Narrador onisciente

O narrador onisciente é um tipo de narrador que pode contar uma história em 3ª pessoa, sabendo absolutamente tudo o que os personagens falam, pensam e sentem.

O narrador onisciente é um narrador que sabe tudo sobre a história e seus personagens, tendo uma visão total dos acontecimentos. Esse tipo de narrador não participa da história como um personagem, portanto sua principal característica é a narrativa em 3ª pessoa. O narrador onisciente pode ser neutro — apresenta os fatos de maneira objetiva e impessoal, sem emitir julgamentos ou opiniões; ou intruso, que deixa seu posicionamento transparecer no texto. Além dele, há outros tipos de narradores, o que afeta o modo como a história é contada.

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Leia também: Foco narrativo e os tipos de narrador — entenda a relação

Resumo sobre narrador onisciente

  • O narrador onisciente é um tipo de narrador que tem total conhecimento sobre a história e seus personagens.
  • Ele sabe o que os personagens sentem, pensam e tudo o que fizeram no decorrer da história.
  • Ele não participa da história como um personagem.
  • Há dois tipos de narrador onisciente: o neutro e o intruso.
  • O narrador onisciente neutro apenas relata os fatos de maneira objetiva.
  • Diferente do narrador onisciente, o narrador observador não descreve pensamentos e sentimentos dos personagens.

O que é narrador onisciente?

O narrador onisciente é aquele que sabe tudo sobre a história. Ele tem uma visão completa dos acontecimentos, sabendo o passado, o presente e o futuro da narrativa. Além disso, ele também sabe tudo o que acontece com os personagens, como eles se sentem e o que eles pensam. Veja:

“Renato entrou na sala. Sentia-se nervoso, embora tentasse parecer calmo. Fernando, por sua vez, pensava em como contar a verdade que escondia havia anos.”

Perceba que, nesse parágrafo, o narrador descreve como Renato se sente e o que Fernando pensa. Isso o caracteriza como um narrador onisciente.

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Quais os tipos de narrador onisciente?

Há dois tipos de narrador onisciente: o neutro e o intruso.

  • Narrador onisciente neutro (ou impessoal)

Esse narrador apenas apresenta os fatos de maneira objetiva e impessoal. Em outras palavras, esse narrador narra sem emitir julgamentos ou opiniões. Ele sabe tudo sobre os acontecimentos e pensamentos dos personagens, mas não interfere e nem comenta a respeito deles.

Por exemplo, veja este trecho da obra Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto:

Havia bem dez dias que o Major Quaresma não saía de casa. Na sua meiga e sossegada casa de São Cristóvão, enchia os dias da forma mais útil e agradável às necessidades do seu espírito e do seu temperamento. De manhã, depois da toilette e do café, sentava-se no divã da sala principal e lia os jornais. Lia diversos, porque sempre esperava encontrar num ou noutro uma notícia curiosa, a sugestão de uma ideia útil à sua cara Pátria. Os seus hábitos burocráticos faziam-no almoçar cedo, e, embora estivesse de férias, para os não perder, continuava a tomar a primeira refeição de garfo às nove e meia da manhã.

Aqui, o narrador está em 3ª pessoa, mostrando uma motivação interna do personagem Major Quaresma (“sempre esperava encontrar [...] a sugestão de uma ideia útil à sua cara Pátria”). Assim, ele apenas descreve com tom informativo os eventos e o que se passa no interior do personagem, não apresentando um julgamento próprio, nem se dirigindo explicitamente ao leitor.

  • Narrador onisciente intruso 

Esse narrador narra a história, mas interrompe o relato para opinar, filosofar ou conversar com o leitor. Ele sabe tudo sobre a trama e os personagens e, ao narrar, deixa seu posicionamento transparecer no texto, por meio de comentários críticos e reflexivos que ficam explícitos ou implícitos na narrativa. Por exemplo, leia o seguinte trecho de Úrsula, de Maria Firmina dos Reis:

O homem que assim falava era um pobre rapaz, que ao muito parecia contar vinte e cinco anos, e que ria franca expressão de sua fisionomia: deixava adivinhar toda a nobreza de um coração bem formado. O sangue africano fervia-lhe nas veias; o mísero ligava-se à odiosa cadeia da escravidão; e embalde o sangue ardente que herdara de seus pais, e que o nosso clima e a servidão não puderam resfriar, embalde — dissemos — se revoltava, porque se lhe erguia como barreira o poder do forte contra o fraco.

