Elipse (figura de linguagem)
Elipse é uma figura de sintaxe. Ela consiste na omissão de uma palavra, expressão ou oração na frase, como, por exemplo: “No quarto, apenas poeira e teias de aranha”. Nesse caso, está implícita a palavra “havia”: “No quarto, [havia] apenas poeira e teias de aranha”. A elipse é usada para tornar a expressão mais sucinta.
Outra figura de sintaxe é a zeugma. Essa figura de linguagem é um tipo específico de elipse, caracterizada pela omissão de um elemento já mencionado anteriormente na frase: “Meu trabalho era difícil; o dele, fácil”. Nessa frase, há omissão das palavras “trabalho” e “era”, mencionadas anteriormente no enunciado: “Meu trabalho era difícil; o [trabalho] dele [era] fácil”.
Leia também: Assíndeto — outra figura de sintaxe marcada pela omissão de termos na frase
Resumo sobre elipse
- A elipse é uma figura de sintaxe caracterizada pela omissão de um termo, oração ou expressão: “Agarrou-me, [com] mãos trêmulas, e sussurrou algo”.
- A zeugma é um tipo de elipse caracterizada pela omissão de um termo, oração ou expressão já mencionada na frase: “Alguns querem pão; outros, [querem] bolo”.
- A elipse é uma figura de linguagem que serve para omitir parte de um enunciado de forma a tornar a expressão mais sucinta e elegante.
O que é elipse?
A elipse é uma figura de sintaxe ou construção. Esse tipo de figura está relacionada à estrutura da frase, ou seja, uma estrutura não regular, que se afasta da estrutura gramatical comum. Consiste na omissão de um termo, oração ou expressão na frase. Como toda figura de linguagem, é usada para tornar o enunciado mais expressivo.
A omissão que configura a elipse é de fácil detecção. Quero dizer, com isso, que você, por meio do contexto, percebe ou identifica aquilo que foi omitido ou ocultado. Em vez de dar todos os detalhes, quem enuncia a frase opta por ser mais conciso e, portanto, evita excessos ou repetições, como você pode ver nos exemplos abaixo:
Os pais eram cuidadosos; e os filhos eram atenciosos.
Os pais eram cuidadosos; e os filhos, atenciosos.(eram)
As maçãs custaram dez reais; as peras custaram um pouco mais.
As maçãs custaram dez reais; as peras, um pouco mais.(custaram)
Você deve ter notado que a vírgula tem um papel importante na construção de uma elipse. Pois uma das funções da vírgula é justamente indicar a omissão que caracteriza a elipse. Assim, esse sinal de pontuação é colocado no lugar da palavra ou expressão omitida, como mostra o exemplo:
As aulas começaram em fevereiro; as férias começaram em julho.
As aulas começaram em fevereiro; as férias, em julho. (começaram)
Nas frases acima, as omissões impedem que haja repetições. Agora observe este outro exemplo:
Quando pequeno, o escritor gostava de ir à praia.
Nesse caso, não há repetição. Mas quem produziu a frase, optou pela concisão, o que a torna mais agradável ou harmoniosa. Sem a elipse, a frase seria: “Quando era pequeno, o escritor gostava de ir à praia”.
Retomarei os exemplos acima no próximo tópico. Por enquanto, veremos outros exemplos de elipse. Veja como ficam as frases abaixo sem as elipses e com as elipses:
Acredito que tenha feito a escolha certa.
Acredito tenha feito a escolha certa.
Poderia levar meus filhos ao cinema, se fossem eles mais comportados.
Poderia levar meus filhos ao cinema, fossem eles mais comportados.
Saíram da sala, com os olhos lacrimejantes, com as mãos no peito.
Saíram da sala, os olhos lacrimejantes, as mãos no peito.
Ela quis saber quem havia faltado na última aula. Os alunos disseram que não lembravam quem havia faltado na última aula.
Ela quis saber quem havia faltado na última aula. Os alunos disseram que não lembravam.
Bom amigo era o Juvenal, estava sempre prestativo.
