Período Helenístico
Período Helenístico é o nome pelo qual ficou conhecida a fase de intensa difusão e hibridização da cultura grega sobre grande parte do mundo antigo. Esse período teve início a partir de 323 a.C. e perdurou até a morte da rainha ptolemaica do Egito, Cleópatra VII Filopátor, em 30 a.C.
Apesar de a Grécia ter representado uma das maiores civilizações da História Antiga, foi por volta do século IV a.C. que a sua hegemonia passou a ser substituída pelo domínio do Império Macedônico. A Macedônia, considerada por muitos gregos um Estado periférico da Hélade, tornou-se um dos maiores impérios do mundo antigo sob o comando de Alexandre Magno, também conhecido como Alexandre, o Grande. Sua extensão territorial, naquele período, significou a disseminação da cultura greco-macedônia, influenciando parte dos costumes e práticas de sociedades como a egípcia, a síria, a persa, entre outras.
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Resumo sobre Período Helenístico
- O Período Helenístico foi uma fase de intensa disseminação e hibridização de culturas, crenças e práticas das diversas sociedades incorporadas pelo domínio macedônico.
- Ocorreu a partir de 323 a.C. até 30 a.C.
- Esse período teve início com a expansão do Império Macedônico, liderada por Alexandre Magno, e se encerrou quando da morte de sua última herdeira, Cleópatra VII.
- Em decorrência da vitória do Império Macedônico sobre os persas aquemênidas, o helenismo expandiu-se para o leste até parte da atual Índia.
- Após a morte de Alexandre, o Império Macedônico foi dividido entre os seus generais, chamados diádocos, que consolidaram Estados poderosos como o Egito Ptolemaico, o Império Selêucida e o Reino da Macedônia.
- Durante esta fase, disseminou-se a primeira língua franca do mundo, a koiné, que permitiu a comunicação entre os diversos povos sob influência do helenismo.
- Também, dentro do vasto território helenístico, unificou-se o sistema econômico sob uma única moeda, representada pela dracma grega.
- A fundação de diversas cidades cosmopolitas, como Alexandria, no Egito, e Pérgamo, na Anatólia, possibilitou o incentivo e a difusão de diversas áreas do conhecimento.
- Em muitos lugares sob a influência do helenismo houve casos de sincretismo religioso, a exemplo da fusão entre Zeus e Amon ou Ártemis e Cibele.
- Novas escolas filosóficas foram fundadas e difundidas no período, como a epicurista, a estoica, a cínica e a cética.
- A arte passou por um intenso processo de transformação, tornando-se mais dramática e realista.
- Em 30 a.C., a invasão do Império Romano sobre o Egito Ptolemaico, então governado por Cleópatra, culminou na dissolução do último Estado helênico.
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O que foi o Período Helenístico?
O Período Helenístico foi a etapa da Antiguidade, ocorrida entre os anos 323 a.C. e 30 a.C., em que a cultura da região da Heláde (nome dado aos povos gregos para a região em que viviam) disseminou-se entre as centenas de povos incorporados e parcialmente assimilados ao Império Macedônico, entre eles, o Egito, a Mesopotâmia, a Pérsia e parte da atual Índia. Essa assimilação significou um processo de hibridização entre as culturas sob influência macedônica, ou seja, muitos dos costumes e práticas enraizados pelas sociedades conquistadas passaram a se “misturar” com os hábitos trazidos por seus conquistadores. Não à toa, o Período Helenístico possui esse nome em referência à propagação cultural advinda da Heláde.
As incursões que angariaram tantas conquistas para o Império Macedônico foram comandadas pelo rei Alexandre Magno, ou Alexandre, o Grande, que morreu aos 33 anos. A influência do helenismo sobre as centenas de povos incorporados ao império, porém, se manteve por muito tempo. Inúmeras cidades gregas foram erigidas sobre as terras conquistadas por Alexandre e ocupadas por gregos e descendentes, ainda que, após a morte do rei conquistador, o império tenha sido dividido por seus diádocos — os sucessores de Alexandre Magno, representados especialmente por generais, que lutaram pela permanência do poder e fragmentaram o império então recém-fundado.
