Bossa nova
Bossa nova é um gênero musical brasileiro que surgiu no final da década de 1950, nos apartamentos de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. O estilo foi concebido pelo músico baiano João Gilberto, com a música “Chega de saudade”, de 1958. À época, o impacto cultural do modernismo brasileiro ainda ressoava por meio da criatividade artística: João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes e muitos outros músicos se encontravam na vanguarda de um movimento vertente do samba-canção tradicional, que, naquela época, era considerado um estilo periférico, mas sem descartar as raízes de seu ritmo.
No lugar das marcantes percussões do samba, na bossa nova, o violão passou a compassar o ritmo das canções, através da alternância de tons graves e agudos de suas cordas, ao mesmo tempo que conduzia a harmonia com acordes sofisticados, uma influência do jazz, e era acompanhado de uma voz suave e quase sussurrada.
Os maiores clássicos da bossa nova são de autoria de alguns de seus principais representantes: Tom Jobim, Vinicius de Moraes e João Gilberto. Canções como “Garota de Ipanema”, “Águas de março”, “Wave” e “O barquinho” são reconhecidas mundialmente, além da canção “Chega de saudade”, que inaugurou o gênero musical.
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Resumo sobre bossa nova
- A bossa nova é um gênero musical brasileiro que surgiu ao final da década de 1950 na cidade do Rio de Janeiro.
- Naquele contexto, o gênero surgiu como uma alternativa para dois estilos musicais considerados “periféricos” pelos jovens das classes sociais mais elevadas: o samba, do Brasil, e o jazz, dos Estados Unidos.
- A bossa nova se consolidou primeiramente como um movimento de contestação das músicas tradicionais, advinda de artistas que se reuniam em apartamentos para tocarem sessões de jam ou demonstrar composições.
- Em uma dessas reuniões, o músico baiano João Gilberto demonstrou uma técnica inovadora, descoberta no banheiro de sua residência, onde treinava para ouvir com clareza: o uso das cordas do violão para simular as batidas da percussão.
- Também como contestação à tradição musical da época, a bossa nova era cantada de forma suave, ao contrário da moda dos “vozeirões” no estilo de Frank Sinatra.
- As letras das canções do estilo eram geralmente relacionadas ao amor, às praias ou à cidade, embora houvesse exceções.
- Em 1958, João Gilberto, em parceria de outros músicos urbanos, lançou um compacto que estreava a bossa nova com sua versão própria de “Chega de saudade”, que foi incluída em seu álbum de estreia no ano seguinte.
- Embora João Gilberto tenha estreado o gênero em seu primeiro disco, o movimento da Bossa Nova era coletivo e contava com as composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Roberto Menescal, entre outros.
- A bossa nova ganhou rápida repercussão para fora do Rio de Janeiro e do Brasil: artistas de diversos lugares do mundo, de Frank Sinatra a Sarah Vaughan, passaram a regravar canções do movimento.
- Além de “Chega de saudade”, entre as músicas de bossa nova mais famosas pelo mundo, estão “Garota de Ipanema”, “Águas de março”, “Wave” e “O barquinho”.
- No decorrer da década de 1960, com o golpe militar de Estado no Brasil, a bossa nova passou a inspirar artistas que incorporaram críticas político-sociais e novos elementos sonoros em suas composições, dando início à era da MPB.
O que é a bossa nova?
A bossa nova é um gênero musical brasileiro que surgiu na Zona Sul do Rio de Janeiro ao final da década de 1950. Considerada também um movimento artístico, o estilo mistura elementos do samba tradicional com o jazz norte-americano e representa uma das manifestações culturais mais simbólicas do Brasil. Além do violão, a bossa nova pode ser acompanhada por piano, contrabaixo, instrumentos de sopro e percussão leve.
O gênero se manifestou como uma vertente mais sofisticada do samba, que naquele contexto, era considerado um estilo musical periférico, e fundiu-se com elementos do jazz norte-americano; seu público era formado por uma classe média jovem que residia especialmente nos bairros de Ipanema, Copacabana e os arredores. A popularização do gênero chegou a levar inúmeros artistas internacionais a reproduzirem suas músicas e a formar parcerias com a vanguarda brasileira do estilo, da qual se destacaram João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
A bossa nova continuou a se manifestar por toda a década de 1960 e influenciou diversos outros artistas brasileiros, servindo de ponto de referência para a ascensão do Tropicalismo e a MPB, ou música popular brasileira, que, ao contrário das letras românticas do estilo precursor, continham críticas políticas e sociais que afrontavam a Ditadura Militar no Brasil.
