Ainda estou aqui

Ainda estou aqui é um romance do escritor brasileiro Marcelo Rubens Paiva. O livro foi publicado, pela primeira vez, em 2015, e consiste em uma obra de caráter memorialístico. Nesse livro, Marcelo Rubens Paiva faz reflexões sobre o Alzheimer e sobre a ditadura militar brasileira, iniciada em 1964.
Assim, os principais fatos narrados estão relacionados à prisão, à tortura e ao assassinato do pai do autor, o ex-deputado Rubens Paiva, em 1971. O narrador destaca a luta de sua mãe, Eunice Paiva, para descobrir a verdade acerca do desaparecimento de seu marido, e mostra as dificuldades enfrentadas por ela após ser diagnosticada com Alzheimer.
Leia também: Milton Hatoum — autor brasileiro cujas narrativas apresentam tom memorialístico e crítica social
Resumo sobre Ainda estou aqui
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Ainda estou aqui é uma obra autobiográfica ou de caráter memorialístico.
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Marcelo Rubens Paiva fala da prisão, tortura e assassinato de seu pai, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura militar.
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O autor relembra fatos dessa época, quando tinha 11 anos de idade.
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Eunice Paiva, mãe do autor, também foi presa, mas libertada 12 dias depois.
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Sem o marido, desaparecido político, Eunice precisou criar seus cinco filhos sozinha.
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Ela ingressou na faculdade de Direito com 42 anos de idade.
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Em sua carreira como advogada, foi destaque o seu trabalho de defesa dos direitos indígenas.
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Eunice lutou para que o Estado assumisse a responsabilidade pela morte de seu marido.
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Ela também lutou pela redemocratização do país e participou das Diretas Já.
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Eunice Paiva se aposentou com 70 anos de idade, e tempos depois foi diagnosticada com Alzheimer.
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O narrador faz reflexões sobre o Alzheimer, sobre a ditadura e sobre a tortura, além de relembrar fatos de sua infância e juventude.
Videoaula sobre Ainda estou aqui

Análise da obra Ainda estou aqui
→ Personagens da obra Ainda estou aqui
Os personagens principais da obra integram a família Paiva:
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Eunice Paiva: mãe.
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Rubens Paiva: pai.
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Babiu: filha.
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Veroca: filha.
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Eliana: filha.
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Nalu: filha.
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Marcelo Rubens Paiva: filho.
O narrador também menciona amigos e conhecidos da família, além de mencionar a babá Cida, a empregada Maria José, a professora Cecília, a avó Olga, o avô José Facciolla, o avô Jayme Paiva e a avó Cecy.
→ Tempo da obra Ainda estou aqui
A obra apresenta tempo psicológico, já que a narrativa não é linear. Assim, o narrador, além de fazer reflexões, menciona fatos que vão ser retomados adiante, bem como retorna ou retoma fatos anteriores no curso da narrativa. Além disso, os acontecimentos narrados se passam, principalmente, na década de 1970, mas também em outras épocas, como na década de 1960 e na década de 2010.
→ Espaço da obra Ainda estou aqui
Os fatos narrados ocorrem em cidades brasileiras, como Rio de Janeiro, São Paulo, Santos e Campinas.
→ Narrador da obra Ainda estou aqui
A obra apresenta um narrador-personagem, o qual é o próprio autor da obra, já que ela é um romance de caráter memorialístico.
→ Enredo da obra Ainda estou aqui