A fundação de cidades gregas por grande parte do mundo antigo significou um grande fluxo não apenas comercial, mas também intelectual, refletido em intercâmbios da filosofia, ciências e artes. As outrora pólis gregas deixaram de se constituir em cidades-Estado fechadas e independentes para tornarem-se referência de cosmopolitismo e influência estrangeira. O poder do helenismo foi tão eficiente, que alcançou grande parte do Oriente, pelo menos até que o Império Romano dominasse o mundo antigo e consolidasse o término do período de hegemonia da cultura helênica.
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Contexto histórico do Período Helenístico
→ A crise do Período Clássico na Grécia
Entre os séculos V e IV a.C., antes do início do Período Helenístico, a Grécia havia passado pelo Período Clássico: Atenas e Esparta competiam como as maiores cidades-Estado da Hélade, mesmo após se unirem para repelir e derrotar os persas durante as Guerras Médicas. Ambas haviam difundido conceitos essenciais para a história do Ocidente, desde a fundação da democracia ateniense até a conscrição (alistamento militar obrigatório) das crianças espartanas do sexo masculino.
A Grécia, como um todo, possuía uma característica étnica em comum: a língua, a religião e os costumes, com algumas variações conforme a região. Porém, nesse contexto, a Macedônia era um Estado grego periférico ao norte da Hélade, considerado “bárbaro” ou inculto por grande parte dos cidadãos da civilização ao sul da península ou dos territórios insulares. Para espartanos e atenienses, principalmente, os macedônios não eram nem mesmo considerados gregos.
Ironicamente, a Macedônia estava geograficamente mais distante que a grande maioria dos territórios gregos quando teve início a Guerra do Peloponeso, travada entre Atenas e Esparta pela hegemonia política e militar da Hélade. A influência das duas potências sobre as demais pólis resultou em atritos cada vez menos inevitáveis, culminando finalmente em um estopim ocasionado pela taxação imposta aos aliados de Esparta em rotas comerciais, especialmente as marítimas.
Os atenienses, embora possuíssem um poderoso efetivo militar, especialmente marítimo, não foram páreos para o avanço dos culturalmente militaristas espartanos. Por outro lado, a Guerra de Corinto, conduzida pelos inimigos da pólis vencedora — e apoiada pelos amargurados persas — pôs fim ao efêmero governo espartano em 386 a.C. Sem um governo definido, a Grécia encontrava-se em um momento suscetível de tomada de poder.
Ao norte da civilização balcânica, a montanhosa Macedônia era ocupada por povos distintos que haviam sido governados por reis omissos perante os conflitos externos. Tanto nas Guerras Médicas quanto na Guerra do Peloponeso, seus líderes haviam optado pela neutralidade, embora na prática se aproveitassem dos espólios dos conflitos ora a favor de Atenas, ora a favor de Esparta.
Em 359 a.C., após uma sucessão de disputas internas, Filipe II assumiu a posição de regente da Macedônia, ocupando rapidamente o poder de facto no lugar do sobrinho, Amintas IV. A fim de se manter na posição de monarca, Filipe realizou reformas políticas que sufocaram seus rivais, reorganizando o exército macedônio (até então baseado em cavalaria) para fundar corpos de infantaria essenciais para a proteção dos flancos dos cavaleiros em combate. Combateu os peônios e ilírios, que compunham as tribos macedônias rivais, e transformou a Macedônia numa potência em ascensão.
Com o passar do tempo, Filipe II conquistou diversos pontos importantes da Grécia, como portos e rotas comerciais. Na década de 350 a 340 a.C., interveio para impedir a tentativa de Atenas de invadir a Ilha de Eubeia, onde garantiu o domínio macedônio. Na Terceira Guerra Sagrada, lutou a favor dos beócios contra os fócidos, aliados dos atenienses e espartanos, expandindo o território macedônio a leste; e mesmo apesar de Atenas aceitar a paz no término dos conflitos, sua pólis buscou se aliar a Bizâncio, que controlava o fluxo marítimo entre os mares Mediterrâneo e Negro.
