Português brasileiro
O português brasileiro é a variedade da língua portuguesa usada no Brasil. Sua formação começou com a chegada dos portugueses ao território, no século XVI, e ocorreu em contato com línguas indígenas, africanas e, posteriormente, de diferentes grupos de imigrantes. Além de apresentar diferenças em relação ao português europeu, o português brasileiro varia conforme a região, o grupo social, a idade dos falantes e a situação de comunicação.
Leia também: Quantos e quais países falam português?
Resumo sobre português brasileiro
- O português brasileiro é a variedade da língua portuguesa desenvolvida e utilizada no Brasil.
- Sua formação está relacionada à colonização portuguesa e ao contato com línguas indígenas, africanas e de outros povos imigrantes no país.
- Apresenta características próprias de pronúncia, vocabulário e organização gramatical.
- Palavras e construções usadas no Brasil podem ser diferentes das empregadas em Portugal, sem que uma variedade seja mais correta que a outra.
- Existem variedades geográficas, sociais e situacionais do português brasileiro.
- Os dialetos brasileiros apresentam diferenças de pronúncia, vocabulário e, em alguns casos, de organização das frases.
O que é o português brasileiro?
O português brasileiro é uma das variedades nacionais da língua portuguesa, que se desenvolveu no Brasil ao longo de vários séculos e apresenta usos linguísticos próprios, relacionados à história e à cultura do país. Isso não significa que o português brasileiro seja uma forma incorreta ou simplificada do português europeu. Brasil e Portugal compartilham a mesma língua, mas cada país desenvolveu maneiras particulares de pronunciá-la e utilizá-la.
Observe:
- no Brasil: Vou pegar o ônibus.
- em Portugal: Vou apanhar o autocarro.
As duas frases pertencem à língua portuguesa e transmitem basicamente a mesma informação. As diferenças aparecem no emprego do verbo e no substantivo usado para nomear o meio de transporte.
O português brasileiro também não é falado de uma única maneira. Uma pessoa do Amazonas, uma pessoa de Goiás, outra da Bahia e outra do Rio Grande do Sul podem apresentar diferenças de sotaque e vocabulário, embora consigam se compreender. Além da região, fatores como idade, escolaridade, profissão e situação comunicativa influenciam os usos da língua.
Principais características do português brasileiro
O português brasileiro apresenta diferenças de pronúncia, gramática e vocabulário em relação às variedades da língua portuguesa usadas em outros países, especialmente em Portugal. Essas diferenças se formaram ao longo da história e não tornam uma variedade mais correta do que outra. É importante lembrar que o português brasileiro não é uniforme. Como explica o gramático Ataliba T. de Castilho (2020), toda língua é heterogênea e varia conforme fatores geográficos, sociais e comunicativos.
Assim, as características apresentadas a seguir são tendências frequentes no Brasil, mas podem não aparecer igualmente na fala de todos os brasileiros.
→ Pronúncia de fonemas específicos
Uma diferença perceptível está na pronúncia. De modo geral, no português brasileiro, as vogais das palavras costumam ser pronunciadas de maneira mais nítida. No português europeu, algumas vogais sem acento podem ser reduzidas ou pouco perceptíveis na fala.
A pronúncia brasileira também apresenta grande diversidade interna. Sons como o da consoante r em “porta”, da consoante s em “mesmo” e das consoantes t e d em “tia” e “dia” podem variar conforme a região.
→ Uso dos pronomes pessoais
No Brasil, os pronomes de tratamento “você” e “vocês” são amplamente empregados para indicar com quem se fala:
Você chegou cedo.
Vocês já terminaram?
O pronome “tu” também é usado em diversas regiões brasileiras, enquanto “vós” permanece principalmente em textos religiosos, literários ou muito formais. Também é frequente o uso de “a gente” com o sentido de “nós”:
A gente chegou cedo.
Nós chegamos cedo.
Como “você” e “a gente” são gramaticalmente combinados com verbos na terceira pessoa, seu uso contribuiu para algumas diferenças entre o sistema verbal mais frequente no Brasil e o empregado em Portugal.
→ Posição dos pronomes junto ao verbo
No português brasileiro, pronomes oblíquos como “me”, “te”, “se” e “lhe” aparecem frequentemente antes do verbo:
Ela me contou a verdade.
Eles se encontraram ontem.
No português europeu, é mais frequente colocar esses pronomes depois do verbo em contextos semelhantes:
Ela contou-me a verdade.
Eles encontraram-se ontem.
Em linguagem coloquial brasileira, o pronome também pode iniciar a oração:
Me ajuda aqui!
Mas, atenção! A norma-padrão tradicional, porém, recomenda evitar essa colocação em textos formais.
→ Expressão de ações em andamento
No Brasil, ações que estão acontecendo costumam ser expressas com o verbo “estar” seguido do gerúndio:
Estou estudando.
As crianças estão brincando.
Em Portugal, é mais comum empregar estar a seguido do infinitivo:
Estou a estudar.
As crianças estão a brincar.
As duas construções expressam uma ação em andamento, mas são características de variedades diferentes da língua.
Veja também: Estrangeirismos — palavras de outros idiomas que invadiram a nossa língua
Palavras do português brasileiro e do português de Portugal
Brasil e Portugal podem utilizar palavras diferentes para nomear a mesma coisa. Em alguns casos, a palavra empregada em um país também é conhecida no outro, mas apresenta menor frequência ou outro significado. Veja, na tabela a seguir, algumas dessas diferenças:
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Português brasileiro |
Português de Portugal |
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ônibus |
autocarro |
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trem |
comboio |
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caminhão |
camião |
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celular |
telemóvel |
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banheiro |
casa de banho |
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geladeira |
frigorífico |
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suco |
sumo |
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sorvete |
gelado |
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açougue |
talho |
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café da manhã |
pequeno-almoço |
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xícara |
chávena |
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mamadeira |
biberão |
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sanduíche |
sandes |
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faixa de pedestres |
passadeira |
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pedágio |
portagem |
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carteira de motorista |
carta de condução |
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grampeador |
agrafador |
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apontador |
afia-lápis |
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concreto |
betão |
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terno |
fato |
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calçada |
passeio |
Qual a origem do português brasileiro?
