Gênero lírico

O gênero lírico é um dos gêneros literários. Os textos líricos são marcados por um alto grau conotativo. Os outros gêneros literários são o narrativo e o dramático.

Gênero lírico é um dos gêneros literários. O texto lírico é marcado pelo sentido conotativo (extrapola o sentido literal) e pela plurissignificação (possibilidade de múltiplos significados).

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Leia também: Quais são os gêneros literários?

Resumo sobre o gênero lírico

  • O gênero lírico é uma categoria de gênero literário que apresenta elementos poéticos.
  • Textos do gênero lírico são plurissignificativos, conotativos e geram estranheza.
  • Um texto do gênero lírico pode ser escrito em forma de versos (poesia em versos) ou em forma de prosa (prosa poética).
  • O eu lírico é a voz que expressa o texto poético, e não se confunde com a voz autoral.

O que é o gênero lírico?

O gênero lírico é uma categoria de texto literário marcado pelo lirismo, ou seja, apresenta elementos típicos da poesia. Existem três gêneros literários: narrativo, dramático e lírico. Quando um texto conta uma história, ele é narrativo. Se o texto é escrito para ser encenado, ele é dramático.

a poesia e a letra de música são do gênero lírico, pois expressam emoções e ideias de forma plurissignificativa (com múltiplos significados). Cada um dos gêneros literários possui características próprias que os diferenciam. O gênero lírico, além do conteúdo extremamente conotativo, também apresenta típicas características estruturais.

O termo “lírico” tem origem na Antiguidade Clássica. Isso porque, nessa época, a poesia era cantada ao som de uma lira. Esse instrumento era usado pelos gregos antigos. Portanto, o adjetivo “lírico” é derivado do substantivo “lira”. Isso indica que a musicalidade é algo inerente aos textos poéticos.

Não pare agora... Tem mais depois da publicidade ;)

Características do gênero lírico

O conteúdo de um texto do gênero lírico é plurissignificativo e sugestivo. Quero dizer, com isso, que um texto poético sugere mais do que o óbvio. Assim, uma palavra em uma poesia pode ter múltiplos significados ou um significado conotativo (ultrapassa o sentido literal ou primordial da palavra).

Talvez você esteja pensando: “Mas, professor, narrativas também podem ser conotativas”. Concordo com você. Contudo, a plurissignificação de uma poesia é mais intensa e mais frequente. Ela também desperta estranheza em leitoras e leitores. Sabe quando você lê algo “esquisito”? Pois é, o “esquisito” é poético, pois sai do padrão.

E já que você mencionou as narrativas, uma boa forma de identificar o texto do gênero lírico é perguntar: “Ele conta uma história?”. Se a principal função dele é contar uma história, ele é do gênero narrativo e não do gênero lírico. Por exemplo, o livro Ilíada, de Homero, é do gênero narrativo.

Agora você está pensando: “Ué, esse livro não é escrito em versos?”. Novamente, você tem razão. Ele é escrito em versos, mas conta uma história. Por isso, é chamado de poema narrativo. Assim, diferencia-se do poema lírico, o qual expressa ideias, emoções, sentimentos, mas sem contar história.

E já que você falou em versos, é muito comum que textos do gênero lírico sejam escritos em forma de verso (cada uma das linhas de um poema), da mesma forma que é mais comum um texto do gênero narrativo ser escrito em forma de prosa (texto corrido, sem versos).

Entretanto, da mesma forma que um texto narrativo pode ser escrito em versos (forma atualmente pouco usada para esse gênero literário), um texto poético também pode ser escrito em forma de prosa, é a chamada “prosa poética”. Desse modo, o conteúdo do texto é o maior definidor do gênero.

Em suma, o gênero lírico apresenta estas características de conteúdo: plurissignificação, poder de sugestão, conotação e capacidade de provocar estranheza em quem o lê. Já a estrutura mais associada a esse gênero é a estrutura de um poema: versos metrificados (mesmo número de sílabas poéticas) ou não, com rimas ou não.

Por fim, é preciso lembrar que um texto literário pode apresentar características de diferentes gêneros. Por exemplo, uma narrativa ou um drama teatral que possui elementos líricos. Afinal, estamos falando de arte e não de um texto funcional e “quadrado” (gíria antiga para coisas rígidas e conservadoras).

