Silepse

   Silepse é uma figura de linguagem, também chamada de figura de sintaxe ou de construção. Ela consiste em uma concordância ideológica em vez de gramatical. Assim, a concordância não ocorre com os termos da oração, mas com a ideia que eles expressam. A silepse pode ser de gênero, de número ou de pessoa.

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Por exemplo, em “A gente é ansioso.”, há duas palavras de gêneros opostos, mas há concordância com a ideia de que essa gente é formada por pessoas do gênero masculino. Já em “O grupo, como sempre, ansiosos.”, é destaque o fato de que “o grupo” faz referência a mais de uma pessoa. Por fim, em “Os finlandeses somos alegres.”, o “nós” implícito antes do verbo indica que a pessoa que enuncia a frase é finlandesa.

Leia também: Pleonasmo — figura de linguagem que consiste em usar uma expressão redundante para reforçar uma ideia

Resumo sobre silepse

  • A silepse é uma figura de sintaxe ou de construção que também é chamada de concordância ideológica.

  • A concordância ideológica não é feita com os termos estruturais da oração, mas, sim, com a ideia que eles transmitem.

  • Existem os seguintes tipos de silepse:

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    • de gênero: “A gente é esperto.”;

    • de número: “O pessoal, como sempre, atrasados.”;

    • de pessoa: “Os críticos somos odiados.”.

Imagem explicando o que é silepse, indicando seus tipos e mostrando exemplos.
A silepse é uma figura de linguagem. (Créditos: Isa Galvão | Mundo Educação)

O que é silepse?

Silepse é uma figura de linguagem, pois apresenta sentido figurado (extrapola o sentido literal ou original). Ela pertence a uma subclasse de figuras de linguagem chamada de figura de sintaxe ou de construção, pois está associada à estrutura do enunciado, no que diz respeito à concordância. Por isso, a silepse é chamada de concordância ideológica.

Nesse caso, o que ocorre é a concordância com a ideia expressa e não com os elementos da frase. Para isso ficar claro, vou colocar os dois tipos de concordância no quadro abaixo.

CONCORDÂNCIA GRAMATICAL

CONCORDÂNCIA IDEOLÓGICA

A alcateia avançou. Ela uivava assustadoramente.

A alcateia avançou. Eles uivavam assustadoramente.

Não viu a criança. Ela estava escondida sob a escada.

Não viu a criança. Ele estava escondido sob a escada.

Os humanos são inconsistentes.

Os humanos somos inconsistentes.

Veja que “alcateia” é substantivo feminino e está no singular. Quando se diz que “eles uivavam”, “eles” faz referência aos lobos que compõem a alcateia. Dessa forma, há uma concordância com a ideia de que uma alcateia possui mais de um lobo. Esse tipo de concordância ou de figura de linguagem é chamada de silepse.

Na segunda frase, “criança” é substantivo feminino. Quando se diz que “ele estava escondido”, “ele” e “escondido” fazem referência ao gênero da criança, ou seja, é um menino ou uma criança que se identifica com o gênero masculino. Assim, ocorre uma concordância com a ideia de que a criança escondida sob a escada é do gênero masculino.

Por fim, na terceira frase, “os humanos” é um sujeito que pode ser substituído pelo pronome pessoal “eles”. Quando se diz que “somos inconsistentes”, o verbo concorda com “nós”, primeira pessoa do plural, e não com “eles”, terceira pessoa do plural. Portanto, ocorre uma concordância com a ideia de que quem enuncia a frase se inclui entre os humanos inconsistentes, por isso a concordância com “nós”.

Silepse de gênero

A silepse de gênero é a concordância não com o gênero (masculino ou feminino) da palavra expressa, mas com o gênero do indivíduo ao qual tal palavra se refere.

Vou retomar o exemplo que mostrei no tópico anterior:

Não viu a criança. Ele estava escondido sob a escada.

Como expliquei acima, o pronome “ele” e o adjetivo “escondido” apresentam gênero diferente do gênero do substantivo “criança”, ao qual se referem. A palavra “criança” é do gênero feminino. Portanto, ao usar “ele” e “escondido”, quem enuncia a frase está indicando que a criança (um indivíduo, que pode ser menina ou menino) é do gênero masculino.