O narrador inicia a obra com reflexões acerca da memória, já que vai contar como ocorreu a interdição da mãe, Eunice Paiva, que estava com Alzheimer. O autor também menciona o nascimento de seu filho, além de revelar que o atestado de óbito do ex-deputado Rubens Paiva, pai do autor, só foi obtido em 1996.
Então conta sobre a ascendência italiana da família. Seu avô materno, um novo-rico, criou suas filhas para casar, mas Eunice Paiva, com 18 anos de idade, alcançou o primeiro lugar no vestibular para Letras e ingressou na faculdade, mesmo contra a vontade do pai. Aos 42 anos de idade, ela iniciaria o curso de Direito e se tornaria advogada.
Ao relembrar a infância, o narrador fala da vivência com primos e tios na fazenda do avô paterno. Além disso, traça um retrato da mãe, uma mulher que sempre lia muito, uma pessoa prática que buscava evitar a passionalidade italiana e não era uma mãe típica, pois evitava demonstrações de afeto.
A morte do pai em 1971, ocorrida após tortura, foi seguida da morte de outros integrantes da família, da venda da fazenda do avô, de forma que restaram só lembranças. O autor faz comentários e mais reflexões acerca do Alzheimer. Retorna às lembranças da infância, menciona que o pai o tirou de um colégio construtivista e fê-lo estudar em uma escola pública, de qualidade inferior.
Isso porque o pai tinha medo de que Marcelo ficasse “afeminado”. Em seguida, o narrador mostra sua fascinação ou curiosidade, quando criança, pelo universo feminino, já que estava cercado por mulheres — além da mãe, as quatro irmãs. Em suas digressões, o narrador fala da cassação do pai logo após o golpe de 1964.
O pai foi embora do país, mas logo retornou. Em 1965, a família Paiva foi morar no Rio de Janeiro. Morava no Leblon, bairro que ficava perto da favela do Pinto, que seria incendiada, em 1969, supostamente por militares. No local da favela, construiriam um condomínio em que morariam muitos militares.
O autor relembra sua adolescência após a morte do pai, típica da classe média, em que ele fumou, dirigiu sem carteira, foi a festas, iniciou suas reflexões políticas. Eunice Paiva, segundo o autor, não era uma mãe muito afetiva, era uma mulher prática, com quem ele podia contar.
Marcelo Rubens Paiva narra acontecimentos de sua juventude, tais como namoro, sexo, vida de universitário. Durante o tempo em que estudava na Unicamp, sua namorada ficou grávida. Para fazer o aborto, ele pediu a ajuda de Eunice Paiva. Ela lhe deu o dinheiro para fazer o procedimento em uma clínica indicada por seu ginecologista.
Em seguida, o narrador relembra o acidente que o deixou paraplégico, mas não dá detalhes, os quais estão no livro Feliz ano velho. Faz mais reflexões sobre a ditadura, cujos agentes consideravam comunista qualquer pessoa contrária ao regime. Novamente, as lembranças acerca da prisão do pai são destacadas.
Rubens Paiva, após sua cassação, foi para o exílio, mas voltou de forma inesperada. Passou a ajudar aqueles que eram perseguidos pelo regime. Assim, em 1971, o pai de Marcelo Rubens Paiva foi preso e torturado, segundo testemunhas, ao som da música Jesus Cristo, na voz de Roberto Carlos.
Nesse ponto, o autor menciona casos de tortura cometida pela polícia no ano de 2013, de modo a mostrar que essa prática desumana ainda ocorre no Brasil. Menciona o jeito alegre do pai. Na sequência, narra os detalhes de sua prisão no dia em que os “gorilas” (militares) invadiram sua casa, levaram o pai preso e ficaram na casa por horas.
Era o feriado municipal de 20 de janeiro de 1971. No dia seguinte, levaram Eunice Paiva e sua filha de 15 anos para prestarem depoimento. Ao saberem disso, os avós maternos e amigos decidiram tirar as crianças de casa e levar cada uma para um lugar, com medo de que fossem presas também.
Afinal, na “ditadura, torturaram freis, freiras, bispos, padres brasileiros e estrangeiros, velhos, bebês, grávidas, pais com filhos, mães amarradas diante de filhos, por uma causa torpe”. A irmã do autor foi solta no dia seguinte à sua prisão. Já Eunice Paiva ficou presa durante 12 dias.
Os agentes do regime divulgaram a notícia falsa de que Rubens Paiva tinha fugido. Eunice Paiva deu entrevistas para revistas estrangeiras, que noticiaram a prisão de seu marido. Foi o início da busca pelo marido desaparecido. Anos mais tarde, a família teria a confirmação de que Rubens Paiva tinha sido morto no dia seguinte à prisão, e seu corpo tinha sido esquartejado.
No ano da prisão de Rubens Paiva, Eunice teve a notícia de sua morte por meios não oficiais, revelação de um jornalista amigo da família. Como a morte do marido não era oficial, Eunice Paiva não podia ter acesso aos bens do morto ou receber pensão. Trabalhou para sustentar os filhos.
Marcelo Rubens Paiva diz que sua mãe, com 85 anos, devido ao Alzheimer, não se lembrava de fatos recentes. Retorna novamente a 1971 e lista alguns nomes de desaparecidos políticos nesse ano. Menciona que alguns empresários financiaram a ditadura e as torturas.
Já advogada, Eunice Paiva lutou pela redemocratização, dedicou-se à causa indígena, participou das Diretas Já. Os filhos se casaram e vieram os netos. Ela então namorou um suíço por um tempo, até que decidiu terminar o namoro. Em seguida, o autor retorna ao tema da ditadura e dá detalhes sobre a busca da mãe pela verdade acerca da morte do marido.
Em 1999, Eunice Paiva se aposentou, com 70 anos de idade. Tempos depois, os filhos e conhecidos começaram a perceber certas alterações em seu comportamento:
Estranhamente, Nalu, que tinha passado uns dias com ela, reparou que ela estava confusa com contas e dinheiro, atrapalhava-se com algo com que era profundamente precavida. Nos avisou, antes de voltar pra Paris:
— Mamãe está tão estranha...
E estava mesmo. Certa vez, a vizinha da porta da frente do Rio contou que estava saindo, chamou o elevador, minha mãe a viu, papeou com ela, o elevador chegou, minha mãe falou que ia descer com ela. Só que estava de camisola. A vizinha a alertou. Ela ficou sem graça e disse que havia desistido de descer. A vizinha nos avisou.
O autor menciona os estágios da doença e relata como a mãe vivenciou cada estágio do Alzheimer, mostrando as dificuldades e atitudes no cuidado com o doente com essa condição. Além disso, o autor dá detalhes sobre a Comissão Nacional da Verdade, que buscou apurar as violações de direitos humanos ocorridas na ditadura. Assim, Marcelo Rubens Paiva encerra a narrativa em 2015 (Eunice Paiva morreria em 2018).
Por fim, os dois últimos capítulos da obra consistem em documentos oficiais, isto é, a denúncia do Ministério Público Federal (contra cinco responsáveis pela morte de Rubens Paiva, ocultação de cadáver, fraude processual e quadrilha armada) e o recebimento da denúncia.
Principais características da obra Ainda estou aqui
→ Estrutura da obra Ainda estou aqui
O romance Ainda estou aqui é dividido em três partes:
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parte 1 — cinco capítulos;
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parte 2 — seis capítulos;
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parte 3 — oito capítulos.
→ Estilo literário da obra Ainda estou aqui
A obra faz parte da literatura contemporânea brasileira e apresenta estas características:
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linguagem clara;
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ironia;
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crítica social e política;
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aspecto autobiográfico ou memorialístico.
Contexto histórico da obra Ainda estou aqui
Entre os dias 31 de março e 1º de abril de 1964, um golpe militar implantou a ditadura no Brasil, a qual só teria fim em 1985, com a volta da democracia. Com o golpe, o presidente João Goulart (1919-1976) foi deposto. O regime ficou ainda mais rígido no final de 1968, com a decretação do Ato Institucional número 5, o AI-5.
Tal ato permitiu, por exemplo, a suspensão dos direitos individuais, como o habeas corpus. Nesse contexto de extrema repressão, censura e tortura institucionalizada, o pai do autor, o ex-deputado Rubens Paiva, foi preso, torturado e assassinado. Mas o Estado não admitiu tal fato, o que levou Eunice Paiva, mãe do autor, a empreender uma busca pela verdade acerca do desaparecimento do marido.
Moral da história de Ainda estou aqui
É preciso lutar pela democracia, pela transparência do Estado e por nossos direitos.
Ainda estou aqui e adaptação para o cinema