Então, se você se deparar com um texto literário e for obrigada(o) a classificar seu gênero, busque as características que sobressaem nesse texto. Se o lirismo do texto estiver mais destacado do que seu potencial narrativo ou dramático, ele é do gênero lírico. Mas não se preocupe, esse tipo de dificuldade é rara. Em regra, os textos literários possuem um gênero bastante evidente e de fácil identificação.

Exemplos do gênero lírico

A seguir, leia o poema Mater originalis, do poeta brasileiro Augusto dos Anjos:

Forma vermicular desconhecida
Que estacionaste, mísera e mofina,
Como quase impalpável gelatina,
Nos estados prodrômicos da vida;

O hierofante que leu a minha sina
Ignorante é de que és, talvez, nascida
Dessa homogeneidade indefinida
Que o insigne Herbert Spencer nos ensina.

Nenhuma ignota união ou nenhum sexo
À contingência orgânica do sexo
A tua estacionária alma prendeu...

Ah! De ti foi que, autônoma e sem normas,
Oh! Mãe original das outras formas,
A minha forma lúgubre nasceu!

A pergunta que faço a você é: “Que história esse poema conta?”. Você, leitora esperta, percebeu que ele não conta história nenhuma e, portanto, não é do gênero narrativo. Já você, leitor esperto, notou que o eu lírico conversa com uma “forma vermicular”, ou seja, um verme. Achou estranho? Ah, a estranheza da poesia!

A voz poética associa essa forma à origem da espécie humana, ao dizer: “De ti foi que, autônoma e sem normas,/ [...]/  A minha forma lúgubre nasceu!”. O poema não narra uma história, mas expressa ideias acerca da origem biológica do eu lírico ou da humanidade. E ao associar a humanidade a um verme, isso pode ter múltiplos significados.

Você pode concluir que a humanidade é desprezível em vários sentidos ou apenas pensar que evoluímos bastante, apesar de nossa origem ser a forma de um verme. Isso são possibilidades de leitura que nos oferecem um texto poético. No mais, o poema não foi escrito para ser encenado, ou seja, não é uma peça de teatro e, portanto, não é do gênero dramático.

A estrutura do texto é típica do gênero lírico (a poesia utiliza mais essa estrutura atualmente do que a narrativa). O poema de Augusto dos Anjos é composto por versos regulares, pois são decassílabos (dez sílabas poéticas) e apresentam rimas. É uma típica poesia em versos.

Agora vejamos um exemplo de prosa poética, o texto Notambulismo, do poeta brasileiro Cruz e Sousa:

Enquanto, fora, na noite, gralha, grasna e grulha o Carnaval em fúria, vai, Mergulhador, rindo para o espaço a tua aguda risada acerba.

Os luminosos lírios das estrelas desabrocharam já nos faustosos brocados do Firmamento, como que para ritmar em claras árias de luz a tua torva risada triste.

Apavora-te o Sol flamejante, eterno, na altura infinita. Não queres a aflitiva evidência do sol, que tudo põe num relevo brusco, que pinta as chagas de vermelho, faz sangrar as dores, perpetuar em bronze o remorso.

Amas a sombra, que esbate os aspectos claros, esfuminha os longes, turva e quebra a linha dos corpos.

Queres a noite, longas trevas amargas que confundam máscaras hediondas de Gwimplaines com faces loiras de deusas.

Noite igualmente deliciosa e dilacerante que te anule para os sentimentos humanos, que te disperse no vácuo, dissolva imortalmente o espírito num som, num aroma, num brilho.

Noite, enfim, que seja o vasto manto sem astros que tu arrastes pelo mundo a fora, perdido no movimento supremo da Natureza, como um misterioso braço de rio que, através de fundas selvas escuras, vai, por estranhas regiões, sombriamente morrer no Mar...

A noite tem, para a tua delicada sensibilidade, o majestoso poder de apagar-te dos olhos esses sinistros animais terríveis que babujam ao sol e desfilam, diante de ti, na truculenta marcha cerrada de pesadas massas formidandas.