Clássicos da bossa nova
Entre os clássicos musicais mais populares ou importantes do gênero bossa nova e seus respectivos anos de lançamento, podemos citar:
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Chega de saudade (1958)
Considerado o marco inicial da bossa nova no Brasil e no mundo, “Chega de saudade” foi composta por Tom Jobim e escrita por Vinícius de Moraes. Lançada pela primeira vez na voz de Elizeth Cardoso, em 1958, a sua versão mais popular, no entanto, surgiria em um compacto lançado por João Gilberto naquele mesmo ano, e posteriormente, incluída em seu álbum de estreia de 1959, homônimo à canção.
Não sem a resistência da equipe envolvida, Gilberto reinterpretou a música em um tom de voz sussurrado e com o abafamento da percussão. De maneira estranha à época, esta música e diversas outras faixas do disco foram gravadas com um microfone direcionado apenas para o violão.
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Garota de Ipanema (1963)
Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça
É ela, menina, que vem e que passa
Num doce balanço a caminho do mar
Moça do corpo dourado, do Sol de Ipanema
O seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
[...]
O clássico de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, gravado pela primeira vez na voz de Pery Ribeiro, tornou-se tão popular, que se estima ter recebido mais de 400 versões em diversas línguas. Nos Estados Unidos, a versão em inglês — e mais famosa mundialmente — foi popularizada dois anos depois por Astrud Gilberto (então esposa de João) em parceria com o astro do jazz Stan Getz, vendendo cerca de 5 milhões de cópias. Em 1967, foi regravada pelo mundialmente famoso Frank Sinatra.
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Wave (1967)
Após quase uma década de popularização da bossa nova, Tom Jobim lançou outro clássico que se tornaria mundialmente famoso. Originalmente, Wave era a faixa de abertura instrumental do álbum homônimo de Jobim lançado em 1967, cuja letra seria composta por ele mesmo em inglês naquele mesmo ano. Assim como “Garota de Ipanema”, o sucesso da faixa foi estrondoso, recebendo regravações de inúmeros artistas nacionais e internacionais como Elis Regina, João Gilberto, Roberto Carlos, Renato Russo, Sarah Vaughan e Frank Sinatra.
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Águas de março (1972)
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
[...]
Apesar de a música ter sido lançada em 1972, em um álbum compacto de Tom Jobim, a sua versão mais famosa surgiria dois anos mais tarde, quando o compositor a relançou em dueto com a cantora de MPB, Elis Regina, no álbum “Elis & Tom”. A música se tornou atemporal, utilizada até mesmo em memes e recebendo inúmeras regravações, como na cantada por Luísa Sonza em seu álbum de tributo ao gênero, “Bossa sempre nova” (2026).
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O barquinho (1961)
Composta por Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, a canção recebeu tantas regravações no Brasil (mais de quarenta) que é difícil apontar com certeza quem a gravou primeiro, embora muitos concordem que sua estreia tenha ocorrido através da voz de Maysa. “O barquinho” também se tornou essencial no repertório de artistas como Nara Leão e Sérgio Mendes e repercutiu pelo mundo todo — estima-se que ela já tenha recebido milhares de versões em diversas línguas.
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Artistas da bossa nova
Observe, na tabela abaixo, os principais nomes de artistas que participaram do movimento bossa nova, seguidos de suas respectivas ocupações artísticas, ano de lançamento do primeiro álbum e as músicas mais populares dentro do gênero (originais, regravações ou composições).
