Semana de Arte Moderna de 1922

O processo de modernização observado nas sociedades industriais em ascensão marcou o aparecimento de movimentos que tentavam discutir as idéias, valores e concepções artísticas que pensassem sobre essa nova realidade. Contudo, a despeito do pioneirismo das primeiras nações européias, observamos que as vanguardas artísticas do capitalismo contemporâneo apareceram em países que experimentaram tardiamente a modernização de sua economia.

Um dos mais conhecidos exemplos dessa situação histórica aconteceu no Brasil, quando um grupo de intelectuais e artistas promoveu a realização da Semana de Arte Moderna, ocorrida nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, na cidade de São Paulo. A principal questão pensada nesse evento envolveu uma acalorada discussão sobre como o modernismo e as experimentações artísticas européias seriam introduzidas no cenário artístico-intelectual brasileiro.

No evento, havia um grupo que lutava contra os valores estéticos conservadores e não aceitava a submissão às propostas oriundas da Europa. Esse grupo atacava ferozmente os hábitos de vários brasileiros, principalmente da burguesia urbana, que eram fascinados pela moda, pelos hábitos e diversões do Velho Continente. De fato, colocavam em xeque a idéia de que o Brasil precisava “copiar” o modelo civilizatório europeu para que o país tivesse condições de superar seus problemas e “atrasos”.

No entanto, se os intelectuais e artistas precisavam evitar essa cópia indiscriminada, qual seria a alternativa para que os temas e concepções de uma arte original surgissem? Mais do que isso, quais seriam os valores, símbolos, imagens, sujeitos e eventos históricos que poderiam servir de inspiração para que se firmasse uma arte genuinamente brasileira? Foi em meio a essas novas questões que duas novas vertentes surgiram a partir da Semana de Arte Moderna.

A primeira delas apareceu em 1924, momento em que o movimento antropofágico apareceu com a publicação do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil”, criado pelo escritor Oswald de Andrade. De acordo com a tendência antropofágica, a polêmica dependência artística e cultural seria resolvida por meio de uma postura inovadora, mas não necessariamente nacionalista. Os artistas “antropofágicos” ofereciam uma via alheia à imitação do padrão europeu que tomava conta da cultura letrada do período.

A postura antropofágica acreditava que a relação dos artistas e pensadores com a cultura européia poderia ser revista por meio de um processo de “devoração”, “digestão” e “deglutição” das influências estrangeiras. Em outras palavras, os antropofágicos acreditavam que as tendências estrangeiras eram benéficas ao desenvolvimento da cultura brasileira, desde que fossem criativamente reestruturadas de acordo com questões e demandas presentes na nossa cultura.

Em contrapartida, a questão da identidade cultural brasileira também promoveu a ascensão de um discurso mais radical defensor de uma visão ufanista do país. O verde-amarelismo era o representante dessa nova vertente em que a xenofobia seria uma de suas diretrizes fundamentais. Os “verde-amarelistas”, como Plínio Salgado, defendiam uma valorização irrestrita de símbolos e elementos que fossem puramente oriundos da realidade nacional.

Dessa forma, podemos considerar que a Semana de Arte Moderna teve uma importância fundamental na revisão dos valores estéticos e nas discussões intelectuais do Brasil. Apesar do acesso ao conhecimento e o analfabetismo serem dois grandes entraves desse período, o evento teve grande importância para que outras manifestações artísticas surgissem posteriormente. Na década de 1960, por exemplo, o movimento tropicalista assumiu explicitamente a influência desse rico capítulo da cultura nacional.

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Por Rainer Sousa
Mestre em História

Imitar a Europa ou valorizar o Brasil? – um dos grandes dilemas que marcaram a Semana de Arte Moderna de 1922.
Imitar a Europa ou valorizar o Brasil? – um dos grandes dilemas que marcaram a Semana de Arte Moderna de 1922.
Publicado por: Rainer Gonçalves Sousa
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