Nesse trecho, o narrador narra em 3ª pessoa (não sendo personagem da narrativa) e conta a história de vida e a condição de um personagem, além de descrever seus sentimentos e qualidades (“nobreza de um coração bem formado”, “se revolta”). Porém, além da descrição, o narrador intervém ao apresentar um julgamento próprio, por meio de expressões avaliativas e comentários opinativos (“odiosa cadeia da escravidão”), único momento do trecho em que o narrador conjuga um verbo em 1ª pessoa pra explicitar sua opinião na narrativa (“dissemos”).

Veja também: Como escrever um enredo?

Características do narrador onisciente

Veja algumas características predominantes do narrador onisciente:

  • Narrativa em 3ª pessoa

A principal característica do narrador onisciente é a narrativa em 3ª pessoa, já que ele não participa da história. Portanto, descreve do ponto de vista externo, conjugando verbos em 3ª pessoa.

Atenção! Quando o narrador onisciente intruso faz um comentário explícito sobre o que pensa em relação àquilo que está narrando, pode haver verbos conjugados na 1ª pessoa, mas isso ocorre em pontos específicos da narrativa.

  • Visão completa da narrativa

O narrador onisciente é marcado pelo conhecimento total sobre a narrativa. Isso fica explícito quando descreve:

    • eventos passados, presentes e futuros da narrativa, que os personagens desconhecem;
    • o interior dos personagens, como pensamentos, sentimentos, intenções e memórias.
  • Autoridade narrativa

Por se tratar de um narrador que não está na narrativa como um personagem, esse tipo de narrador conta com autoridade narrativa, ou seja, tudo o que ele conta tende a ser aceito como verdadeiro na narrativa. Isso é diferente quando se trata de um narrador personagem, que pode apresentar uma interpretação equivocada ou enviesada dos fatos, fazendo com que sua narrativa não seja tão confiável.

Narrador onisciente x narrador observador

Enquanto o narrador onisciente é capaz de saber e narrar o que se passa no interior dos personagens, o narrador observador é limitado a apenas descrever os acontecimentos, sem acesso ao que os personagens pensam ou sentem. Então, ele sabe e narra apenas o que se pode ver ou ouvir na narrativa, tendo uma visão limitada dos fatos. Veja a mesma cena narrada por diferentes tipos de narrador:

  • Narrador onisciente:

“Renato entrou na sala. Sentia-se nervoso, embora tentasse parecer calmo. Fernando, por sua vez, pensava em como contar a verdade que escondia havia anos.”

  • Narrador observador:

“Renato entrou na sala. Ele parecia calmo, apesar da situação. Fernando, por sua vez, estava em silêncio e observava Renato com a boca entreaberta antes de falar algo.”

Texto com narrador onisciente

Há diversas obras com narrador onisciente. Conheça algumas a seguir.

  • O Guarani, de José de Alencar
  • Quincas Borba, de Machado de Assis
  • O cortiço, de Aluísio Azevedo
  • Úrsula, de Maria Firmino dos Reis
  • Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto

Saiba mais: Quais são os elementos principais de uma narrativa?

Exercícios resolvidos sobre narrador onisciente

Questão 1

(FGV, 2023)

Abaixo estão cinco segmentos de textos narrativos; aquele texto em que o ponto de vista adotado pelo narrador pode ser caracterizado como onisciente, é:

A) “Mas o barulho foi tão grande nesse momento, que Cláudio não pôde responder. Devemos confessar que nosso herói foi pouco herói nesse momento, apesar de o medo que o tomou não ter sido exagerado.”

B) “Eu ao menos, eu experimentava o estranho contraste entre as promessas da primavera e a sinistra pesquisa em que estava engajado.”

C) “Júlio nunca havia visto uma pessoa tão bem-vestida e sobretudo uma mulher com uma pela tão luminosa, falando com ele com um ar tão doce.”

D) “Antes ele não sorriu. Antes ele oferece um cigarro. Sua mão treme.”

E) “Ontem à tarde, eu passeava sozinho; o céu mostrava uma aparência de outono; um vento frio soprava em intervalos...”.

Resposta: Alternativa A.