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Artista |
Ocupação |
Ano do primeiro álbum |
Músicas mais populares |
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João Gilberto |
Cantor, violonista, compositor |
1959 |
“Chega de saudade”, “Desafinado” |
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Tom Jobim |
Compositor, cantor, pianista |
1963 |
“Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Wave”, “Águas de março”, “Corcovado”, “Samba de uma nota só” |
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Vinícius de Moraes |
Letrista, compositor, cantor |
1956 |
“Garota de Ipanema”, “Insensatez”, “A felicidade”, “Chega de saudade” |
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Nara Leão |
Cantora |
1964 |
“O barquinho”, “Diz que fui por aí” |
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Luiz Bonfá |
Compositor, violonista |
1958 |
“Samba do Orfeu”, “Manhã de Carnaval”, “Samba de duas notas” |
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Roberto Menescal |
Compositor, violonista |
1964 |
“O barquinho”, “Nós e o mar”, “Você” |
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Ronaldo Bôscoli |
Letrista, compositor |
(não lançou discos de sua autoria) |
“Lobo bobo”, “O barquinho”, “Você” |
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Baden Powell |
Compositor, violonista |
1961 |
“Canto de Ossanha”, “Samba triste”, “Berimbau” |
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Carlos Lyra |
Compositor, cantor, violonista |
1959 |
“Coisa mais linda”, “Lobo bobo” |
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Maysa |
Cantora, compositora |
1956 |
“O barquinho”, “Se todos fossem iguais a você” |
Principais características da bossa nova
Musicalmente, a bossa nova tem como “protagonista” o violão; ele guia o tom da harmonia por meio de acordes com extensões (à nona ou décima terceira, por exemplo) que denotam uma sonoridade sofisticada semelhante à do jazz. O instrumento também auxilia, de forma quase percussiva, o ritmo da música com suas “batidas”.
De uma maneira mais simples de compreendermos, é como se as notas graves guiassem o compasso da canção, e as agudas, seus contratempos, geralmente de forma sincopada (palavra que denota um som de contratempo que “quebra” o tempo tradicional da música, muito comum nas músicas latinas em geral). Outros instrumentos, bem como a voz, também se tornaram comuns em suas execuções, como o piano, o contrabaixo, instrumentos de sopro.
Em relação ao ritmo, a bossa nova se aproxima do samba, mas sua execução se difere: as percussões não protagonizam sua sonoridade e são muitas vezes abafadas ou mesmo inexistentes, de forma que apenas o violão guia o seu tempo, que na maioria das vezes, é contado em compasso binário (2/2).
As canções da bossa nova têm geralmente caráter poético. Não à toa, Vinícius de Moraes já era um escritor reconhecido por suas poesias muito antes de iniciar sua carreira musical com Tom Jobim. Temas de agrado da sociedade carioca de classes média e alta daquele contexto se tornaram temas comuns abordados pelos vanguardistas do gênero: entre eles o amor, as praias, ou mesmo a cidade de Rio de Janeiro. Suas melodias possuíam geralmente tons suaves e eram cantadas em notas mais graves.
Contudo, não demorou para que surgissem composições que defrontassem os temas tradicionais: em parceria, Baden Powell e Vinícius de Moraes lançaram o disco “Os Afro-sambas” (1966) apresentando composições repletas de elementos da musicalidade e cultura religiosa africanas (como em “Canto de Ossanha” e “Canto de Iemanjá”). Músicas de protesto político e social, no contexto da bossa nova, eram menos comuns (embora houvesse exceções em canções como “Upa neguinho” (1966), de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri) e estariam presentes em um gênero derivado que surgiria ainda na década de 1960, a MPB, como veremos mais adiante.
Origem da bossa nova
No final da década de 1950, no Brasil, ainda transcorriam reflexos do movimento modernista, que havia quase trinta anos, visava criar uma identidade nacional por meio de manifestações que se opunham ao rígido modelo artístico academicista. Seus últimos momentos, aí podemos incluir a bossa nova, significaram um apelo ao universalismo, mas sem que se renunciasse às tradições da cultura brasileira.
As origens da bossa nova como um movimento de contestação ao samba-canção tradicional remetem aos bairros de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro. O estilo foi concebido pelo músico baiano João Gilberto, residente do Rio de Janeiro, com a música “Chega de saudade”, lançada inicialmente em um disco compacto o ano de 1958. Mais que um gênero, porém, a bossa nova se tratava de um movimento que já contava com a colaboração de diversos artistas.
Quase como um clube, os violonistas e compositores se reuniam em seus apartamentos. A inspiração desses músicos não era aleatória, eles foram influenciados por músicos regionais como Johnny Alf (que, aliás, inspirou a bossa nova, a exemplo da música “Rapaz de bem”), Dick Farney e Lúcio Alves, cujas melodias suaves se destacavam mesmo diante dos “vozeirões” populares da época, a exemplo do astro Frank Sinatra.
