Hipérbato

Hipérbato é a figura de construção ou de sintaxe caracterizada pela inversão dos termos da oração ou da frase. Possui finalidade estética ou de promoção de determinados sentidos no discurso. A anástrofe e a sínquise também participam do processo de alteração da ordem dos elementos do período, configurando tipos de hipérbato, conforme afirmam alguns estudiosos.

Na anástrofe, a inversão é mais branda; na sínquise, a inversão é tão intensa que o sentido da frase torna-se obscuro. Já na perspectiva de quebra ou desvio de construção, temos o anacoluto, que consiste em abandonar um termo solto na frase.

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O que é hipérbato?

Trata-se de uma inversão da ordem direta dos termos da oração. Na língua portuguesa, a ordem tradicional das orações é sujeito + complementos + adjuntos adverbiais.

É a vaidade, Fábio, nesta vida, Rosa…” (Gregório de Matos)
(Na ordem direta seria: “Fabio, nesta vida, a vaidade é rosa…”)

Tão fatigada vinhas e tão cansada” (Olavo Bilac)
(Na ordem direta seria: “Vinhas tão fatigada e tão cansada”)

 O hipérbato é uma figura de sintaxe que modifica a disposição dos termos em um enunciado.
O hipérbato é uma figura de sintaxe que modifica a disposição dos termos em um enunciado.

Anástrofe

Trata-se de uma inversão mais radical e consiste na anteposição do determinante (formado por preposição + substantivo) e o determinado, que vem após o determinante. Ocorre também na inversão de palavras correlativas dentro de um mesmo sintagma. A anástrofe é utilizada para realçar uma ideia ou para evidenciar um elemento surpresa na frase.

Exemplo de inversão quanto à preposição + substantivo:

Da pátria formosa distante e saudoso”. (Casimiro de Abreu)

Na ordem direta seria: “Distante e saudoso da pátria formosa”. Veja que “da pátria” é o determinante de “formosa”, o termo determinado.

Exemplo de inversão dentro do mesmo sintagma:

Tão leve estou, que nem sombra tenho.” (Mário Quintana)

Perceba que o verbo estar apresenta-se conjugado em primeira pessoa e é posposto pelo predicativo do sujeitotão leve”, ou seja, trata-se de inversão de palavras relacionadas sintaticamente dentro de um mesmo sintagma.

Sendo assim, na ordem direta seria: “Estou tão leve, que nem sombra tenho”, cumprindo-se a estrutura: sujeito (verbo desinencial) + predicativo do sujeito.

Leia também: Paradoxo – figura de linguagem que expressa uma ideia contraditória

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Sínquise

Trata-se de um tipo extremo de inversão em que a compreensão da frase fica consideravelmente minimizada. Algumas inversões são tão extremas que chegam a causar ambiguidade e incompreensão.

Quanto à sínquise, a inversão pode prejudicar o sentido da frase.
Quanto à sínquise, a inversão pode prejudicar o sentido da frase.

Exemplo 1:

Tu de amante o teu fim hás encontrado. (Gregório de Matos)

Na ordem direta seria: “Tu hás encontrado o teu fim de amante.”.

Exemplo 2:

“Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heroico o brado retumbante”

Na ordem direta seria: As margens plácidas do Ipiranga ouviram o brado retumbante de um povo heroico.

Perceba que essa construção pode favorecer diversas compreensões, entre elas, a de que o verbo ouvir remete a um sujeito oculto (ouviram), quando, na verdade, construindo o período na forma direta, percebemos que “as margens plácidas do Ipiranga” é o sujeito do verbo ouviram, conforme segue o exemplo abaixo. Dessa forma, é notável a aparente ambiguidade em construções que ocorrem inversão por sínquise.

Hipérbato e anacoluto

Já ficou claro que hipérbato é uma figura de sintaxe caracterizada pela inversão da ordem normal dos membros da oração. Definição distinta de anacoluto, que é a quebra da estrutura lógico-sintática para inserir uma palavra, expressão ou ideia sem relação sintática na frase.

Exemplo 1:

No berço, pendente dos ramos floridos,
Em que eu pequenino feliz dormitava:
Quem é que esse berço com todo o cuidado
Cantando cantigas alegre embalava?

(Casimiro de Abreu)

Note que a oração iniciada por no berço não teve continuidade normal no 3º verso (Quem é esse berço com todo cuidado), consequentemente, a expressão ficou solta no período.

Exemplo 2:

Fomos ver o rio. E pouco andamos, porque já estava entrando pelas estrebarias. O marizeiro que ficava embaixo, a correnteza corria por cima dele. Era um mar d’agua roncando.

REGO, José Lins do. Menino do engenho. 22.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.p.27.

