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A prosa intimista de Clarice Lispector

A prosa intimista de Clarice Lispector inaugurou uma nova estética literária ao propor uma viagem ao consciente individual de suas personagens.

“Se tivesse a tolice de se perguntar 'quem sou eu?' cairia estatelada e em cheio no chão. É que 'quem sou eu?' provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

(Clarice Lispector, fragmento extraído de “A hora da estrela”, 1977)

Entre os anos de 1930 e 1945 as artes no Brasil, inclusive a Literatura, estavam voltadas para a discussão dos problemas brasileiros, sob influência das temáticas ideológicas. O contexto histórico da época explicava esse panorama, pois no mundo perdurava a Segunda Guerra Mundial e o Brasil experimentava a Era Vargas. Sendo assim, as artes plásticas e a literatura não poderiam manter-se indiferentes e fazer outra coisa senão se engajar socialmente, conferindo não só um caráter estético às obras produzidas, mas também um quê de utilidade onde antes reinava apenas o espírito contemplativo.

Findada a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, a Era Vargas, alguns aspectos ganharam novos contornos, vivia-se uma aparente euforia com o período democrático e, dessa maneira, influenciada por esse novo estado de coisas, a Literatura pôde caminhar em direção à experimentação, e os autores, que já vislumbravam outros temas além dos políticos e sociais, puderam entregar-se a uma pesquisa estética, especialmente à pesquisa em torno da própria linguagem literária. Nesse cenário, várias obras significativas foram publicadas e nelas o espaço urbano ganhou uma posição de destaque. O Brasil conheceu vários nomes que seriam expoentes literários, dentre eles, ganhou visibilidade a prosa intimista de Clarice Lispector.

Clarice nasceu na Ucrânia, na aldeia de Tchetchelnik, em 10 de dezembro de 1920. Seu nascimento ocorreu durante a viagem de emigração da família em direção à América, chegando ao Brasil com apenas dois meses de idade. Foi criada na cidade de Recife, naturalizou-se brasileira e assim se definia, fazendo da língua portuguesa sua vida, dedicando-se exaustivamente à literatura. Sua primeira obra causou espanto à crítica literária e ao público, pois as inovações de seu romance Perto do coração selvagem (1944) não foram compreendidas por seus primeiros leitores. A escritora tentava, já nessa primeira incursão de visibilidade no universo da literatura, imprimir seu estilo, utilizando-se de um novo tipo de expressão literária ao subverter a estrutura do gênero narrativo e incorporar na prosa elementos até então vistos como estritamente poéticos, permeando sua escrita de metáforas, paradoxos, antíteses, figuras de linguagem que residiam sobretudo na poesia.

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Principal nome de uma tendência intimista na literatura brasileira, Clarice propôs uma viagem ao consciente individual: a experiência interior passa para o primeiro plano da criação literária, deixando em segundo plano o meio externo, o homem e sua condição social. Para Clarice, o ponto de partida foram as experiências pessoais, o universo feminino - apesar de jamais ter aceitado o rótulo de escritora feminista - e seu ambiente familiar. Experimentou inovações como o fluxo de consciência, indefinindo as fronteiras entre a voz do narrador e das personagens, denotando uma estrutura sintática caótica, porém verossímil, ao representar com espontaneidade o pensamento, por vezes descontínuo e desarticulado, de suas personagens.

Com mais de vinte obras publicadas, alguns títulos da ficção clariceana ganharam destaque: Perto do coração selvagem, O lustre, cuja capa do livro publicado pela Editora Relógio D'água ilustra este artigo (romances, ambos de 1946), Laços de família (contos, 1960), A paixão segundo G. H. (romance, 1964), Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (romance, 1969), Água viva (prosa, 1973), A hora da estrela, último livro publicado antes de sua morte (romance, 1977). Clarice imortalizou seu estilo, ocupando lugar cativo entre os maiores escritores da literatura brasileira.

Capa do livro “O lustre”. Ed. Relógio D'água, 2012. A prosa intimista de Clarice Lispector inaugurou um novo tipo de expressão literária
Capa do livro “O lustre”. Ed. Relógio D'água, 2012. A prosa intimista de Clarice Lispector inaugurou um novo tipo de expressão literária
Publicado por: Luana Castro Alves Perez
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Questão 1

Enem 2013

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.

[...]

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. [...] Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro:  Rocco, 1998 (fragmento).

A elaboração de uma voz narrativa peculiar acompanha a trajetória literária de Clarice Lispector, culminada com a obra A hora da estrela, de 1977, ano da morte da escritora. Nesse fragmento, nota-se essa peculiaridade porque o narrador

a) observa os acontecimentos que narra sob uma ótica distante, sendo indiferente aos fatos e às personagens. 

b) relata a história sem ter tido a preocupação de investigar os motivos que levaram aos eventos que a compõem.

c) revela-se um sujeito que reflete sobre questões existenciais e sobre a construção do discurso.

d) admite a dificuldade de escrever uma história em razão da complexidade para escolher as palavras exatas.

e) propõe-se a discutir questões de natureza filosófica e metafísica, incomuns na narrativa de ficção.

Questão 2

UFPR – 2008

“(...) As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito. Ou, pelo menos, não era apenas isso. Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias. (...)”

(de “Os desastres de Sofia”)

(...) Na verdade era uma vida de sonho. Às vezes, quando falavam de alguém excêntrico, diziam com a benevolência que uma classe tem por outra: “Ah, esse leva uma vida de poeta”. Pode-se talvez dizer, aproveitando as poucas palavras que se conheceram do casal, pode-se dizer que ambos levavam, menos a extravagância, uma vida de mau poeta: vida de sonho. Não, não era verdade. Não era uma vida de sonho, pois este jamais os orientara. Mas de irrealidade . (...)”

(de “Os obedientes”)

Com base nos fragmentos acima transcritos, extraídos de contos do livro Felicidade clandestina, de Clarice Lispector, considere as seguintes afirmativas:

I. Narrar ou deixar de narrar, avaliar de diferentes maneiras um mesmo fato narrado são hesitações frequentes dos narradores de Clarice Lispector. Como nos fragmentos acima, também em outros contos prioriza-se a abordagem da vida interior, própria ou alheia, revelando sutis alternâncias de percepção da realidade.

II. O aspecto metalinguístico está presente no primeiro fragmento.

III. Na ficção de Clarice Lispector, as diferenças entre a percepção masculina e a feminina não são tematizadas, pois o ser humano está sempre condenado a viver num mundo incompreensível.

IV. Na ficção de Clarice Lispector, apenas as personagens adultas têm consciência de seus processos interiores. As crianças e adolescentes sofrem o impacto de novas descobertas, mas sua inocência os afasta de qualquer comportamento perverso e os protege dos riscos de viver mais intensamente.

Assinale a alternativa correta.

a) Somente as afirmativas 1 e 2 são verdadeiras.

b) Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.

c) Somente as afirmativas 3, 4 são verdadeiras.

d) Somente as afirmativas 2, 3 e 4 são verdadeiras.

e) Somente as afirmativas 1, 2 e 4 são verdadeiras.

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