Gramaticalmente, a estrutura do texto está incorreta. No entanto, estilisticamente, está correta, pois figuras de linguagem, como a silepse, buscam o grau máximo de expressividade.

Veja mais exemplos:

Essa testemunha foi extremamente prolixo em seu depoimento.

A vítima deu seu depoimento e foi liberado.

Assim, está subentendido que a testemunha e a vítima são do gênero masculino e, portanto, a concordância está relacionada a essa ideia e não ao gênero do substantivo. Afinal, os substantivos “testemunha” e “vítima” são do gênero feminino, de forma que a concordância gramatical seria:

Essa testemunha foi extremamente prolixa em seu depoimento.

A vítima deu seu depoimento e foi liberada.

Silepse de número

A silepse de número é a concordância não com o número (singular ou plural) do termo expresso, mas com o número de seres ao qual tal termo se refere.

Vou retomar mais um exemplo:

A alcateia avançou. Eles uivavam assustadoramente.

Como já expliquei, o pronome “eles” e o verbo “uivavam” apresentam número diferente do número do substantivo “alcateia”, ao qual se referem. Afinal, estão no plural, enquanto o substantivo está no singular. Portanto, ao usar “eles” e “uivavam”, quem enuncia a frase está indicando que a alcateia é formada por um conjunto de lobos, e, se há mais de um lobo, o uso de número plural parece pertinente.

Gramaticalmente, a estrutura do texto está incorreta. No entanto, estilisticamente, está adequada.

Veja mais exemplos:

O grupo dedicou-se bastante, por isso eu os recompensei com um dia no parque de diversões.

O público estava furioso. Eu os vi invadir o palco.

Nas frases, está subentendido que o grupo e o público são compostos por mais de uma pessoa e, assim, a concordância está relacionada a essa ideia e não ao número do substantivo. Afinal, os substantivos “grupo” e “público” estão no singular, de modo que a concordância gramatical seria:

O grupo dedicou-se bastante, por isso eu o recompensei com um dia no parque de diversões.

O público estava furioso. Eu o vi invadir o palco.

Silepse de pessoa

A silepse de pessoa é a concordância não com o pronome pessoal (eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles, elas) adequado para substituir o sujeito, mas com o pronome pessoal que consegue indicar também o enunciador da frase.

Vou retomar outro exemplo:

Os humanos somos inconsistentes.

Como já expliquei, o sujeito “os humanos” pode ser substituído pela terceira pessoa do plural “eles”. Tal pessoa é diferente da relacionada ao verbo “somos” (primeira pessoa do plural). Portanto, o verbo tem como sujeito “nós” e não “eles” (os humanos). Ao usar “nós” em vez de “eles”, quem enuncia a frase está indicando que também é humano. A união dessa pessoa (“eu”) com os humanos (“eles”), leva ao uso de “nós” somos e não “eles” são.

Gramaticalmente, a estrutura do texto está incorreta. No entanto, estilisticamente, está aceitável.

Veja mais exemplos:

As brasileiras somos curiosas.

O povo queremos algo que não sabemos o que é.

Então, está subentendido que o indivíduo que enuncia as frases se inclui entre as brasileiras e o povo. Esse indivíduo é uma das brasileiras curiosas e um integrante do povo. Portanto, a concordância está relacionada a essa ideia e não à pessoa do sujeito. Afinal, os sujeitos “as brasileiras” e “o povo” estão, respectivamente, na terceira pessoa do plural e na terceira pessoa do singular, de maneira que a concordância gramatical seria:

As brasileiras são curiosas.

O povo quer algo que não sabe o que é.

Exemplos de silepse

Exemplos de silepse de gênero

Vossa Alteza é tão atencioso!

Você viu como está agitado aquela pessoa ali?

Veja aquela criatura, ficou horrorizado com o nosso comportamento.

A gente ficou muito chocado com o que aconteceu.

Salvador está lotada.

Exemplos de silepse de número

Havia uma multidão nas ruas. Protestavam contra a lei recém-aprovada.

Minha equipe estava empenhada no trabalho, pois buscavam bons resultados.

Chorei diante da plateia, pois vaiavam o espetáculo logo na estreia.

