Malcolm X
Malcolm X foi um dos mais importantes ativistas pelos direitos civis dos afro-americanos nos Estados Unidos, reconhecido por sua autodeterminação e orgulho negro. Vindo de uma família constantemente molestada pelo racismo, Malcolm viveu uma juventude conturbada e violenta, até se envolver com o submundo do crime e ser preso.
Enquanto encarcerado, aproximou-se da Nação do Islã (NOI), organização muçulmana antirracista que o incentivou a se tornar um dos principais oradores em oposição à segregação racial norte-americana. Depois de solto, ganhou notoriedade por seus discursos inspiradores, mas um atrito com o líder da NOI o levou a se converter oficialmente ao islamismo sunita. Nesse ínterim, alterou seus discursos, adotando uma postura mais conciliadora perante outros progressistas além da comunidade negra, o que foi visto como traição pela NOI e, consequentemente, levou a seu assassinato.
Leia também: Martin Luther King Jr. — outro ativista contra a segregação racial
Resumo sobre Malcom X
- Malcolm X, nascido Malcolm Little, teve seu pai assassinado por membros da KKK, e a mãe foi internada em uma clínica por motivos psicológicos.
- Na juventude, Malcolm sofreu racismo nas instituições de ensino que frequentava, dissuadindo-o de estudar e o incentivando a entrar no mundo do crime.
- Quando preso por pequenos delitos, estudou filosofia, história e afins. Nesse ínterim, aderiu à Nação do Islã e adotou a alcunha de Malcolm X.
- Quando libertado, afrontou o líder da Nação do Islã por sua corrupção com os valores muçulmanos, peregrinou para Meca e adotou o islamismo sunita.
- Malcolm se tornou mundialmente notório por seus discursos de união racial contra a opressão dos brancos, o que incentivou até mesmo os movimentos anticolonialistas pela África e América.
- As suas denúncias de racismo cometido pelo governo norte-americano foram levadas à ONU, pressionando os EUA a revogarem, paulatinamente, as Leis Jim Crow.
- Embora tenha sido assassinado, o legado de Malcolm X inspirou movimentos como o Black Power, os Panteras Negras e o Black Lives Matter.
Quem foi Malcolm X?
Malcolm X foi um ativista por direitos civis afro-americano nos Estados Unidos da década de 1960. Nesse período, o país arcava com uma violenta política de segregação racial. Junto de Martin Luther King Jr., Malcolm X é atualmente reconhecido como um dos maiores nomes pela inclusão racial norte-americana.
Biografia de Malcolm X
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Nascimento e infância
Malcolm Little nasceu em 1925, na cidade estadunidense de Omaha, estado de Nebraska, filho da caribenha ativista Louise Little, de Granada, e do pregador Earl Little, do estado de Geórgia (EUA). Irmão de outros sete, Malcolm perdeu o pai com seis anos de idade, possivelmente assassinado por membros supremacistas, já que a família era constantemente perseguida por grupos racistas, como a Ku Klux Klan.
Em seguida, a mãe foi internada em uma clínica por problemas psicológicos, obrigando Malcolm a viver em um orfanato. Na década de 1930, frequentou uma escola segregada em Lansing, na Califórnia.
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Juventude
Malcolm foi adotado por uma família branca de East Lansing, onde passou a frequentar o colégio local. A estrutura educacional o desiludiu, já que os docentes do lugar incentivavam os jovens negros a trabalharem em funções estratificadas do racismo (o próprio Malcolm, ao sugerir que desejava se tornar advogado, foi confrontado por um professor, que o incitou a exercer um ofício mais “adequado” à sua raça, como carpinteiro).
Aos 15 anos de idade, abandonou os estudos e se mudou para a casa da meia-irmã, Ella Collins, em Boston. Ali, trabalhou como vendedor de sanduíches e sapateiro, mas acabou se envolvendo em pequenos delitos, como o consumo de drogas e jogos de azar.
Aos 18 anos, mudou-se para o Harlem, em Nova York, onde praticou roubos, venda de entorpecentes e afins, muitas vezes para a máfia ítalo-americana. Aos 20 anos, foi aprisionado pela polícia em um furto de joias malsucedido.