Bom amigo o Juvenal, sempre prestativo.
Aceitei as condições impostas, e meus vizinhos também aceitaram as condições impostas.
Aceitei as condições impostas, e meus vizinhos também.
Veja também: Pleonasmo — figura de sintaxe que explora a repetição intencional de um termo ou uma ideia
Quais as diferenças entre elipse e zeugma?
A elipse, como mostrei no tópico anterior, é uma figura de sintaxe que consiste na omissão de termo, oração ou expressão em uma frase. Pois a zeugma é um tipo específico de elipse. Ela consiste na omissão de um termo já expresso anteriormente na frase. No tópico anterior, a zeugma ocorre em alguns exemplos:
Os pais eram cuidadosos; e os filhos eram atenciosos.
Os pais eram cuidadosos; e os filhos, atenciosos.
(omissão do termo que se repete: eram)
Aceitei as condições impostas, e meus vizinhos também aceitaram as condições impostas.
Aceitei as condições impostas, e meus vizinhos também.
(omissão do termo que se repete: aceitaram as condições impostas)
Veja que os termos omitidos já tinham sido mencionados anteriormente:
As maçãs custaram dez reais; as peras custaram um pouco mais.
As maçãs custaram dez reais; as peras, um pouco mais.
(omissão do termo que se repete: custaram)
Em resumo, toda zeugma é uma elipse. Mas nem toda elipse é uma zeugma. Por exemplo:
Poderia levar meus filhos ao cinema, se fossem eles mais comportados.
Poderia levar meus filhos ao cinema, [se] fossem eles mais comportados.
A frase não apresenta zeugma, pois o “se” omitido não foi mencionado antes. Nesse caso, ocorre apenas a elipse comum.
Qual a função da elipse?
A função da elipse é tornar a frase mais concisa, sem excessos ou repetições. Você já ouviu aquela expressão que diz que “menos é mais”? Em nossa cultura, o excessivo é visto como algo de mau gosto, deselegante e, portanto, desagradável e desnecessário. Pois essa ideia também está associada ao uso da linguagem.
A elipse, assim, é uma forma de tornar o texto mais “enxuto” e interessante. Isso porque a informação subentendida está presente, mas não explícita. E quem enuncia a frase conta com nossa capacidade de identificar o que está subentendido. Afinal, é desnecessário explicitar todos os elementos da frase.
Como a elipse é uma figura de linguagem, ela está associada ao estilo individual de quem enuncia a frase. Se você constrói frases com elipse de modo eficiente, isso significa que você tem um bom domínio da língua, sendo capaz de se expressar sem excessos ou repetições desnecessárias.
Exemplos de elipse
- Eu gosto de cinema; ela, de teatro.
[ela gosta de teatro]
- Havia poucas pessoas no cinema; no teatro, muitas.
[no teatro havia muitas pessoas]
- Omar é belo; seus amigos, invejosos.
[seus amigos são invejosos]
- Alguns querem pão; outros, bolo.
[outros querem bolo]
- Havia duas cadeiras; uma de madeira e outra de plástico.
[uma cadeira de madeira e outra cadeira de plástico]
- Gosto do caderno azul, não do amarelo.
[não gosto do caderno amarelo]
- As crianças, os cabelos assanhados, pulavam sem parar.
[com os cabelos assanhados]
- Segunda-feira, voltamos ao trabalho.
[Na segunda-feira]
- Aquilo não era útil para a educação e a cultura.
[e para a cultura]
- Preciso que compre um galão de água mineral.
[Preciso de que compre]
- Espero sejam sensatos.
[Espero que sejam]
- Na livraria, poucos livros.
[havia poucos livros]
- Amava ler! E eu também.
[Eu também amava ler]
- Fiz o que combinamos, mas você não.
[mas você não fez o que combinamos]
- Eu prefiro pizza de queijo; meu irmão, de chocolate.
[meu irmão prefere pizza de chocolate]
- Alonso queria me ajudar, mas não conseguiu.
[não conseguiu me ajudar]
- No palco, silêncio completo!