Enquanto, pois, lá fora, o Carnaval em fúria gralha, grasna e grulha, num repique macabro de guizos jogralescos, uivando uma língua convulsiva e exótica de duendes e notâmbulas bruxas walpurgianas, prende-te, ó deus do Tédio, Mergulhador dos Mediterrâneos da Arte! Às imensas asas da fria águia negra das multidões — a noite — e ri, ri! Sob as claras árias da luz das Estrelas, a tua venenosa risada em fel e em sangue...

A mesma pergunta vale para esse texto: “Que história ele conta?”. Apesar de ele ter traços de texto narrativo marcadamente no início, o que sobressai na obra é o que a voz poética fala sobre a noite. Além disso, os elementos plurissignificativos ou conotativos chegam a ser exaustivos, pois estão por todo o texto e provocam estranheza: “gralha, grasna e grulha o Carnaval em fúria”, “Mergulhador, rindo para o espaço a tua aguda risada acerba”, “Os luminosos lírios das estrelas desabrocharam”, “como que para ritmar em claras árias de luz a tua torva risada triste”, “faz sangrar as dores, perpetuar em bronze o remorso”, “Noite igualmente deliciosa e dilacerante” etc.

Por fim, letras de música também podem ser do gênero lírico. Veja só um trecho da belíssima letra Faltando um pedaço, do cantor e compositor Djavan:

O amor é um grande laço
Um passo pruma armadilha
Um lobo correndo em círculo
Pra alimentar a matilha

Comparo sua chegada
Com a fuga de uma ilha
Tanto engorda, quanto mata
Feito desgosto de filha
De filha

O amor é como um raio
Galopando em desafios
Abre fendas, cobre vales
Revolta as águas dos rios

[...]

Essa letra conta uma história? Não conta história nenhuma, pois o texto não é narrativo. Ele define o amor e faz comparações para que possamos entender o que é o amor. Essas comparações permitem a plurissignificação do texto, que é versificado e apresenta rimas.

Leia também: Diferença entre o texto literário e não literário

O que é o eu lírico?

O eu lírico é a voz poética, isto é, quem enuncia o texto, quem diz as coisas que estão no texto. A expressão “eu lírico” é um recurso literário que permite afastar a autora ou autor do texto. Por exemplo, uma escritora pode escrever um poema expresso por um homem. Ou o contrário, um escritor pode usar uma voz feminina para expressar a poesia.

E mesmo que o escritor crie um eu lírico masculino, não podemos afirmar que ele pense ou sinta o que está sendo expresso. Afinal, ele é um artista, sua poesia é uma criação. Além disso, separar a voz poética da voz autoral permite que analisemos a poesia sem nos prender à biografia da autora ou do autor.

Então, quando lemos uma poesia, dizemos que o eu lírico falou isto ou aquilo. Por exemplo, no poema de Mario Quintana intitulado Eu ouço música, o eu lírico (e não Quintana) diz:

Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente

um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

[...]

Exercícios sobre gênero lírico

Questão 1 (Enem)

Estrada

Esta estrada onde moro, entre duas voltas do caminho,
Interessa mais que uma avenida urbana.
Nas cidades todas as pessoas se parecem.
Todo mundo é igual. Todo mundo é toda a gente.
Aqui, não: sente-se bem que cada um traz a sua alma.
Cada criatura é única.
Até os cães.
Estes cães da roça parecem homens de negócios:
Andam sempre preocupados.
E quanta gente vem e vai!
E tudo tem aquele caráter impressivo que faz meditar:
Enterro a pé ou a carrocinha de leite puxada por um bodezinho manhoso.
Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,
Que a vida passa! que a vida passa!
E que a mocidade vai acabar.

BANDEIRA, M. O ritmo dissoluto. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

A lírica de Manuel Bandeira é pautada na apreensão de significados profundos a partir de elementos do cotidiano. No poema Estrada, o lirismo presente no contraste entre campo e cidade aponta para

A) o desejo do eu lírico de resgatar a movimentação dos centros urbanos, o que revela sua nostalgia com relação à cidade.

B) a percepção do caráter efêmero da vida, possibilitada pela observação da aparente inércia da vida rural.