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Prisão
Sentenciado a dez anos de prisão, o período encarcerado serviu de grande transformação a Malcolm: ele deixou de consumir drogas e passou a ler, com avidez, diversas obras de filosofia, história e afins. Nesse ínterim, teve seu primeiro contato real com o islamismo: o irmão Reginald Little, que o visitava com frequência, o incentivou a conhecer a Nação do Islã (NOI), que condenava o racismo e assimilava o homem branco ao “mal” perante a raça negra.
Por meio de trocas de cartas com o líder do NOI, Elijah Muhammad, Malcolm se convenceu do poder político do islamismo e se converteu, apesar de estar ciente que o NOI se diferia em muitos pontos do islamismo tradicional, como a negação de Maomé na qualidade de último profeta (na década de 1960, Malcolm se afastou do NOI e peregrinou até Meca, onde aderiu ao muçulmanismo sunita). Quando libertado da prisão em 1952, abandonou o sobrenome Little, assimilado à escravidão, e o substituiu por X, em referência à incógnita de seu verdadeiro sobrenome africano.
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Casamento
Malcolm X conheceu a enfermeira Betty Sanders em 1956, também adepta ao NOI, quando de uma palestra de Malcolm em Nova York, e se casaram dois anos mais tarde. Betty, ao aderir ao Islã sunita na década de 1960 junto do marido, renomeou-se Betty Shabazz.
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Filhos
Malcolm e Betty tiveram seis filhas: Attallah (1958), Qubilah (1960), Ilyasah (1962), Gamilah (1964) e as gêmeas Malikah e Malaak (1965), todas educadas sob os preceitos do islamismo. Após o assassinato de Malcolm, Betty criou as filhas sozinha.
Ideais de Malcolm X
Os ideais de Malcolm X eram majoritariamente voltados aos direitos civis da população afro-americana dos Estados Unidos. A sua aproximação do NOI, e mais tarde do islamismo sunita, auxiliou na lapidação desses ideais, que, sobretudo, rejeitavam a violência exercida pelos brancos sobre a raça negra.
Um dos preceitos mais defendidos por Malcolm X, no início de sua carreira de ativista, era a criação de um Estado, dentro dos Estados Unidos, administrado e habitado apenas por negros. No entanto, Malcolm mudou de opinião ao se converter ao islamismo sunita, que defendia a igualdade dos humanos perante Alá, mas a adesão não foi aleatória, já que que o ativista passou a divergir dos discursos de Elijah Muhammad, principalmente após descobrir os casos de adultério cometidos pelo líder da NOI.
Pouco após romper completamente com a NOI, em 1964, Malcolm fundou a Mesquita Muçulmana, Inc. (Muslim Mosque, Inc.), instituição islamita que oferecia abrigo espiritual aos afro-americanos. No mês seguinte, peregrinou para Meca, onde aderiu oficialmente ao islamismo sunita, o qual aplicou também à sua organização religiosa. Doravante, passou a se chamar El-Hajj Malik El-Shabazz. Agora, ao invés de defender um Estado segregado, passou a empregar um discurso a favor da integração racial, aliando-se até mesmo com brancos progressistas.
Também em 1964, fundou a Organização da Unidade Afro-Americana (Organization of Afro-American Unity, ou OAAU), influenciada pelo pan-africanismo e o ramo sunita, que tinha como objetivo unir os povos negros dos Estados Unidos para reivindicar seus direitos civis. As pautas sobre as questões raciais foram levadas por ele até a ONU, a fim de demonstrar a estrutura racista norte-americana, que defendia não se diferir muito do Apartheid cometido na África do Sul.
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Pensamentos de Malcolm X e Martin Luther King
Os pensamentos de Malcolm X e Martin Luther King, apesar de defenderem igualmente a emancipação dos direitos civis afro-americanos, a violência policial, o fim das leis Jim Crow (de segregação racial), a educação contra a opressão, entre outros, divergiam-se em alguns aspectos. Essas diferenças de pensamentos eram ainda mais evidentes no período em que Malcolm era adepto ao NOI, mas, depois, as ideias de Malcom X passaram a se aproximar às de Luther King.
Enquanto Malcolm X defendia, a princípio, a separação da raça negra do restante dos Estados Unidos, Martin Luther King era a favor da integração racial no país. O método de conquista dessas reivindicações também divergia: Malcolm apoiava a aquisição de direitos por quaisquer meios necessários, inclusive a luta armada, caso indispensável; já Luther King era adepto da não violência e da desobediência civil como forma de resistência.