[havia silêncio completo]
- “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.”
[do que dois pássaros voando]
- “Um dia da caça, outro do caçador.”
[Um dia é da caça, outro dia é do caçador]
- “Longe dos olhos, longe do coração.”
[O que está longe dos olhos, está longe do coração]
Saiba mais: Quais são as figuras de palavra?
Exercícios resolvidos sobre elipse
Questão 1 (Facape)
Texto I
Em defesa dos adjetivos
Muitas vezes nos mandam cortar nossos adjetivos. O bom estilo, conforme dizem, sobrevive perfeitamente sem eles; bastariam o resistente arco dos substantivos e a flecha
dinâmica e onipresente dos verbos. Contudo, um mundo sem adjetivos é triste como um hospital no domingo. A luz azul se infiltra pelas janelas frias, as lâmpadas fluorescentes emitem um murmúrio débil.
Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários. Pois o adjetivo é o imprescindível avalista da individualidade de pessoas e coisas. Vejo uma pilha de melões na bancada de uma quitanda. Para um adversário dos adjetivos, não há dificuldade: “Melões estão empilhados na bancada da quitanda”. Todavia um dos melões é pálido como a tez de Talleyrand quando discursou no Congresso de Viena; outro é verde, imaturo, cheio de arrogância juvenil; outro ainda tem faces encovadas e está perdido num silêncio profundo e fúnebre, como se não suportasse a saudade dos campos da Provença. Não há dois melões iguais. Uns são ovais, outros são bojudos. Duros ou macios. Têm cheiro do campo, do pôr do sol, ou estão secos, resignados, exauridos pela viagem, pela chuva, pelo contato das mãos de estranhos, pelos céus cinzentos de um subúrbio parisiense.
[...]
ZAGAJEWSKI, Adam. Piauí, n. 52, p. 47, jan. 2011.
Texto II
Irene no céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene entrando no céu:
— Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
— Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
[...]
Manuel Bandeira.
Existe elipse em:
A) “Substantivos e verbos bastam apenas a soldados e líderes de países totalitários” (Texto I).
B) “Substantivos e verbos bastam” (Texto I).
C) “Líderes de países totalitários” (Texto I).
D) “Entra, Irene. Você não precisa pedir licença” (Texto II).
E) “Não há dois melões iguais. Uns são ovais, outros são bojudos. Duros ou macios” (Texto I).
Resolução: Alternativa E.
Há elipse do termo “melões”: “Não há dois melões iguais. Uns [melões] são ovais, outros [melões] são bojudos. Duros ou macios”.
Questão 2 (Unesp)
Fragmento de Glória moribunda, do poeta romântico brasileiro Álvares de Azevedo (1831-1852):
É uma visão medonha uma caveira?
Não tremas de pavor, ergue-a do lodo.
Foi a cabeça ardente de um poeta,
Outrora à sombra dos cabelos loiros.
Quando o reflexo do viver fogoso
Ali dentro animava o pensamento,
Esta fronte era bela. Aqui nas faces
Formosa palidez cobria o rosto;
Nessas órbitas — ocas, denegridas! —
Como era puro seu olhar sombrio!
Agora tudo é cinza. Resta apenas
A caveira que a alma em si guardava,
Como a concha no mar encerra a pérola,
Como a caçoula a mirra incandescente.
[...]
Poesias completas, 1962.
Como a concha no mar encerra a pérola,
Como a caçoula a mirra incandescente.
Nos versos em destaque, após a palavra caçoula (que é um recipiente) está subentendida, por elipse, a forma verbal
A) teme.
B) seca.
C) brilha.
D) queima.
E) encerra.
Resolução: Alternativa E.
Em “Como a concha no mar encerra a pérola,/ Como a caçoula [encerra] a mirra incandescente”, ocorre omissão da palavra “encerra”. Assim, o verso afirma que a caçoula (um recipiente) encerra (contém) a mirra.
Fontes
BECHARA, Evanildo. Moderna gramática portuguesa. 40. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2024.
CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.
SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.