Essa aliança, na prática, significava que os atenienses haviam se apropriado do monopólio das rotas comerciais por mar, o que enfureceu Filipe II diante do já fragilizado acordo de paz. Uma nova guerra macedônica-ateniense foi deflagrada em 340 a.C., culminando na derrota definitiva de Atenas dois anos mais tarde, após a Batalha de Queroneia.
→ Alexandre Magno e o auge do Império Macedônico
O sucessor de Filipe II era Alexandre, nascido em 356 a.C. Ele foi educado na capital macedônia de Pela por ninguém menos que o filósofo Aristóteles, cuja família possuía um histórico amigável desde os tempos de Amintas III, pai de Filipe II. A relação entre Alexandre e Aristóteles foi fundamental para o despertar da curiosidade e do conceito de universalidade agradável ao futuro imperador, que após dois anos de aprendizado com o filósofo, ingressou na carreira militar.
Como filho do rei, aos dezoito anos, Alexandre assumiu um papel de prestígio na fase final contra os gregos, especialmente na Batalha de Queroneia, em que assumiu o encargo de comandante do flanco esquerdo da cavalaria, composta por algo em torno de 1800 unidades (enquanto o próprio pai liderava o flanco direito).
Quando Filipe II foi assassinado em 336 a.C., por motivos desconhecidos, Alexandre já detinha elevado conhecimento diplomático e possuía imensa influência política no império, mas era rodeado por rivais. Astutamente, aos vinte anos, ele se apresentou à assembleia macedônia e foi eleito rei, ordenando a execução de todos os possíveis usurpadores ao trono. No primeiro ano de governo, arrasou a cidade de Tebas, decretando a submissão da Grécia ao seu reinado.
As primeiras incursões militares de Alexandre Magno objetivavam livrar as cidades gregas do domínio persa. Nas proximidades da lendária cidade de Troia, travou a Batalha de Grânico, onde cerca de 30 mil unidades de infantaria, majoritariamente falanges, e cerca de 5 mil cavalos conseguiram subjugar um exército de 40 mil persas. A Ásia Menor voltou ao domínio grego, seguida da Batalha de Isso, que novamente subjugou um número maior de soldados persas e incorporou a Síria e a Fenícia ao império. Doravante, Alexandre conquistou o Egito, livrando a África do domínio persa.
A conquista da civilização milenar foi simbolizada pela criação da cidade de Alexandria às margens do Mar Mediterrâneo, que veio a se tornar a maior cidade helenística da Antiguidade (especificamente a do Egito, já que o nome “Alexandria” seria adotado em diversas outras cidades dominadas pela Macedônia).
Em 331 a.C., a Mesopotâmia caiu para os macedônios após a Batalha de Gaugamela, e em 330 a.C., Alexandre Magno derrotou os aquemênidas definitivamente, culminando na morte de Dario III. A derrota persa significou a extinção do imenso Império Aquemênida, que se desmembrou em Estados de menor dimensão. Mas, como apreciador do cosmopolitismo, Alexandre evitou destruir as cidades persas, além disso, viu em alguns inimigos persas potenciais aliados, os quais poupou e nomeou a cargos importantes.
Para evitar revoltas internas e assegurar aliados, estimulou o casamento de quase oitenta de seus generais e oficiais com nobres nativas do extinto império, além de conceder permissão a 10 mil soldados para se casarem com mulheres asiáticas. O próprio imperador causou um escândalo, pois mesmo já casado com Roxana, filha do sátrapa de Bactriana, desposou duas nobres persas: Estatira, filha do próprio rei persa Dario III, e Parísatis, filha de Artaxerxes III (de uma antiga linhagem rival de Dario).
Apesar de derrotar os persas e assegurar alianças, as incursões não cessaram: ele também conquistou a Ásia Central e uma porção noroeste da atual Índia, advinda da Batalha do Rio Hidaspes, que significou a última grande batalha para o Império Macedônico, principalmente em decorrência da desmoralização de suas tropas. Exaustas pelos anos de campanha, os soldados sofriam de epidemias e das más condições de tempo, especialmente devido ao calor e à umidade, assolados por fome e sede.
