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Gregório de Matos

Gregório de Matos Guerra, poeta baiano do século XIX, é considerado o primeiro poeta genuinamente brasileiro de nossa literatura. Famoso por seu tom ácido, despertou a ira dos que eram criticados em seus poemas. Muito dinâmico, o poeta não compôs só os poemas satíricos que lhe deram a fama de Boca do Inferno, mas também produziu obras religiosas e líricas.

Leia também: Barroco no Brasil – movimento literário do qual Gregório de Matos fez parte

Biografia de Gregório de Matos Guerra

O poeta Gregório de Matos nasceu na Bahia, provavelmente em 20 de dezembro de 1633, e teria falecido em janeiro de 1696, em Recife. Após ter cursado os primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas, em Salvador, mudou-se para Coimbra, em Portugal, onde cursou Direito. Após formar-se, exerceu a advogacia em Lisboa por um tempo, até que retornou à Bahia em razão do incômodo gerado por suas sátiras na sociedade portuguesa.

Apelidado de Boca do Inferno, Gregório de Matos era famoso por sua ironia à sociedade de sua época.
Apelidado de Boca do Inferno, Gregório de Matos era famoso por sua ironia à sociedade de sua época.

Em terras brasileiras, tornou-se tesoureiro-mor da Companhia de Jesus. Mesmo exercendo esse importante cargo em uma instituição religiosa, não poupou seu sarcasmo e ironia ao tecer críticas ao clero, o que lhe rendeu o degredo para Angola. Bastante adoentado na África, recebeu a permissão de retornar ao Brasil, desde que cumprisse duas condições: não voltar à Bahia e não publicar ou apresentar suas sátiras. De volta ao país, mudou-se para Recife, onde viveu até sua morte.

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Características literárias de Gregório de Matos Guerra

A obra de Gregório de Matos divide-se em três vertentes temáticas: poesia satírica, religiosa e lírica. Em relação à vertente satírica, predomina, como traço caracterizador, o teor crítico aos vícios e costumes do brasileiro, mais precisamente da sociedade baiana, à hipocrisia do clero e à incompetência do administrador português.

Quanto às vertentes lírica e religiosa, observa-se um forte teor idealista, em que o plano espiritual é superior ao terreno. Além disso, nota-se a presença de importantes características barrocas, como a manifestação da contradição entre o desejo pelo aperfeiçoamento do espírito por meio da fé e a consciência de que é preciso viver-se o cotidiano mundano da vida.

Essas três vertentes temáticas foram cultivadas em uma linguagem caracterizada pelo uso excessivo de figuras de linguagem, pelo estilo cultista, pelo estilo conceptista e pelos jogos de palavras.

Poemas de Gregório de Matos Guerra

A obra de Gregório de Matos permaneceu inédita até o início do século XX, quando, entre 1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras (ABL) organizou e publicou seis volumes com seus poemas:

I. Poesia sacra

II. Poesia lírica

III. Poesia graciosa

IV e V. Poesia satírica

VI. Últimas

  • Poema satírico

Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando e tem trocado
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhada
Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Esse soneto, produzido no século XVII, contexto em que Salvador era a capital do Brasil Colônia, expressa a crítica de Gregório de Matos à exploração colonial que recaía sobre a Bahia a serviço da lógica mercante, comandada por comerciantes e navegadores vindos de várias localidades do mundo, sempre disposta a extrair riquezas para a metrópole. Esse tom crítico ao sistema colonial foi uma marca de sua vertente satírica.

Veja também: Trovadorismo – movimento literário que também utilizou a sátira como denúncia social

  • Poema religioso

A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido;
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

Nesse soneto, como o próprio título sugere, a temática religiosa é explícita. O eu lírico, tendo o Cristo como interlocutor, expõe a consciência dos pecados que cometeu, mas sempre tendo a certeza de que, à medida que peca, é perdoado pelo poder divino. Fazendo referências ao texto bíblico, o eu lírico vê-se, portanto, como uma ovelha desgarrada pelo pecado, mas a qual é resgatada pela bondade de Deus. Nota-se, assim, a presença do paradoxo barroco, segundo o qual o homem vive em conflito entre a busca pela santidade e elevação espiritual e, ao mesmo tempo, pela vivência da matéria e dos prazeres advindos dela.  

  • Poema lírico

Adeus, vão pensamento, a Deus cuidado,
Que eu te mando de casa despedido,
Porque sendo de uns olhos bem nascido,
Foste com desapego mal tratado.

Nasceste de um acaso não pensado,
E criou-te um olhar pouco advertido:
Cresceu-te o esperar de um entendido,
E às mãos morreste de um desesperado.

Ícaro foste, que atrevidamente
Te remontaste à esfera da Luz pura,
De onde te arrojou teu voo ardente.

Fiar no sol é irracional loucura;
Porque nesse brandão dos céus luzente
Falta a razão, se sobra a formosura.

Nesse soneto, o eu lírico tem como interlocutora sua amada, retratada de forma idealizada, como atestam algumas imagens construídas no poema e como se nota na terceira estrofe, em que ela é comparada à luz originária de todas as luzes, em uma clara alusão ao mito grego de Ícaro, que teria desafiados os deuses e roubado o fogo que deu origem aos demais. Essa alusão mítica também tem o propósito de equiparar o eu lírico a Ícaro, que, após roubar o fogo, tem suas asas de cera derretidas. Tal qual esse personagem mítico, a voz poética do soneto sente-se em queda diante do amor não concretizado.

Publicado por: Leandro Guimarães
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