Literatura gótica
Literatura gótica é uma vertente do Romantismo (estilo de época que teve seu auge no século XIX). A obra fundadora da literatura gótica é O castelo de Otranto, do autor inglês Horace Walpole. Esse livro foi publicado, pela primeira vez, em 1764. E inaugurou uma estética literária fundada no mistério e no terror.
Obras góticas são marcadas pela grandiosidade, exagero, irracionalidade e acontecimentos sobrenaturais. Seu aspecto sombrio é combinado com a evidenciação da terrível monstruosidade humana. O autor ultrarromântico Álvares de Azevedo é o principal representante do gótico literário brasileiro.
Leia também: Literatura fantástica — as obras com fatos extraordinários, ilógicos ou sobrenaturais
Resumo sobre literatura gótica
- A literatura gótica é uma vertente da literatura romântica e foi criada no final do século XVIII, na Europa.
- A principal característica da literatura gótica é sua capacidade de provocar o terror em leitoras e leitores.
- Outras características góticas são: exagero, grandiosidade, mistério, elementos sobrenaturais, irracionalidade, morbidez e monstruosidade.
- A obra fundadora da literatura gótica é o romance O castelo de Otranto, do escritor inglês Horace Walpole, publicado em 1764.
- No Brasil, o principal representante desse tipo de literatura é o escritor romântico Álvares de Azevedo, com suas obras Noite na taverna e Macário.
O que é literatura gótica?
A literatura gótica é aquela que tem como temática o terror. Ela é capaz de provocar medo na pessoa que a lê. Portanto, é sombria e tenebrosa. Livros desse tipo trazem elementos angustiantes e não apresentam nada de alegria ou beleza. Eles possuem elementos sobrenaturais, extraordinários, não explicáveis pelas leis da natureza.
Essa literatura surgiu na Inglaterra, no século XVIII, e, portanto, está vinculada, em sua origem, ao Romantismo. O Romantismo é um estilo de época criado no final desse século. Obras desse estilo são marcadas pela subjetividade, que é a visão ou atitude pessoal e sentimental de quem conta a história.
Assim, o narrador (aquele ou aquela que conta a história) não é objetivo, direto e frio. Ele expressa emoções e/ou evidencia as emoções de personagens. Narrativas românticas são exageradamente sentimentais e emotivas. Nelas, predominam a emoção e a intuição, não a racionalidade.
Daí o gótico, ou terror, estar vinculado a tal estilo, já que as coisas sobrenaturais que acontecem não podem ser explicadas pela razão humana. Aquele que lê uma obra da literatura gótica não vai questionar se fantasmas existem ou não, mas apenas sentir o terror do contato com os mortos.
No passado, o termo “gótico” fazia referência à língua dos godos (um povo originado da Escandinávia). Outro conceito de “gótico” é algo ridículo ou desagradável. Era assim que italianos do Renascimento (movimento artístico e período histórico compreendido entre os séculos XIV e XVI) definiam a arquitetura dos povos germânicos produzida no século XII.
Nesse sentido, gótico é algo sem harmonia, grotesco, excêntrico, irracional, sombrio. Daí a literatura gótica estar tão atrelada ao que é romântico, isto é, algo emotivo e não racional. Ela surgiu, especificamente, em 1764, com a publicação do livro do escritor inglês Horace Walpole, O castelo de Otranto, o primeiro romance gótico.
Outra característica que marca o Romantismo é o nacionalismo (a valorização das origens e da identidade de um povo). Durante o período romântico, o gótico passou a ser visto também como um importante símbolo de nacionalidade, já que remetia às origens do povo britânico.
Mas o que marca mesmo a literatura gótica é o terror que você sente ao ler Drácula, de Bram Stoker, ou Frankenstein, de Mary Shelley. Você tem medo de ser mordida pelo perverso conde Drácula? E você tem medo de ser destroçado pelo monstro criado pelo doutor Frankenstein? Bem-vindos à literatura gótica.
Principais características da literatura gótica
Como a literatura gótica também é romântica, ela apresenta as principais características do Romantismo, tais como:
- exagero sentimental;
- forte caráter emotivo;
- uso de muitos adjetivos (adjetivos qualificam os substantivos, que são palavras que nomeiam seres ou coisas).
Um texto com muitos adjetivos é bastante subjetivo (pessoal e parcial). Afinal, eu posso dizer para você que os olhos do vampiro são perversos e sombrios. Mas se você olhar nos olhos do vampiro, pode achar que eles são melancólicos e apáticos. Quero dizer, com isso, que adjetivos são visões pessoais, não gerais.
A literatura gótica vai explicitar as emoções e os sentimentos de personagens, e, às vezes, as emoções de quem narra a história. E tem o objetivo de despertar o terror na pessoa que lê a obra. Assim, tem algo de transgressor, já que ultrapassa os limites da razão e gera perturbação.
