O alienista
O alienista é uma famosa narrativa brasileira do escritor realista Machado de Assis. A obra conta a história do doutor Simão Bacamarte, um alienista (psiquiatra), que vê loucura em tudo. Assim, ele cria, na vila de Itaguaí, o hospício chamado Casa Verde, que logo fica lotado.
Liderada pelo barbeiro Porfírio, a população faz uma rebelião para combater o tirânico médico. Após o conflito, Bacamarte continua a identificar loucos, até que conclui que ele próprio é louco e se interna na Casa Verde. Nessa obra de 1882, Machado de Assis ironiza o cientificismo (valorização excessiva do pensamento científico) predominante em sua época.
Leia também: Memórias Póstumas de Brás Cubas — outra obra realista de Machado de Assis
Resumo sobre O alienista
- O alienista é uma obra realista do escritor brasileiro Machado de Assis.
- Conta a história do doutor Simão Bacamarte, um médico formado em Portugal, que desenvolve um gosto especial pelo estudo psíquico.
- Morador da vila de Itaguaí, no Rio de Janeiro, Simão casou-se com uma viúva chamada Evarista.
- Ele fundou um hospício conhecido como Casa Verde.
- Com o poder que a ciência lhe confere, Bacamarte vê loucura em gestos antes insignificantes e começa a mandar todo mundo para o hospício.
- O barbeiro Porfírio lidera uma rebelião contra o médico, que fica conhecida como a revolta dos Canjicas, já que o apelido de Porfírio é Canjica.
- Ao subir ao poder, Porfírio decide apoiar Simão Bacamarte, mas é logo destituído pelo barbeiro João Pina.
- O vice-rei envia a força militar para acabar com o conflito e estabelecer a ordem, de forma que Simão Bacamarte volta a identificar mais e mais loucos.
- No final da obra, o alienista passa a considerar a perfeição moral como loucura e, por se achar perfeito moralmente, decide internar a si próprio na Casa Verde.
- É uma narrativa marcada pela ironia, com um teor cômico.
- Escrita no contexto da segunda metade do século XIX, a obra satiriza, zomba do comportamento das pessoas de sua época, que buscam explicar tudo por meio da ciência.
Videoaula sobre O alienista, de Machado de Assis
Análise da obra O alienista
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Personagens da obra O alienista
- Benedita: mucama de Evarista.
- Crispim Soares: boticário (farmacêutico).
- Evarista: esposa de Simão Bacamarte.
- João Pina: barbeiro.
- Lopes: padre.
- Porfírio: barbeiro.
- Sebastião Freitas: vereador.
- Simão Bacamarte: protagonista.
Outros personagens:
- Chico das Cambraias;
- Coelho;
- Costa;
- Fabrício;
- Gil Bernardes;
- José Borges;
- Martim Brito;
- Mateus;
- Prima do Costa.
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Tempo da obra O alienista
A obra apresenta tempo cronológico, já que os fatos são narrados de forma linear. Já o tempo da narrativa, ou seja, quando a história acontece, remonta, provavelmente, ao tempo de Dom João V (rei de Portugal entre 1706 e 1750), que é mencionado na obra. Mas o narrador não deixa claro quando exatamente a história ocorreu. Na obra, ele menciona essa referência duas vezes:
Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia, por especial graça do finado rei D. João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu.
Costa era um dos cidadãos mais estimados de Itaguaí. Herdara quatrocentos mil cruzados em boa moeda de el-rei D. João V, dinheiro cuja renda bastava, segundo lhe declarou o tio no testamento, para viver “até o fim do mundo”.
Já que é uma história narrada muito tempo depois dos fatos terem ocorrido, supõe-se que ela ocorreu durante o reinado de D. João V ou pouco depois.
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Espaço da obra O alienista
O espaço da narrativa, isto é, o lugar onde a história acontece é a vila de Itaguaí, no estado do Rio de Janeiro.
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Narrador da obra O alienista
A narrativa conta com um narrador onisciente. Esse tipo de narrador possui conhecimento total dos fatos narrados e do universo íntimo dos personagens. É uma espécie de deus, pois sabe de tudo (onisciência). Ele conhece os pensamentos e as intenções dos personagens da história, além de detalhes do passado de cada um deles. Não é um mero observador que tem um conhecimento limitado.
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Enredo da obra O alienista
O personagem principal da obra é o doutor Simão Bacamarte. Ele estuda em Portugal, particularmente em Coimbra e Pádua. Estudar em Portugal era costume de famílias endinheiradas no Brasil colônia ou mesmo no século XIX, após a Independência. Depois de formado, Bacamarte volta ao Brasil.