O romance autobiográfico Ainda estou aqui foi adaptado para o cinema pelo diretor Walter Salles. O filme conta com a atuação de Fernanda Torres, como Eunice Paiva, e de Selton Mello, como Rubens Paiva. A obra estreou em 2024 e recebeu inúmeras indicações a prêmios nacionais e internacionais.
Assim, o filme ganhou vários prêmios, sendo os principais:
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Oscar de Melhor Filme Internacional;
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Osella de Ouro de Melhor Roteiro, no Festival Internacional de Cinema de Veneza;
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Troféus Green Drop e SIGNIS, no Festival Internacional de Cinema de Veneza;
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Prêmio de Público do Festival de Roterdã;
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Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme Dramático para Fernanda Torres;
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Melhor Filme Nacional da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo;
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Prêmio APCA de Cinema de Melhor Filme e Melhor Atriz, para Fernanda Torres;
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Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano.
Marcelo Rubens Paiva, autor de Ainda estou aqui

Marcelo Rubens Paiva é o autor de Ainda estou aqui. Ele nasceu na cidade de São Paulo, em 1º de maio de 1959. Com 11 anos de idade, ficou órfão de pai (o ex-deputado Rubens Paiva), o qual foi torturado e morto por agentes da ditadura militar. Mais tarde, o escritor estudou no Colégio Andrews, no Rio de Janeiro.
Estudava na Unicamp quando, em 1979, sofreu um grave acidente ao pular de cabeça em um lago, o que o deixou tetraplégico. Esse episódio e suas consequências são narrados em seu primeiro e famoso livro Feliz ano velho. O autor também escreveu crônicas para a Folha de S. Paulo e para o Estado de São Paulo. Além disso, ganhou o prêmio Jabuti.
Para saber mais sobre Marcelo Rubens Paiva, clique aqui.
Créditos de imagem
[1] Companhia das Letras (reprodução)
[2] Harald Krichel / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
PAIVA, Marcelo Rubens. Ainda estou aqui. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
SILVA, Maricelma da. Narrativa e metanarrativa: modos de reconstituição da memória em Ainda estou aqui, de Marcelo Rubens Paiva. 2018. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos, 2018.
SOUSA, Rodrigo Diniz. Alegorias do trauma ditatorial: violência e memória em Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva. 2018. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) – Universidade Federal de Rondônia, Porto Velho, 2018.
Ferramentas Brasil Escola




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