Perceba que o início do terceiro período, em “O marizeiro que ficava embaixo”, dá a sensação de uma frase quebrada, pois na sequência as estruturas sintáticas da oração voltam-se para outro sujeito: “a correnteza”.

Leia também: Pleonasmo – recurso linguístico que traz uma repetição de ideia ou de palavras

Exercícios resolvidos

QUESTÃO 1 - (Espcex (Aman) 2015) Assinale a alternativa que apresenta a figura de linguagem anacoluto.

a) Eu não me importa a desonra do mundo.

b) Passarinho, desisti de ter.

c) O que não tenho e desejo é que melhor me enriquece.

d) De todas, porém, a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se digo.

e) E espero tenha sido a última.

Resposta: letra A.

Anacoluto é um rompimento da organização de uma frase, de modo que um ou mais termos fiquem sem função sintática. É o que informalmente poderíamos chamar de “frase quebrada”. Isso acontece em “Eu não me importa a desonra do mundo”. O pronome pessoal “eu” não tem função sintática no período, já que ele não é sujeito da oração (o verbo não concorda com ele), nem possui outra classificação.

QUESTÃO 2 - (Esc. Naval 2017) Leia o texto abaixo e responda à(s) questão(ões) a seguir.

O dono do livro

Li outro dia um fato real narrado pelo escritor moçambicano Mia Couto. Ele disse que certa vez chegou em casa no fim do dia, já havia anoitecido, quando um garoto humilde de 16 anos o esperava sentado no muro. O garoto estava com um dos braços para trás, o que perturbou o escritor, que imaginou que pudesse ser assaltado.

Mas logo o menino mostrou o que tinha em mãos: um livro do próprio Mia Couto. Esse livro é seu? perguntou o menino. Sim, respondeu o escritor. Vim devolver. O garoto explicou que horas antes estava na rua quando viu uma moça com aquele livro nas mãos, cuja capa trazia a foto do autor.

O garoto reconheceu Mia Couto pelas fotos que já havia visto em jornais. Então perguntou para a moça: Esse livro é do Mia Couto? Ela respondeu: É. E o garoto mais que ligeiro tirou o livro das mãos dela e correu para a casa do escritor para fazer a boa ação de devolver a obra ao verdadeiro dono.

Uma história assim pode acontecer em qualquer país habitado por pessoas que ainda não estejam familiarizadas com os livros – aqui no Brasil, inclusive. De quem é o livro? A resposta não é a mesma de quando se pergunta: “Quem escreveu o livro?”.

O autor é quem escreve, mas o livro é quem lê, e isso de uma forma muito mais abrangente do que o conceito de propriedade privada – comprei, é meu. O livro é de quem lê mesmo quando foi retirado de uma biblioteca, mesmo que seja emprestado, mesmo que tenha sido encontrado num banco de praça.

O livro é de quem tem acesso às suas páginas e através delas consegue imaginar os personagens, os cenários, a voz e o jeito com que se movimentam. São do leitor as sensações provocadas, a tristeza, a euforia, o medo, o espanto, tudo que é transmitido pelo autor, mas que reflete em quem lê de uma forma muito pessoal. É do leitor o prazer. É do leitor a identificação. É do leitor o aprendizado. É o leitor o livro.

Dias atrás gravei um comercial de rádio em prol do Instituto Estadual do Livro em que falo aos leitores exatamente isso: os meus livros são os seus livros. E são, de fato. Não existe livro sem leitor. Não existe. É um objeto fantasma que não serve para nada.

Aquele garoto de Moçambique não vê assim. Para ele, o livro é de quem traz o nome estampado na capa, como se isso sinalizasse o direito de posse. Não tem ideia de como se dá o processo todo, possivelmente nunca entrou numa livraria, nem sabe o que é tiragem.

Mas, em seu desengano, teve a gentileza de tentar colocar as coisas em seu devido lugar, mesmo que para isso tenha roubado o livro de uma garota sem perceber.

Ela era a dona do livro. E deve ter ficado estupefata. Um fã do Mia Couto afanou seu exemplar. Não levou o celular, a carteira, só quis o livro. Um danado de uma amante da literatura, deve ter pensado ela. Assim são as histórias escritas também pela vida, interpretadas a seu modo por cada dono.

Martha Medeiros. Jornal ZERO HORA – 06/11/11. Revista O Globo, 25 de novembro de 2012.

No trecho “É do leitor o prazer.” (6º parágrafo), a autora usa uma figura de linguagem. Assinale a opção que a identifica corretamente essa figura.

a) Metáfora.

b) Elipse.

c) Metonímia.

d) Hipérbato.

e) Anacoluto.

Resposta: letra D. No trecho, vemos uma inversão da ordem natural das palavras. Ao invés de escrever “O prazer é do leitor”, a autora optou por utilizar um hipérbato e escrever “é do leitor o prazer”.

Publicado por: Marcelo Sartel