Com isso, pela primeira vez, as tropas de Alexandre se recusaram a acatar as ordens e seguir para o leste, desertando em massa do exército macedônico. Desmoralizado, Alexandre e suas tropas retornaram para o oeste, mas a carência de suprimentos e as insalubres condições climáticas resultaram na perda de estimados 75% de todo o seu contingente de soldados.
Pouco tempo após retornar à Babilônia, Alexandre Magno foi acometido por uma febre repentina que o vitimou aos 32 anos de idade. A razão de sua morte é incerta, estimando-se tanto a contração da malária, quanto do envenenamento. A morte do conquistador significou o fim do Império Macedônico unificado, dando origem à era dos diádocos. Mesmo assim, a influência da cultura greco-macedônica se manteve em processo de difusão e hibridização por mais trezentos anos, graças à fundação das diversas cidades erigidas por ordens de Alexandre.
→ Os diádocos e o enraizamento do helenismo
Com a morte de Alexandre Magno em 323 a.C., os seus generais passaram a disputar os territórios assimilados pelo Império Macedônico. No ano seguinte, iniciou-se a Primeira Guerra dos Diádocos, que seria seguida por três outros grandes conflitos que só cessariam em 301 a.C., após a Batalha de Ipso. Agora, três territórios foram consolidados:
- o Egito Ptolemaico, fundado por Ptolomeu I, com capital em Alexandria (Egito);
- o Império Selêucida, fundada por Seleuco I, com capitais na Antioquia (Síria) e Selêucia (Mesopotâmia); e
- o Reino da Macedônia, fundada por Antígono I e consolidada por Antígono II, com capital originalmente em Pela (na Macedônia), e posteriormente, em Demétrias (na Grécia).
A partir desse contexto, o helenismo passou a se enraizar por todo o domínio macedônico, influenciando as práticas, costumes e crenças dos diversos povos assimilados pelo império criado por Alexandre, como veremos no tópico a seguir.
Características do Período Helenístico
→ Cultura helenística
Por todos os territórios dominados pelos diádocos, a cultura helenística lentamente se disseminou por intermédio da difusão cultural e do sincretismo com os costumes e práticas locais, influenciando até mesmo as línguas. A mais propagada delas foi a koiné, primeira língua franca da história, ou seja, adotada como idioma secundário entre civilizações de diferentes lugares do mundo (como ocorre com a língua inglesa atualmente).
Com ela, difundiu-se o conhecimento grego, influenciando a filosofia, a religião, as ciências, as artes e outros setores que foram mesclados e adaptados às culturas locais. Reforçada pela fundação de diversas cidades na extensão do Império Macedônico, a koiné permitiu que a cultura entre os diversos povos possuísse aspectos em comum. A difusão cultural não ocorreu de maneira aleatória, já que durante o período, erigiram-se diversas instituições de conhecimento, como bibliotecas e museus, que possibilitaram o contato entre intelectuais de diversas origens e culturas.
O polo cultural mais proeminente não apenas do Império Macedônico, mas de toda a Antiguidade, foi a cidade de Alexandria, no Egito. Lá, sob os governos de Ptolomeu I e Ptolomeu II, foram construídas a Biblioteca de Alexandria e o Museu de Alexandria, que transformaram a cidade às margens do Mar Mediterrâneo no principal centro da cultura cosmopolita.
Vale reforçar que Alexandria era apenas uma das diversas cidades cosmopolitas de grande influência cultural. Sua maior “rival” era Pérgamo, polo do conhecimento na Anatólia que abrigava a segunda maior biblioteca do mundo (não à toa, foi lá que surgiu o pergaminho, em referência ao nome da cidade).