No bairro da Tijuca, em um porão chamado Sinatra-Farney Fan Club (literalmente um fã-clube dos apreciadores de Frank Sinatra e Dick Farney), fundado em 1949, jovens da classe média se reuniam para apreciar covers de artistas norte-americanos e jam sessions de jazz. Futuramente, o porão receberia grande parte dos primeiros artistas que se tornariam a vanguarda da bossa nova. Na década seguinte, o jazz foi lentamente substituído, embora não completamente, por apresentações com identidade cada vez mais brasileira, e seus músicos passaram a se reunir em seus apartamentos.
O pequeno círculo de adeptos àquele gênero precursor da bossa nova introduziu, um a outro, diversos nomes que se destacariam no novo estilo: Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, João Gilberto, Tom Jobim, Nara Leão, Carlos Lyra, entre muitos outros. Muitos frequentavam o apartamento na Avenida Atlântica, em Copacabana, do advogado Jairo Leão, o pai de Nara, para compor, tocar e cantar.
Foi em uma dessas ocasiões que João Gilberto, que já se apresentava na Rádio Tupi, apresentou a sua ideia de simular a percussão nas cordas do violão. Com o seu álbum de estreia “Chega de saudade”, de 1959, João apresentou harmonia e melodia que aludiam ao jazz norte-americano, mas destacava a sonoridade do samba por meio das cordas do violão.
O resultado do disco, ao romper com o tradicionalismo musical convencional da época, soava para seus ouvintes como um experimento moderno ao fundir a música dos guetos estadunidenses com a dos guetos brasileiros. No lugar de big bands e vozes que se destacavam acima das dezenas de instrumentos, o propósito da bossa nova era o oposto: apresentar a música como poesia, sem excessos. Bastaria um violão e uma voz suave. Por isso, conforme descreveu astutamente o jornalista Ruy Castro, “a bossa nova deixou de ser um jeito de compor, mas estabeleceu-se de vez como um jeito de tocar”. |1|
Bossa nova e MPB
A bossa nova e a música popular brasileira são gêneros que possuem vínculos profundos: a bossa como precursora de um gênero, e a MPB, como resultado de sua influência. O auge da bossa nova, ao menos como movimento artístico, durou até 1962. A grande maioria dos seus músicos, no entanto, como os vanguardistas João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, continuaram a compor canções derivadas do gênero e a influenciar novos artistas que, ao contrário daquele estilo mais reservados à classe média e a influência do exterior, passou a assumir maior sensibilidade política e atenção às raízes culturais do Brasil.
O motivo não foi aleatório, no ano de 1964, o golpe de Estado aplicado pelos militares significou o início de uma longa fase de perseguições políticas e intelectuais (inclusive artísticas). Carlos Lyra, Nara Leão e Sérgio Ricardo passaram a se apresentar com canções críticas ao regime, no lugar das letras românticas comuns no início do movimento. Nesse contexto, a bossa nova, como som de natureza inerente ao estágio final do modernismo brasileiro serviu de principal influência para uma geração de músicos ainda mais jovem, muitos dos quais eram ligados à União Nacional dos Estudantes (UNE).
A harmonia do estilo passou a ser contrastada, com certa dualidade, com canções que denunciavam a realidade social do país e sua cultura popular; e, sem se ater exclusivamente à bossa nova como referência, passou a incorporar elementos musicais de diversos estilos, como o rock, que estava em ascensão no EUA e Inglaterra, e a presença mais perceptível dos sambas de raiz e músicas regionais. Como resultado, a década de 1960 significou uma fase transicional de testes conceituais e novos experimentos sonoros.
Um dos primeiros movimentos a refletir a MPB como herança da bossa nova foi a Tropicália. Ela propunha adaptar gêneros estrangeiros, como o rock, em oposição à mera reprodução de estilos musicais vindas de outros países, por isso, um dos principais alvos de sua crítica era a Jovem Guarda, liderada por Roberto Carlos, que reproduzia quase deliberadamente o mesmo estilo das músicas norte-americanas disseminadas pela indústria cultural dos EUA.
Liderada por músicos “engajados”, ou seja, que se comprometiam a divulgar seus produtos artísticos de forma inerente à crítica política — algo praticamente inexistente na ascensão da bossa nova — a Tropicália era composta por músicos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Rogério Duprat, Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias (estes últimos três, fundadores da banda Os Mutantes).