No trecho, o narrador descreve não apenas as ações dos personagens, mas os sentimentos sentidos por eles (como o medo de Cláudio). Nas alternativas B e E, os narradores são personagens (1ª pessoa). Nas alternativas C e D, os narradores são observadores, limitando-se a descrever ações ou a aparência dos personagens.

Questão 2

(IBFC, 2022)

Texto I
A mulher do vizinho

Contaram-me que na rua onde mora (ou morava) um conhecido e antipático general de nosso Exército morava (ou mora), também um sueco cujos filhos passavam o dia jogando futebol com bola de meia. Ora, às vezes acontecia cair a bola no carro do general e um dia o general acabou perdendo a paciência, pediu ao delegado do bairro para dar um jeito nos filhos do sueco.

O delegado resolveu passar uma chamada no homem, e intimou-o a comparecer à delegacia.

O sueco era tímido, meio descuidado no vestir e pelo aspecto não parecia ser um importante industrial, dono de grande fábrica de papel (ou coisa parecida), que realmente ele era. Obedecendo à ordem recebida, compareceu em companhia da mulher à delegacia e ouviu calado tudo o que o delegado tinha a dizer-lhe. O delegado tinha a dizer-lhe o seguinte:

 — O senhor pensa que só porque o deixaram morar neste país pode logo ir fazendo o que quer? Nunca ouviu falar numa coisa chamada AUTORIDADES CONSTITUÍDAS? Não sabe que tem de conhecer as leis do país? Não sabe que existe uma coisa chamada EXÉRCITO BRASILEIRO que o senhor tem de respeitar? Que negócio é este? Então é ir chegando assim sem mais nem menos e fazendo o que bem entende, como se isso aqui fosse casa da sogra? Eu ensino o senhor a cumprir a lei, ali no duro: dura lex! Seus filhos são uns moleques e outra vez que eu souber que andaram incomodando o general, vai tudo em cana. Morou? Sei como tratar gringos feito o senhor.

Tudo isso com voz pausada, reclinado para trás, sob o olhar de aprovação do escrivão a um canto. O sueco pediu (com delicadeza) licença para se retirar. Foi então que a mulher do sueco interveio:

 — Era tudo que o senhor tinha a dizer a meu marido?

O delegado apenas olhou-a espantado com o atrevimento.

— Pois então fique sabendo que eu também sei tratar tipos como o senhor. Meu marido não é gringo nem meus filhos são moleques. Se por acaso incomodaram o general ele que viesse falar comigo, pois o senhor também está nos incomodando. E fique sabendo que sou brasileira, sou prima de um major do Exército, sobrinha de um coronel, E FILHA DE UM GENERAL! Morou?

Estarrecido, o delegado só teve forças para engolir em seco e balbuciar humildemente:

 — Da ativa, minha senhora?

E ante a confirmação, voltou-se para o escrivão, erguendo os braços desalentado:

— Da ativa, Motinha! Sai dessa…

Fernando Sabino

Sabe-se que um narrador relata uma situação ou acontecimento, seja ela real ou fictícia. Em síntese, o narrador é aquele que conta uma história. Considerando-se que há diferentes tipos de narradores, leia atentamente a crônica “A mulher do vizinho” e assinale a alternativa que identifica corretamente o estilo do narrador.

A) Narrador personagem.

B) Narrador testemunha

C) Narrador onisciente intruso.

D) Narrador presente e ativo.

E) Narrador onisciente neutro.

Resposta: Alternativa E.

A narração é em 3ª pessoa, e o narrador descreve traços psicológicos e sensações dos personagens. Porém, ele não apresenta seu julgamento a respeito do que se passa. Portanto, trata-se de um narrador onisciente neutro.

Fontes

CARVALHO, Reginaldo Pinto de. Foco narrativo: as máscaras do autor. São Paulo: Selinunte, 1994.

MINCHILLO, Carlos Alberto C.; CABRAL, Isabel Cristina M. A narração: teoria e prática. São Paulo: Atual, 1989.

Conceito de narrador onisciente.
O narrador onisciente pode ser neutro (impessoal) ou intruso (emite opiniões).
Escritor do artigo
Escrito por: Guilherme Viana Bacharel e licenciado em Letras e em Educomunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Trabalha com produção de conteúdo didático nas áreas de língua portuguesa, literatura e redação.

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