Estruturas de conhecimento erigidas por todo o império significaram a propagação e avanço das ciências, filosofia, artes, entre outros; desse contexto, atribuem-se a criação da trigonometria (Hiparco de Niceia), da hidrostática (Arquimedes) e significativos avanços da anatomia (Herófilo) e fisiologia (Erasístrato). Como veremos a seguir, o helenismo também promoveu o sincretismo religioso e novas escolas de filosofia.
→ Religião no Período Helenístico
A religião propagada pelos macedônicos no Período Helenístico condiz não apenas com a mitologia grega, mas também as crenças originárias de outras regiões dominadas por Alexandre e seus diádocos. As divindades gregas, por exemplo, sincretizaram-se com as crenças do Egito, ou seja, uniram-se sem substituir suas identidades originais.
Zeus-Amon tornou-se uma única figura cultuada especialmente em Alexandria, e a deusa grega Afrodite influenciou no culto a Ísis, divindade egípcia que foi reforçada em sua representação do amor e da magia. Serápis surgiu como uma nova entidade do Egito Ptolemaico, combinando características e forças das divindades locais Osíris e Ápis e dos deuses gregos Zeus, Hades e Asclépio.
O sincretismo também alcançou, com notória influência, a região da Frígia (no centro-oeste da Anatólia, atual Turquia). Lá, a deusa Ártemis, da Grécia, fundiu-se à anatoliana Cibele, ambas compreendidas como divindades responsáveis pela fauna selvagem. Entre os romanos, a Cibele helenizada passou a ser reconhecida como Magna Mater (“Grande Mãe”) da natureza. Entre as crenças mais populares difundidas pelo helenismo, podemos citar o culto de Mitra, originário da Pérsia, que mais tarde se popularizaria por diversos homens de Roma, especialmente os combatentes.
→ Filosofia helenística
A filosofia foi um dos âmbitos mais difundidos pelo helenismo. Foi em seu contexto que surgiram as escolas (linhas de pensamento) do epicurismo, estoicismo, cinismo e ceticismo, disseminadas principalmente graças à vasta rede de instituições de conhecimento construídas pelos territórios helênicos.
O epicurismo, fundado por Epicuro, difundia o prazer pela vida longe de quaisquer artifícios excessivos ou supérfluos; articulou sobre a tranquilidade diante do medo da morte e dos deuses, a favor de uma vida simples e satisfatória. Já o estoicismo teve origem nos pensamentos de Zenão de Cítio, cuja escola, que mais tarde seria representada por pensadores como Sêneca, Crisipo e Marco Aurélio, articulava sobre felicidade, virtudes e paixões; em suma, implicava viver em harmonia com a natureza do princípio universal – o Logos.
O cinismo e o ceticismo foram linhas filosóficas menos difundidas que as anteriores, mas não menos importantes: a primeira dessas duas, fundada por Antístenes, mas lembrada geralmente pelo papel de Diógenes, defendia uma vida de extrema simplicidade e autossuficiência, longe de qualquer influência advinda de bens materiais, tal como um cão (kyon); a segunda, criada por Pirro de Élis, era fundamentada na questão da incessante dúvida, ou mais exatamente, da indecisão, inclusive diante de dogmas da religião ou da moral (por isso, o ceticismo atualmente conceitua dúvida ou falta de convicção).
→ Arte no Período Helenístico
O advento do Período Helenístico significou, nas artes, um contraste ao convencional Período Clássico grego que atingiu seu auge durante os séculos V e IV a.C. Enquanto o classicismo era manifestado por meio de pinturas, esculturas e arquiteturas fundamentadas a partir do conceito de “belo” (que inclui a beleza, a bondade e a harmonia), o Período Helenístico se contrapôs como um movimento de expressão mais realista, humana, dramática e muitas vezes desconfortável, ou seja, naturalista, potencializado pelas descobertas da anatomia e a compreensão do ser humano (mas sem deixar de representar as divindades gregas).
Entre as diversas obras de artes produzidas no Período Helenístico, podemos citar as estátuas “A velha embriagada”, “Nike de Samotrácia” e a amplamente reconhecida “Vênus de Milo”.