Ele tem 34 anos e mora na vila de Itaguaí, no estado do Rio de Janeiro. É um indivíduo amante da ciência, a qual ele leva muito a sério. Seis anos depois, decide se casar com uma viúva de 25 anos chamada Evarista. Tal mulher, segundo a visão do cientista, apresenta as condições biológicas necessárias.
Antes de se casar, percebeu que ela tinha as condições fisiológicas adequadas para gerar filhos fortes, saudáveis e inteligentes. Portanto, seu casamento não foi motivado por sentimentos, mas sim pela razão, a qual era supervalorizada pelo doutor Bacamarte. Contudo, Evarista não engravida.
Simão Bacamarte tem especial interesse no ramo da medicina que estuda o universo psíquico, as doenças mentais.
Mas a ciência tem o inefável dom de curar todas as mágoas; o nosso médico mergulhou inteiramente no estudo e na prática da medicina. Foi então que um dos recantos desta lhe chamou especialmente a atenção, — o recanto psíquico, o exame da patologia cerebral. Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana, e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de “louros imarcescíveis”, — expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.
Com aval da Câmara da cidade, o dedicado médico cria então um grande hospício chamado de Casa Verde. Assim, começa a era de terror em Itaguaí, sendo Bacamarte o grande carrasco. No entanto, isso, na obra, é um aspecto tragicômico. Afinal, o comportamento do médico, desde o início, é irracional. Ele começa a internar as pessoas arbitrariamente, de forma que a Casa Verde fica lotada com apenas quatro meses de existência. Assim, era preciso expandir o hospício.
Simão Bacamarte vira uma ameaça, pois seus olhos estão sempre atentos para perceber algum comportamento fora da normalidade. E o motivo “científico” das internações são descabidos. Por exemplo, um tal de Costa perde a herança em cinco anos, pois empresta dinheiro para todo mundo, sem nenhuma garantia. Só pode ser louco!
A prima do Costa tem muitas superstições. Só pode ser louca! Um tal Mateus tem prazer em olhar para a própria casa, durante longo tempo. Só pode ser louco! Certo Martim Brito é viciado em oratória (gosta de falar em público de forma pomposa e exagerada). Só pode ser louco!
E tantas outras pessoas são confinadas na Casa Verde, como Gil Bernardes, o qual, ao perceber que está sendo alvo do exame do médico, tenta fugir, mas sem sucesso. Isso demonstra o terror que se apodera de Itaguaí. Por isso, o barbeiro Porfírio decide comandar uma rebelião contra o despotismo de Bacamarte.
O movimento entra para a história da vila como a revolta dos Canjicas. Afinal, o apelido do barbeiro é Canjica. O resultado da revolta é que Porfírio invade a Câmara e toma o poder. Nessa posição política, ele faz algo inusitado: passa a apoiar o alienista Simão Bacamarte.
O povo fica descontente, de modo que o barbeiro João Pina ameaça liderar um golpe e tirar o poder de Porfírio. Por isso, Porfírio decide usar seu poder para acabar com a Casa Verde e expulsar o doutor Bacamarte da vila. Mas isso não acontece, porque João Pina dá o golpe e “destrona” o barbeiro Porfírio.
O vice-rei não está alheio ao que ocorre em Itaguaí e envia sua força militar para restabelecer a ordem na vila. De novo com o poder que a medicina lhe confere, Simão Bacamarte manda Porfírio e mais de 50 pessoas para a Casa Verde. Entre elas, está o antigo presidente da Câmara, que ocupava esse posto antes da revolta dos Canjicas.
Simão Bacamarte fica completamente incontrolável. Passa a prender todo mundo no hospício. Se alguém mente, só pode ser louco! As mínimas ações humanas podem ser consideradas loucura pelo doutor. Até sua esposa, a dona Evarista, é internada na Casa Verde.
Ela é diagnosticada, pelo alienista, como vítima de “mania suntuária”:
Alta noite, seria hora e meia, acordo e não a vejo; levanto-me, vou ao quarto de vestir, acho-a diante dos dois colares, ensaiando-os ao espelho, ora um, ora outro. Era evidente a demência; recolhi-a logo.
Em seguida, o doutor Simão Bacamarte, famoso alienista, entende por bem liberar todos os supostos loucos. Ele conclui que o comportamento deles é algo normal e passa a considerar loucura: modéstia, tolerância, verdade, simplicidade, lealdade, magnanimidade, sagacidade, sinceridade e outros indícios de perfeição moral.
O final da história não é menos cômico. Ele consegue curar a perfeição moral dos novos internos. Então percebe que apresenta características de perfeição moral, como sagacidade, paciência etc. A conclusão é lógica: Simão Bacamarte é louco. Portanto, ele resolve se internar na Casa Verde.