E, apesar de inicialmente a bossa nova servir de ponto inicial de referência à sonoridade destes músicos, elementos encontrados no rock, baião, bolero, samba e afins passaram a fazer parte de suas principais composições, consolidando, dessa forma, a MPB. Com o enrijecimento da ditadura brasileira, advindo do AI-5 em 1968, o Tropicalismo foi interrompido, e com ele, decretou-se a prisão e o exílio de Caetano e Gil.
A Tropicália não foi a única representação artística-musical de confronto ao regime. Músicos “engajados” como Chico Buarque, Edu Lobo, Dori Caymmi, Marcos Valle, Elis Regina e Geraldo Vandré foram diretamente influenciados pela bossa nova ao apresentarem canções que, sem perder o senso poético, confrontaram a ditadura abertamente. Esses artistas sofreram intensas perseguições do governo, em muitos casos, censura, e/ou foram exilados.
Mesmo assim, a MPB, como resultado da bossa nova, significou um intenso movimento de contestação ao regime militar e inspirou a população brasileira a reivindicar a redemocratização do país, alcançada durante a década de 1980.
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Curiosidades sobre a bossa nova
- O nome “bossa nova” remetia a uma gíria usada desde a década de 1930. “Ter bossa” era algo como ter talento, charme ou naturalidade para fazer algo em específico. A palavra “nova” denotava a oposição do movimento à tradição musical.
- João Gilberto desenvolveu a batida da bossa nova enquanto treinava violão em seu banheiro, cuja acústica permitia perceber a sonoridade do instrumento com maior precisão.
- Durante as gravações de seu primeiro disco, João Gilberto exigia o uso de dois microfones: um para a voz e outro para o violão, a fim de nivelar o instrumento no mesmo grau de importância da melodia.
- Carlos Lyra, Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli eram frequentadores assíduos dos encontros musicais que ocorriam no apartamento de Jairo Leão. Foi lá que a filha do proprietário, Nara Leão, passou a participar das jams, destacando-se aos catorze anos de idade com sua voz.
- Diz-se que o trio precursor do movimento, formado por João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, só se apresentou em conjunto uma única vez, em agosto de 1962.
- Estima-se que “Garota de Ipanema” tenha recebido mais de 400 versões ao redor do mundo, tornando-se uma das músicas mais tocadas nas rádios de todos os tempos.
- Em 2020, na ocasião dos 60 anos do lançamento da música “O barquinho”, diversos artistas japoneses gravaram um tributo em língua portuguesa, disponível no YouTube.
- Em homenagem a dois dos expoentes da bossa nova, os mascotes dos Jogos Olímpicos de 2016, no Brasil, chamavam-se Vinícius e Tom.
- Na década de 2000, “Águas de março” se tornou um meme na série “Laboratório Submarino 2021”, apresentado no bloco de animações Adult Swim, da Cartoon Network.
Nota
|1| CASTRO, Ruy. Chega de Saudades: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Créditos das imagens
[2] Acervo Arquivo Nacional/ Wikimedia Commons
[4] FORTEPAN / Romák Éva / Wikimedia Commons
Fontes
BERNARDO, André. Os bastidores de “Chega de Saudade”, clássico de João Gilberto que completa 60 anos, 2019. BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47491026
CASTRO, Ruy. Chega de Saudades: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
MARTINS, James. Japoneses celebram 60 anos d’‘O Barquinho’ com gravação em português, 2020. Metro1. Disponível em: https://www.metro1.com.br/noticias/cultura/98895,japoneses-celebram-60-anos-do-barquinho-com-regravacao-em-portugues
MCGOWAN, Chris; PESSANHA, Ricardo. The Brazilian Sound: Samba, bossa nova, and the Popular Music of Brazil. Filadélfia: Temple University Press, 1998.
NAVES, Santuza C. Da bossa nova à Tropicália: contenção e excesso na música popular. Revista Brasileira de Ciências Sociais. São Paulo: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS, v.15, n.43, p.35-44, 2000.
VALENTE, Augusto. “Garota de Ipanema”, a música brasileira mais gravada, 2023. DW. Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/garota-de-ipanema-a-música-brasileira-mais-gravada-de-todos-os-tempos/a-16135897