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História e Teologia da História

A Teologia da História é uma forma de pensamento desenvolvida pela tradição cristã que pensava toda a história humana à luz da Revelação.
 O apóstolo São Paulo foi responsável pela criação de uma ampla aceitação da fé cristã em ambiente clássico (grego e romano)
O apóstolo São Paulo foi responsável pela criação de uma ampla aceitação da fé cristã em ambiente clássico (grego e romano)

Ao longo da história, no desenvolvimento das mais variadas culturas, sempre houve um esforço de compreensão do sentido da presença humana na Terra. Acompanhando esse esforço, sempre esteve presente a confluência entre as habilidades intelectuais (como os saberes científicos e a filosofia) e os exercícios espirituais, sendo esses últimos obras dos sistemas religiosos. Contudo, não há nenhum outro sistema de pensamento que tenha se desenvolvido no interior de uma religião que procurou explicar a fundação do mundo, a criação do homem e o seu destino futuro, levando em conta o fato de que um Deus tenha se feito Homem, habitado a Terra e se sacrificado em prol da salvação do próprio homem. O cristianismo é a única, em toda a história humana, que concebe isso.

Com base nessa perspectiva, teólogos e historiadores cristãos procuram articular as compreensões sobre a totalidade (ou integralidade) dos eventos históricos no advento da pessoa de Cristo. Cristo exerce uma centralidade na história, para a tradição de pensadores cristãos, por uma razão muito simples e óbvia, mas nem sempre fácil de ser entendida: Cristo é concebido como o Verbo encarnado, isto é: o logos divino, a inteligência divina que tudo revela, tudo tanto sobre o passado anterior ao seu advento quanto sobre o porvir, o futuro. Para a teologia da história – a disciplina que estuda a centralidade de Cristo na história –, é na vida, na morte e na ressurreição de Jesus Cristo que estão os mistérios e a fonte de sabedoria para o entendimento da própria história da humanidade.

O fato de Deus, em Cristo, ter se tornado um ser histórico, um homem, estabelece um cruzamento entre a eternidade e o tempo. Desde as origens do cristianismo, na era dos apóstolos, há uma tentativa de sistematização dessa concepção. São Paulo, o apóstolo que expandiu consideravelmente o cristianismo ao pregar a mensagem dos evangelhos nos domínios de cultura helenística e romana, foi o grande catalisador da compreensão histórica da religião cristã.

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Das cartas paulinas, os chamados “pais da Igreja”, bispos como Orígenes, Santo Agostinho etc., procuraram dar prosseguimento a essas reflexões. Porém, essa não é uma característica apenas de pensadores da Idade Média. No século XX (e ainda hoje), muitos intelectuais se puseram a pensar essas implicações. Um dos mais destacados é o historiador francês Henri Marrou. Diz Marrou que:

[…] se após a vida terrestre do Verbo encarnado que constitui o centro como o seu núcleo, a história humana continua a se desenrolar, é porque o tempo é ainda necessário para permitir o pleno crescimento do Corpo místico de Cristo, a construção até o seu acabamento da Cidade de Deus – cabe a São Paulo fazer a síntese das duas imagens e dizer 'para a construção do Corpo de Cristo'. A história alcançará seu termo quando a obra começada na Encarnação estiver plenamente realizada, e, assim, plenamente terminado este mistério da vontade benevolente de Deus, isto é […], reunir, recapitular todas as coisas em Cristo.” [1] “[...] o Corpo Místico de Cristo é o verdadeiro sujeito da história, assim como o acabamento de seu crescimento é a razão de ser e a medida do tempo que ainda corre.”[2]

O “Corpo místico de Cristo”, isto é, a comunidade dos homens em Cristo, a “Ecclesiae”, a Igreja, continua a história, segundo os teólogos da história, enquanto história da Salvação, e não como uma mera história, sem sentido aparente.

 

NOTAS
[1] MARROU, Henri. Teologia da História – O sentido da caminhada da humanidade através da temporalidade. Rio de Janeiro: VOZES Editora, 1989. p. 35.
[2] Idem. p. 35.

Publicado por Cláudio Fernandes
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