Até mesmo as cidades passaram a ser reestruturadas, muitas das quais foram planejadas de modo hipodâmico, ou “em grade” (de ruas retas e quarteirões simétricos, para facilitar o fluxo dos populares). Os artistas helênicos também popularizaram estruturas de grande porte com frisos detalhados de figuras humanas ou mitológicas, como no caso do Altar de Pérgamo, dedicado a Zeus. Assim como grande parte da cultura grega, a arte naturalista helenística foi continuada pelos romanos, especialmente durante o período da República.
→ Economia no Período Helenístico
Enquanto até o Período Clássico da Grécia a economia era baseada na autossuficiência das pequenas cidades e na importação e cobrança de tributos das grandes pólis, Alexandre Magno aplicou medidas econômicas que facilitaram o fluxo mercantil entre os numerosos e longínquos centros comerciais influenciados por seu império. Uma das principais políticas econômicas consistiu na unificação monetária do território, que passou a utilizar um tipo único de moeda, o dracma (aliás, curiosamente utilizada na Grécia até o ano 2001, antes de o país aderir à União Europeia).
Os diádocos mantiveram as políticas de fluxo comercial por meio da manutenção e investimento em rotas de longo alcance, além da construção de portos e estradas que conectavam as maiores cidades do império. Compravam-se e vendiam-se escravos, grãos, seda, metais, especiarias, papiro, vidro, perfumes, azeite, cerveja, sal, entre muitos outros, oriundos desde o norte da África até a Ásia Meridional, um fluxo que, devido ao aumento de demanda dos diversos produtos, refletiu no aumento das práticas escravistas de grande parte dos domínios macedônicos.
Fim do Período Helenístico
O Período Helenístico terminou no ano 30 a.C., quando a última representante da Dinastia Ptolemaica, Cleópatra VII Filopátor, cometeu suicídio por envenenamento (popularmente atribuído à picada de uma víbora, embora seja questionável). Mas o processo de ruína do Período Helenístico não foi instantâneo.
O primeiro dos reinos helenísticos a ruir foi a Macedônia, da Dinastia Antigônida. No ano 200 a.C., Roma declarou guerra ao rei macedônico Filipe V diante da aliança que este havia firmado com o maior inimigo dos romanos, Aníbal de Cartago, em 215 a.C. No final do século III a.C., Roma e Cartago haviam se enfrentado na Segunda Guerra Púnica pela posse do Mar Mediterrâneo.
O sucessor de Filipe, Perseu, não pôde conter o avanço romano, que invadiu inicialmente o Mar Egeu para defender seus interesses comerciais e liberou as cidades sob a influência macedônica uma a uma, até vencer o reino em 168 a.C. na Batalha de Pidna. A Macedônia teve seu território transformado em província romana vinte anos depois.
Por sua vez, o Império Selêucida, que já havia sido o maior dos territórios helênicos, estava tão enfraquecido por guerras civis e ataques estrangeiros, que no século I a.C., só lhe restava o domínio da Síria. Sem grandes dificuldades, o general romano Pompeu a dominou e transformou em província romana.
Finalmente, restava o Egito da Dinastia Ptolemaica. Naquele contexto, Roma passava pelo período dos triunviratos, que significava a disputa de três generais pela conquista e influência dos domínios romanos. Sua rainha, Cleópatra VII, era uma astuta diplomata e política, buscando apoio com os generais mais influentes de Roma que pudessem evitar ataques de outros generais dos triunviratos. Durante o Primeiro Triunvirato, buscou apoio de Júlio César, e posteriormente, de Marco Antônio, com quem estabeleceu relações afetivas.
No entanto, após a Batalha de Ácio, Marco e Cleópatra foram derrotados, restando à rainha o suicídio como opção ao humilhante aprisionamento pelos romanos. Como última representante de uma dinastia helenística, a morte de Cleópatra encerrou o Período Helenístico em 30 a.C.