A origem mais remota do português brasileiro está no latim vulgar, variedade falada do latim levada pelos romanos à Península Ibérica. Com o passar dos séculos, o latim se transformou, dando origem às línguas românicas, entre elas o português. Entre os séculos IX e XIII, desenvolveu-se no noroeste da Península Ibérica o galego-português. Posteriormente, com a formação e a expansão do Reino de Portugal, o português diferenciou-se do galego e consolidou-se como língua.
A partir dos séculos XV e XVI, a expansão marítima portuguesa levou o idioma a territórios da África, da Ásia e da América. No Brasil, sua implantação começou com a colonização portuguesa no século XVI. O território, porém, já era ocupado por diferentes povos indígenas, que falavam numerosas línguas.
Durante a colonização, o português conviveu com línguas indígenas, entre elas as línguas gerais, que eram utilizadas na comunicação entre colonizadores e missionários portugueses e diferentes etnias indígenas. Na região amazônica, o nheengatu, desenvolvido a partir desse processo histórico, ainda tem falantes.
As línguas de pessoas africanas trazidas ao Brasil como escravizadas também participaram da formação linguística do país, especialmente no vocabulário e em práticas culturais e comunicativas. Mais tarde, línguas de grupos imigrantes, como árabes, italianos, alemães e japoneses, passaram a integrar esse ambiente de contato.
O português tornou-se gradualmente a língua predominante no território. Sua expansão ocorreu a partir de decisões políticas e de diferentes centros de povoamento, acompanhando deslocamentos populacionais, atividades econômicas, urbanização e ocupação de novas áreas. Desse processo histórico, surgiu uma variedade que conserva sua relação com o português de Portugal, mas apresenta características próprias: o português brasileiro.
→Videoaula sobre origem da língua portuguesa
Dialetos do português brasileiro
É difícil estabelecer uma divisão exata dos dialetos do português brasileiro. Como explica Ataliba T. de Castilho, a língua falada no país é marcada por grande heterogeneidade, e fatores como migrações internas e contato entre falantes de diferentes regiões tornam as fronteiras dialetais menos rígidas.
Por isso, não existe uma classificação única, oficial ou definitiva dos dialetos brasileiros. Há diferentes propostas de divisão, elaboradas de acordo com critérios como pronúncia, vocabulário, história da ocupação do território e localização geográfica. Uma dessas propostas identifica as seguintes variedades:
- Caipira: é associado principalmente ao interior de São Paulo e a áreas próximas de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul.
- Costa norte: é identificado em áreas litorâneas do Maranhão, do Piauí e do Ceará. Reúne características próprias das zonas costeiras dessa parte do país.
- Baiano: ocorre principalmente na Bahia e em áreas próximas. Apresenta variações internas entre Salvador, o litoral e o interior do estado.
- Fluminense: é associado a grande parte do estado do Rio de Janeiro. Não se confunde totalmente com o carioca, que corresponde mais especificamente à cidade do Rio de Janeiro e a seu entorno.
- Gaúcho: está ligado ao Rio Grande do Sul, especialmente às áreas mais próximas da fronteira. Seu vocabulário e sua pronúncia também refletem contatos históricos com países vizinhos.
- Mineiro: aparece em grande parte de Minas Gerais. Como o estado faz fronteira com várias regiões, apresenta diferenças internas e áreas de transição com outros falares.
- Nordestino: abrange uma extensa área do Nordeste. Ele reúne diferentes maneiras de falar, com variações entre estados, capitais, litoral e sertão.
- Nortista: é associado a grande parte da Região Norte. Sua formação está ligada à ocupação da Amazônia e ao contato histórico com línguas indígenas.
- Paulistano: é relacionado à cidade de São Paulo e a sua região metropolitana. Foi influenciado pela intensa imigração e pela convivência entre pessoas vindas de diferentes partes do Brasil.
- Sertanejo: aparece em áreas do interior do Brasil, sobretudo no Centro-Oeste e em zonas próximas. Suas características variam conforme os movimentos de ocupação e de migração nessas regiões.
- Sulista: é identificado em partes do Paraná e de Santa Catarina. Apresenta características próprias e também recebeu influências de diferentes grupos de imigrantes.
- Florianopolitano: está relacionado à capital Florianópolis e a áreas próximas do litoral catarinense. Sua formação recebeu forte influência da colonização açoriana.
- Carioca: é associado à cidade do Rio de Janeiro e ao seu entorno.
- Brasiliense: desenvolveu-se em Brasília, cidade formada por pessoas vindas de diferentes regiões do país. Por isso, reúne e combina características de diversos falares brasileiros.
- Serra amazônica: é localizado, nessa proposta, em uma área de transição entre a Amazônia e o Centro-Oeste. Suas características refletem o contato entre populações de diferentes regiões.
- Recifense: é associado à cidade do Recife e a áreas próximas. Apresenta traços urbanos próprios dentro do conjunto mais amplo dos falares nordestinos.
Fontes
BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. 38ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
CASTILHO, Ataliba T. de. Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Contexto, 2020.
DIALETOS do português brasileiro. The Fools: Imersão em Línguas, 14 fev. 2019. Disponível em: https://www.thefools.com.br/blog/post/dialetos-do-portugues-brasileiro.