Tese de Doutorado em História. Porto Alegre: Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), 2020. Disponível em: https://tede2.pucrs.br/tede2/handle/tede/9169.

FIVE BOOKS. The best books on Pinochet and Chilean Politics. 2023. Disponível em: https://fivebooks.com/best-books/alan-angell-pinochet-chilean-politics.

G1. Ditadura de Pinochet no Chile deixou mais de 40 mil mortes, diz relatório, 2011. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/08/novo-relatorio-sobe-para-mais-de-40000-as-vitimas-da-ditadura-de-pinochet.html.

HUNEEUS, Carlos. The Pinochet Regime. Boulder: Lynne Rienner Publishers, Inc., 2007.

PEREIRA, Anthony W. Ditadura e repressão: O autoritarismo de direito no Brasil, no Chile e na Argentina. São Paulo: Paz e Terra, 2012.

ROCÍO, Montes. A prisão de Augusto Pinochet: 20 anos do caso que transformou a Justiça internacional. 2018. El País. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/16/internacional/1539652824_848459.html.

SEPÚLVEDA, Nicolás; MIRANDA, Benjamin. Os documentos que mostram as conexões dos filhos de Pinochet com o narcotráfico,. 2023. Pública. Disponível em: https://apublica.org/2023/09/os-documentos-que-mostram-as-conxoes-dos-filhos-de-pinochet-com-o-narcotrafico.

Escritor do artigo
Escrito por: Cassio Remus de Paula Cássio é doutor em História pela UFPR, mestre e bacharel em História pela UEPG. Atua como professor de História, Filosofia e Sociologia.

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