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Exercícios resolvidos sobre Período Helenístico
1. (UFPR) Sobre o período helenístico (séculos IV a II a.C.) é correto afirmar:
a) Com a rápida conquista territorial feita pelos macedônios, liderados especialmente por Alexandre Magno, houve a difusão da cultura grega do Egito até a Índia, por meio da adoção da koiné, uma variante mais simples do grego. Ocorreu a fusão entre culturas orientais e a cultura grega, além da construção de polos culturais, como Alexandria. Esse período deixou uma influência duradoura, que se manteve também dentro dos limites do Império Romano.
b) Foi um longo período de desenvolvimento econômico, em que a agricultura foi incentivada por todos os territórios conquistados por Alexandre Magno. O objetivo desse imperador era rivalizar com o Império Romano, estabelecendo em Alexandria um governo despótico e centralizador. Nesse período, a cultura grega se expandiu do Egito até a China.
c) Foi marcado pelas conquistas de Alexandre Magno, que teve dificuldades em expandir o seu governo, por conta da resistência dos romanos e dos persas. Apesar de ter reinado por décadas, Alexandre Magno não conseguiu manter a independência grega, perdendo seus territórios para o nascente Império Romano.
d) Foi um período de decadência cultural, em que manifestações culturais gregas misturaram-se a influências de outras culturas conquistadas pelos exércitos de Alexandre Magno. Devido ao seu rápido crescimento, o império helenístico permitiu que as culturas e costumes locais se preservassem em troca de lealdade política. Isso levou ao fim da língua, da filosofia, do teatro e da arquitetura gregas.
e) Foi uma era de violência endêmica e de escravidão dos povos conquistados por Alexandre Magno, o que explica sua breve duração. Logo após a morte de Alexandre, o império se dividiu e foi conquistado pelos persas. Dessa forma, o projeto de difusão da cultura grega foi abandonado, deixando alguns poucos monumentos e bibliotecas pelo Oriente.
Resposta: A
Diversos aspectos da alternativa resumem corretamente o Período Helenístico, como a adoção da koiné por toda a extensão territorial do Império Macedônico, o hibridismo cultural e a edificação de Alexandria.
2. (PUC-GO) As escolas filosóficas pertencentes ao período helenístico priorizaram estabelecer um conjunto de preceitos racionais a fim de dirigir a vida de cada um e chegar à felicidade e ao bem-estar. É possível observar uma certa herança socrática em todas as escolas helenísticas. Uma dessas escolas propõe suspender o juízo sobre a realidade, duvidando de que seja possível algum conhecimento seguro e estável. Portanto, a atitude coerente do sábio é a suspensão do juízo e aceitação com serenidade do fato de não poder discernir o verdadeiro do falso. Ou seja, não existe verdade certa. As coisas em si são indiferenciadas, incomensuráveis, indiscriminadas.
Marque a alternativa que corretamente corresponde à escola helenística a que o enunciado desta questão se refere:
a) Aos céticos, como Pirro, envolvido com a ideia de desfrutar somente daquilo que os sentidos podem captar.
b) Aos celetistas, como Diógenes, envolvido com a ideia de que o homem não pode dizer o que pensa.
c) Aos estoicos, como Zênon, envolvido com o ideal de vida feliz advinda do prazer, evitando a dor.
d) Aos epicuristas, como Sêneca, envolvido com o ideal dos prazeres da alma, que são calmos e ternos.
Resposta: A
A escola cética, fundada por Pirro e difundida no Período Helenístico, era fundamentada na incerteza das questões fundamentais, prevalecendo-se na suspensão das convicções inerentes às convenções.
Créditos das imagens
Fontes
ANGELA, Alberto. Cleópatra: A rainha que desafiou Roma e conquistou a eternidade. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2019.
EYLER, Flávia M. S. História Antiga – Grécia e Roma: A formação do Ocidente. Petrópolis: Editora Vozes, 2014.
LESSA, Fábio de S. (Org.) Grécia Antiga: Cultura e Sociedade. Rio de Janeiro: Mauad X, 2024.
O LIVRO DA FILOSOFIA. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2016.
SERRANO, Cristian M. Alexandre Magno e o helenismo: A herança do conquistador macedônio. Barcelona: Bonalletra Alcompas, 2018.