C) a opção do eu lírico pelo espaço bucólico como possibilidade de meditação sobre a sua juventude.

D) a visão negativa da passagem do tempo, visto que esta gera insegurança.

E) a profunda sensação de medo gerada pela reflexão acerca da morte.

Resolução:

Alternativa B.

No final do poema, o eu lírico diz: “Nem falta o murmúrio da água, para sugerir, pela voz dos símbolos,/ Que a vida passa! que a vida passa!/ E que a mocidade vai acabar”. Isso expressa a percepção do caráter efêmero da vida, conclusão a que ele chega após observar o meio rural, aparentemente inerte se comparado à cidade, mas, na prática, possuidor de seu próprio movimento. Assim, o eu lírico valoriza o campo em detrimento da cidade, além de constatar e aceitar a passagem do tempo e o fim da mocidade como coisas naturais.

Questão 2 (Enem)

esse cão que me segue
é minha família, minha vida
ele tem frio mas não late nem pede
ele sabe que o que eu tenho
divido com ele, o que eu não tenho
também divido com ele
ele é meu irmão
ele é que é meu dono

bicho se é por destino sina ou sorte
só faltando saber se bicho decente
bicho de casa, bicho de carro, bicho
no trânsito, se bicho sem norte na fila
se bicho no mangue, se bicho na brecha
se bicho na mira, se bicho no sangue

catar papel é profissão, catar papel
revela o segredo das coisas, tem
muita coisa sendo jogada fora
muita pessoa sendo jogada fora

OLIVEIRA, V. L. O músculo amargo do mundo. São Paulo: Escrituras, 2014.

No poema, os elementos presentes do campo de percepção do eu lírico evocam um realinhamento de significados, uma vez que

A) emerge a consciência do humano como matéria de descarte.

B) reside na eventualidade do acaso a condição do indivíduo.

C) ocorre uma inversão de papéis entre o dono e seu cão.

D) se instaura um ambiente de caos no mosaico urbano.

E) se atribui aos rejeitos uma valorização imprevista.

Resolução:

Alternativa A.

O eu lírico começa a falar de um cachorro, depois sugere que gente é “bicho” e, por fim, constata que pessoas estão sendo descartadas como coisas: “muita pessoa sendo jogada fora”.

Fontes

ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.

ARISTÓTELES; HORÁCIO; LONGINO. A poética clássica. Tradução de Jaime Bruna. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.

ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. 42. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

DJAVAN. Faltando um pedaço. In: DJAVAN. Seduzir. Rio de Janeiro: EMI, 1981.

GOULART, Audemaro Taranto; SILVA, Oscar Vieira da. Introdução ao estudo da literatura. Belo Horizonte: Lê, 1994.

PÉREZ, José (org.). Cruz e Sousa: prosa. 2 ed. São Paulo: Cultura, 1945. v. 2.

QUINTANA, Mario. Apontamentos de história sobrenatural. São Paulo: Globo, 2005.

SILVA, Fabio Mario da. Eu lírico. Disponível em: https://edtl.fcsh.unl.pt/encyclopedia/eu-lirico.

Esquema ilustrativo cita as principais características do gênero lírico.
Textos poéticos pertencem ao gênero lírico. Créditos da imagem: Isa Galvão | Mundo Educação.
Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Videoaulas

Artigos Relacionados

Eu lírico
Entenda o que é o eu lírico e como ele se manifesta. Veja como identificar essa voz poética e qual é a diferença entre eu lírico e poeta.
Gênero dramático
Conheça as principais características do gênero dramático. Descubra qual é a estrutura de textos desse gênero. E saiba a diferença entre tragédia e comédia.
Gênero épico
Aprenda mais sobre o gênero épico. Conheça sua origem assim como suas principais características. Leia também os trechos dos textos épicos mais famosos do mundo.
O que é poesia?
Você sabe o que é poesia? Clique aqui para descobrir. Entenda a diferença entre poesia e poema, descubra quais são os tipos de poesia e veja exemplos.
Poesia, poema e soneto
Você sabe qual é a diferença entre poesia, poema e soneto? Clique e saiba mais sobre o gênero lírico!