Veja também: Dom Casmurro — a obra mais famosa de Machado de Assis
Características da obra O alienista
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Estrutura da obra O alienista
A obra O alienista pode ser considerada uma novela (narrativa maior do que um conto e menor do que um romance). O conto é uma narrativa curta, enquanto o romance é uma narrativa longa. O alienista foi publicado, pela primeira vez, em 1882, no livro Papéis avulsos. É uma narrativa dividida em 13 capítulos.
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Estilo literário da obra O alienista
O alienista é uma narrativa realista. O realismo foi inaugurado no Brasil em 1881, com a publicação do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. O realismo machadiano é marcado pela ironia (figura de linguagem que consiste em sugerir o oposto do que foi dito ou em uma zombaria), daí o teor cômico da obra.
Como obra realista, é antirromântica, já que não apresenta idealizações. O romantismo é um estilo de época marcado pela fuga da realidade, que é idealizada, ou seja, vista como boa ou perfeita, mesmo não sendo. Já a narrativa realista de Machado de Assis mostra a realidade como ela é de fato e evidencia a corrupção e imperfeição inerentes à espécie humana.
Contexto histórico da obra O alienista
O contexto histórico da narrativa em si não é possível apontar, já que o narrador não especifica exatamente quando os fatos ocorreram. Possivelmente, na segunda metade do século XVIII. No entanto, a influência da obra está no contexto de sua produção, já que Machado de Assis pretendia, ao que tudo indica, ironizar o cientificismo da segunda metade do século XIX.
Quando a obra foi produzida, a monarquia brasileira estava chegando ao fim, pois a Proclamação da República ocorreria em 1889. Nesse contexto, o país estava endividado, em grande parte devido aos gastos com a Guerra do Paraguai, conflito que durou de 1864 e 1870. O conservadorismo estava em declínio.
A intelectualidade brasileira sofria forte influência do pensamento científico europeu, que sugeria inovação e desenvolvimento. O positivismo (corrente teórica) do filósofo francês Auguste Comte, valorizava o pensamento científico em oposição a crenças. Já a teoria da evolução do biólogo britânico Charles Darwin revolucionava o estudo de biologia.
Crítica da obra O alienista
Na segunda metade do século XIX, a valorização do pensamento científico ficou em evidência, o que influenciou escritores da época. Os escritores naturalistas usavam teorias pseudocientíficas para explicar as ações dos personagens. Algumas dessas teorias, equivocadas, inclusive, apresentam cunho racista, misógino (preconceito contra mulheres) e homofóbico.
Machado de Assis percebeu o exagero nessa supervalorização do pensamento científico e o equívoco dos escritores naturalistas. Uma evidência disso é que o escritor nunca escreveu uma obra naturalista, mesmo estando em uma época de valorização de tais obras. Portanto, O alienista critica tudo isso.
A obra satiriza, zomba do comportamento das pessoas de sua época, que buscam explicar tudo por meio da ciência. E, principalmente, zomba do naturalismo, que usa o cientificismo como elemento essencial na construção de seus personagens. Assim, Machado de Assis mostra que o excesso é perigoso, pois é irracional.
Filmes da obra O alienista
O filme Azyllo muito louco, do diretor Nelson Pereira dos Santos, é a única adaptação da obra de Machado de Assis feita para o cinema, em 1970. Mas, segundo a revista Veja, o ator Selton Mello vai dirigir e protagonizar uma nova adaptação para o cinema da obra O alienista, de Machado de Assis. Estou ansioso para ver. E você?
Saiba mais: Aluísio Azevedo — autor da primeira obra naturalista da literatura brasileira
Machado de Assis, autor de O alienista
O escritor Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no dia 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro. Ele e seus pais moravam como agregados na Quinta do Livramento, que pertencia à madrinha do autor. Era de origem pobre, negro, tinha gagueira e crises de epilepsia (em uma época que tal condição era cercada de preconceitos).
Mas também tinha uma inteligência única, de forma que se tornou o maior escritor do Brasil, conhecido em outros países, principalmente pela sua visão irônica da realidade. Introdutor do realismo no Brasil e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, Machado de Assis morreu em 29 de setembro de 1908, no Rio de Janeiro.
Créditos da imagem
[1] Editora Vitrola (reprodução)
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Machado de Assis: biografia. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis/biografia.
CARNEIRO, Raquel. Selton Mello fará adaptação de obra clássica de Machado de Assis. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/em-cartaz/selton-mello-fara-adaptacao-de-obra-classica-de-machado-de-assis/.
MACHADO DE ASSIS. Cronologia. In: MACHADO DE ASSIS. Crônicas escolhidas. Seleção, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 322-330.
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Machado de Assis: vida e obra. Disponível em: http://machado.mec.gov.br/.