Por ser uma obra de terror, a narrativa gótica apresenta elementos sobrenaturais, os quais geram estranheza. A ação transcorre em um ambiente opressor, assustador, cercado de mistério, exótico (extravagante) e primitivo (grosseiro, rudimentar, animalesco). Elementos fantásticos (extrapolam o real, as leis naturais) também estão presentes.
A atmosfera sombria, mórbida (doentia), macabra (fúnebre) são outros elementos da literatura gótica. Ela também pode explicitar a melancolia ou tristeza romântica. A prolixidade (expressar algo com muitas palavras) é uma característica gótica, já que quem narra a história busca contar tudo nos mínimos detalhes.
Afinal, se eu narro algo sobrenatural, que não existe no mundo real, preciso dar muitos detalhes para você que me lê visualizar ou imaginar o que estou expressando. Outro aspecto é a grandiosidade, ou seja, tudo é monumental, exagerado. Por exemplo, um imenso castelo, altas montanhas, um mar bravio etc.
A literatura gótica apresenta personagens monstruosos, em aparência e/ou caráter. Dessa forma, pode apenas entreter por meio das ações fantásticas, como também criar uma metáfora que gere reflexão. Por exemplo, o monstro criado por Frankenstein pode ser a metáfora da própria monstruosidade humana inerente a todos nós.
Também pode ser uma crítica à falta de limites ou de ética da ciência. Já um vampiro traz consigo elementos existenciais, como a eternidade e a solidão. E por aí vai... Contudo, o grande objetivo da literatura gótica é provocar medo, terror, ficando a reflexão em segundo plano.
Tal literatura está mais vinculada o gênero narrativo (composto por textos que contam histórias), mas também pode caracterizar um texto do gênero dramático (escrito para ser encenado) ou mesmo lírico (de caráter poético). O terror pode ser expresso em todos esses gêneros.
Por fim, em textos góticos, predomina o ceticismo romântico, o qual se configura na dúvida ou descrença em relação a tudo, principalmente em relação à racionalidade humana. E também o pessimismo, pois o aspecto sombrio e macabro de tais obras não dá espaço para otimismo em relação à existência.
Livros da literatura gótica
- O castelo de Otranto (1764), de Horace Walpole.
- As aventuras de Caleb Williams (1794), de William Goldwin.
- Os mistérios de Udolpho (1794), de Ann Radcliffe.
- O monge (1796), de Matthew Gregory Lewis.
- Wieland (1798), de Charles Brockden Brown.
- Os elixires do diabo (1815), de E. T. A. Hoffmann.
- Frankenstein (1818), de Mary Shelley.
- Infernaliana (1822), de Charles Nodier.
- Memórias e confissões íntimas de um pecador justificado (1824), de James Hoog.
- O morro dos ventos uivantes (1847), de Emily Brontë.
- Wagner, o lobisomem (1847), de George W. M. Reynolds.
- A casa das sete torres (1851), de Nathaniel Hawthorne.
- Histórias extraordinárias (1859), de Edgar Allan Poe.
- Carmilla (1872), de Sheridan le Fanu.
- O médico e o monstro (1886), de Robert Louis Stevenson.
- O retrato de Dorian Gray (1890), de Oscar Wilde.
- Drácula (1897), de Bram Stoker.
O que faz um livro ser gótico?
Para ser gótico, um livro deve apresentar uma história de terror. Não pode ser uma obra pautada na racionalidade, mas sim na emoção. Afinal, um livro gótico busca perturbar a pessoa que o lê, em vez de explicar fenômenos, já que os fatos desse tipo de livro são inexplicáveis, ultrapassam a razão e a lógica.
Portanto, precisa conter acontecimentos sobrenaturais, fantásticos, estranhos, que geram angústia, medo e terror. O mistério de um livro gótico constrói um ambiente assustador. O caráter sombrio, mórbido, fúnebre e melancólico contribui para a formação da atmosfera gótica.
O exagero está presente nesse tipo de livro, o qual apresenta fatos ou ambientes grandiosos e impressionantes. A monstruosidade é outro elemento típico de uma obra gótica, seja a monstruosidade física ou moral. O monstro em Frankenstein, por exemplo, é fisicamente deformado.
Já Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde, é moralmente deformado. Enfim, o que faz um livro ser gótico é o terror que ele provoca ao manipular nossas crenças e explicitar nossos medos ancestrais (sendo o maior deles a morte). E tudo isso baseado em uma visão pessimista em torno de nosso futuro e de nossa própria humanidade.
Autores da literatura gótica
- Ann Radcliffe (1764-1823) — inglesa.