Havia gente em todo lugar, e gritavam sem parar.

O casal caminhava de mãos dadas. Mas quando viram uma pessoa conhecida, soltaram-se as mãos.

Exemplos de silepse de pessoa

Todas as escritoras somos sutis.

Os que vivenciamos esta realidade, sabemos o quanto é difícil sobreviver.

Os filhos dizíamos que não aceitaríamos seu segundo casamento.

Estamos aqui, as suas irmãs, para o apoiar.

Os líderes também somos frágeis.

Confira também: Hipérbato — figura de linguagem caracterizada pela inversão dos termos da oração ou da frase

Como é feita a concordância gramatical?

De forma geral, temos a concordância verbal e a concordância nominal. Na concordância verbal, o verbo concorda com o sujeito. Na concordância nominal, o substantivo concorda com os termos que o acompanham.

Veja estas orações (frases com verbo):

O edifício é alto.

Os edifícios são altos.

Note que o verbo “ser” concorda gramaticalmente com o sujeito. O sujeito “o edifício” está no singular e equivale a “ele” (terceira pessoa do singular). Assim, o verbo “é” está na terceira pessoa do singular. Já o sujeito “os edifícios” está no plural e equivale a “eles” (terceira pessoa do plural). Assim, o verbo “são” está na terceira pessoa do plural.

Então, o verbo concorda em número (singular ou plural) e em pessoa (“ele” ou “eles”) com o sujeito.

Agora veja estas frases:

O edifício alto.

Os edifícios altos.

No primeiro exemplo, “edifício” é um substantivo. Ele está no masculino e no singular (é apenas um edifício). O artigo “o” também é masculino e está no singular. Já “alto” é um adjetivo, pois qualifica o substantivo “edifício”. Esse adjetivo também está no masculino e no singular. Portanto, o substantivo concorda em gênero (masculino ou feminino) e em número com o artigo e com o adjetivo.

No segundo exemplo, “edifícios” é um substantivo que está no masculino e no plural (mais de um edifício). O artigo “os” (especifica o substantivo) também é masculino e está no plural. Já o adjetivo “altos” também está no masculino e no plural. Assim, o substantivo concorda em gênero e em número com artigo e adjetivo.

Exercícios resolvidos sobre silepse

Questão 1

Analise estas frases:

I- Essa criança é um diabinho.

II- O pessoal chegou na hora.

III- Dormia serena a minha mãe.

Apresenta(m) silepse a(s) frase(s):

A) I apenas.

B) II apenas.

C) III apenas.

D) I e III apenas.

E) I, II e III.

Resolução:

Alternativa A.

Em “Essa criança é um diabinho.”, “criança” é um substantivo feminino, mas o adjetivo “diabinho” está no masculino. Assim, há concordância com a ideia de que a criança é do gênero masculino.

Questão 2

Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:

( ) Em “Vossa Majestade era arrogante e muito prepotente.”, há silepse de gênero.

( ) Em “Havia um pessoal estranho, dançavam fora do ritmo.”, há silepse de número.

( ) Em “A família estamos consternados com a tragédia.”, há silepse de pessoa.

A sequência correta é:

A) V, V, F.

B) V, V, V.

C) V, F, F.

D) F, F, V.

E) F, V, V.

Resolução:

Alternativa E.

Em “Vossa Majestade era arrogante e muito prepotente.”, não há silepse. Afinal, os adjetivos “arrogante” e “prepotente” não apresentam marca de gênero. Em “Havia um pessoal estranho, dançavam fora do ritmo.”, há silepse de número, pois “dançavam” concorda com “eles”, já que concorda com a ideia de que “um pessoal” é algo formado por mais de um indivíduo. Por fim, em “A família estamos consternados com a tragédia.”, há silepse de pessoa, já que “estamos” concorda com “nós” (primeira pessoa do plural), de forma a indicar que quem enuncia a frase faz parte dessa família.

Fontes

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

NICOLA, José de; INFANTE, Ulisses. Gramática contemporânea da língua portuguesa. 15. ed. São Paulo: Scipione, 1999. 

SACCONI, Luiz Antonio. Nossa gramática: teoria e prática. 26. ed. São Paulo: Atual Editora, 2001.   

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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