Malcolm X, enquanto da NOI, acreditava que o homem branco era a representação do diabo e deveria ser combatido; após a peregrinação a Meca, porém, passou a estimar também aliados progressistas brancos. Martin Luther King, desde o início de seu ativismo, acreditava em uma aproximação entre brancos e negros a fim de se extinguir o racismo.
Divergiam também na questão da amplitude de seus ideais: enquanto aquele discursava a favor de uma união internacional da raça negra pela igualdade de direitos, o outro era adepto a reformas dentro da sociedade norte-americana, ao menos inicialmente.
Apesar das divergências de opinião, ambos os personagens se tornaram líderes de renome internacional a favor da liberdade, que embora tenha sido conquistada apenas de maneira parcial até os dias de hoje, serviu de movimento inicial para uma árdua luta que tem, como objetivo, a justiça racial.
Morte de Malcolm X
Malcolm X foi assassinado por membros da NOI no Harlem, Nova York, em 21 de fevereiro de 1965. Diz-se que, momentos antes de um discurso ao público, três homens se aproximaram do ativista e dispararam dezesseis tiros com pistolas, dos quais dez o atingiram, inclusive no coração. Malcolm tinha 39 anos na data de sua morte.
Os três acusados pelo assassinato foram sentenciados à prisão perpétua. O principal autor do crime, Thomas Hagan, foi libertado em 2010 por bom comportamento após 45 anos de pena; os demais condenados, Norman Brown e Muhammad Aziz, foram soltos, respectivamente, após 20 e 55 anos presos (este, inocentado e indenizado em 10 milhões de dólares).
Importância de Malcolm X
Malcolm X deixou um legado não apenas para a conquista dos direitos civis, mas também profundos questionamentos relacionados ao sistema capitalista. Para ele, as questões raciais e sociais eram indissociáveis, algo que levou à criação de movimentos e organizações antirracistas como o Black Power e os Panteras Negras — fundados logo após o seu assassinato, em 1965.
Os ideais de Malcolm ultrapassaram a fronteira estadunidense — algo que ele almejava —, incentivando, inclusive, os movimentos anticolonialistas africanos e americanos do restante do século XX. Suas denúncias sobre o racismo norte-americano apresentadas à ONU também foram úteis para que o governo dos EUA, a fim de reverter sua imagem negativa (acentuada pelo recém-assassinato do presidente John F. Kennedy), outorgasse as primeiras políticas de segurança eleitoral à comunidade afro-americana (o Voting Rights Act, em 1965).
Frases de Malcolm X
- “Se você não está pronto para morrer por ela, tire a palavra ‘liberdade’ de seu vocabulário.” (1963)
- “Vocês branqueiam a pele e alisam o cabelo para se parecerem com o homem branco. Por que odeiam a cor de sua pele? Por que odeiam seus traços africanos?” (1962)
- “O homem negro foi ensinado a ver a si mesmo como feio, enquanto o branco é glorificado como belo.” (1962)
- “A educação é o passaporte para o futuro, pois o amanhã pertence àqueles que se preparam hoje.” (196?)
- “Nós não somos americanos. Somos africanos que vivem na América.” (1964)
- “Eu não chamo violência quando é legítima defesa. Eu chamo inteligência.” (1964)
- “A mídia é a entidade mais poderosa da Terra. Ela tem o poder de tornar os inocentes culpados, e os culpados, inocentes.” (1963)
- “Se não estiverem cuidadosos, os jornais farão vocês odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as que estão oprimindo.” (1965)
Fontes:
CONE, James H. Martin & Malcolm & America: A dream or a nightmare. Maryknoll: Orbis Books, 1991.
EVANZZ, Karl. The Judas factor: the plot to kill Malcolm X. Nova York: Thunder’s Mouth Press, 1992.
MALCOLM X; HALEY, Alex. A autobiografia de Malcolm X. Rio de Janeiro: Editora Record, 2021.
MARABLE, Manning. Malcolm X: uma vida de reinvenções. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
O Livro da História Negra. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2021.
RICKFORD, Russell. Betty Shabazz: a remarkable story of survival and faith before and after Malcolm X. Naperville: Sourcebooks, 2003.