- Bram Stoker (1847-1912) — irlandês.
- Charles Brockden Brown (1771-1810) — estado-unidense.
- Charles Nodier (1780-1844) — francês.
- Edgar Allan Poe (1809-1849) — estado-unidense.
- Emily Brontë (1818-1848) — inglesa.
- E. T. A. Hoffmann (1776-1822) — alemão.
- George W. M. Reynolds (1814-1879) — inglês.
- Horace Walpole (1717-1797) — inglês.
- James Hoog (1770-1835) — escocês.
- Mary Shelley (1797-1851) — inglesa.
- Matthew Gregory Lewis (1775-1818) — inglês.
- Nathaniel Hawthorne (1804-1864) — estado-unidense.
- Oscar Wilde (1854-1900) — irlandês.
- Robert Louis Stevenson (1850-1894) — escocês.
- Sheridan le Fanu (1814-1873) — irlandês.
- William Goldwin (1756-1836) — inglês.
Literatura gótica brasileira
Anteriormente, eu mostrei para você que a literatura gótica é uma vertente do Romantismo. Portanto, ela surge no final do século XVIII e tem seu auge no século XIX. Assim, o escritor romântico Álvares de Azevedo (1831-1852) é o principal nome da literatura gótica brasileira.
Esse poeta é um dos principais nomes do Ultrarromantismo, vertente do Romantismo brasileiro caracterizada pelo excesso sentimental, pessimismo e morbidez. A temática da morte é recorrente nas obras dos ultrarromânticos. E o terror está presente em Noite na taverna (1855) e Macário (1855), de Álvares de Azevedo.
Na narrativa Noite na taverna, alguns jovens estão reunidos em uma taverna e passam a contar acontecimentos sombrios de suas vidas. Os relatos tratam de temas como assassinato e necrofilia. Já a peça teatral Macário tem nada mais nada menos do que Satã como um de seus personagens.
Exercícios sobre literatura gótica
Questão 1
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) A literatura gótica possui elementos da estética romântica.
( ) O terror é o principal elemento caracterizador da literatura gótica.
( ) Frankenstein, de Mary Shelley, é a obra inaugural da literatura gótica.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) F, F, F.
D) F, F, V.
E) F, V, F.
Resolução:
Alternativa A.
A literatura gótica possui elementos românticos, como: exagero, pessimismo, ceticismo e morbidez. Obras góticas apresentam, principalmente, elementos que provocam terror. O castelo de Otranto, de Horace Walpole, é a obra inaugural da literatura gótica.
Questão 2
Leia, a seguir, duas estrofes do famoso poema O corvo, de Edgar Allan Poe, traduzido pelo escritor brasileiro Machado de Assis:
Em certo dia, à hora, à hora
da meia-noite que apavora.
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
ao pé de muita lauda antiga,
de uma velha doutrina, agora morta,
ia pensando, quando ouvi à porta
do meu quarto um soar devagarinho,
e disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
há de ser isso e nada mais”.
[...]
Com longo olhar escruto a sombra,
que me amedronta, que me assombra,
e sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
mas o silêncio amplo e calado,
calado fica; a quietação quieta;
só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
da minha triste boca sais;
e o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
foi isso apenas, nada mais.
[...]
SÁ, Daniel Serravalle de (org.). O Corvo multilíngue. Florianópolis : DLLE/ CCE/ UFSC, 2015.
O fragmento apresenta as seguintes características da literatura gótica, EXCETO:
A) Mistério.
B) Caráter sombrio.
C) Melancolia.
D) Racionalidade.
Resolução:
Alternativa D.
O poema é sombrio (“meia-noite que apavora”, “escruto a sombra”), misterioso (“velha doutrina, agora morta”, “um soar devagarinho”) e melancólico (“da minha triste boca”). O poema sugere a existência do inexplicável, isto é, daquilo que é misterioso. Por exemplo, a sombra que amedronta e o sonho nunca sonhado por um mortal. Portanto, não há explicações racionais ou naturais para a experiência expressa no texto.
Fontes
ARAÚJO, Lorena Amaral. A influência de Byron e do Romantismo Gótico em Álvares de Azevedo, Fialho de Almeida e Apollinaire. 2023. Monografia (Licenciatura em Letras) – Instituto de Letras, Universidade de Brasília, Brasília, 2023.
CAMPIGOTTO, Lucas Monteiro. O arquétipo do medo na literatura gótica: de Walpole a Stoker. 2023. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Estadual de Maringá, Maringá, 2023.
ROSA, Dione Mara Souto da. Noite na taverna (1855) de Álvares de Azevedo: amor e morte emoldurados por sombras góticas. 2016. Dissertação (Mestrado em Teoria Literária) – Centro Universitário Campos de Andrade, Curitiba, 2016.