Origem do Golpe Militar

Deflagrado no dia 31 de março de 1964, o golpe militar não foi estabelecido em uma ação impensada ou sem nenhum histórico capaz de justificá-lo. Desde muito tempo, já nos tempos de Getúlio Vargas, tínhamos a presença frequente de discursos que demonizavam as tendências políticas de esquerda e que colocavam o país sob a ameaça de um governo comunista. Não por acaso, em 1937, Getúlio Vargas empregou dessa justificativa para constituir o Estado Novo.

Chegando à década de 1960, percebemos que as tensões que deflagraram o regime militar giraram em torno da chegada de João Goulart na presidência da República. Considerado um herdeiro político do próprio Vargas, João Goulart chegou ao governo pressionado por forças conservadoras que refutavam a sua atuação política. Tal situação de tensão chegou ao seu auge no ano de 1963, quando o presidente começou a articular e discursar um amplo projeto de mudanças que ficariam conhecidas como as chamadas reformas de base.

Já quando as reformas foram anunciadas, setores da direita brasileira, do empresariado e das classes médias começaram a atacar o projeto presidencial. Por um lado, acusavam que as reformas de base seriam um princípio de mudanças que articulariam a construção de um governo socialista no Brasil. Por outro, Jango era acusado de constituir uma base política que o permitiria alargar o seu mandato através de um possível golpe que se assemelharia ao anterior regime varguista.

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Nessa época, segundo alguns estudiosos, o Brasil vivenciava a articulação de vários movimentos sociais simpáticos às reformas propostas por João Goulart. Entre tais movimentos, podemos destacar a mobilização estudantil através da UNE (União Nacional dos Estudantes), a organização do proletariado na CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e, entre os trabalhadores rurais, a existência das Ligas Camponesas.

Quando as reformas foram anunciadas, os setores contrários se articularam nas chamadas “Marchas da Família, com Deus, pela Liberdade”. Esses atos públicos expuseram a insatisfação desses setores e, ao mesmo tempo, sinalizaram a presença de um apoio na sociedade civil para o golpe de Estado que os militares já discutiam internamente. Além disso, é importante apontar que, no campo diplomático, os EUA sabiam da possibilidade do golpe e ofereceram apoio logístico e militar em uma ação que ficou conhecida como operação “Brother Sam”.

Mediante a exposição desses elementos, podemos aqui pontuar que as tensões políticas desenvolvidas antes de 1964 foram de suma importância para a eficiência do novo regime que chegava ao poder. Ao mesmo tempo, contrariando as antigas noções sobre esse período, temos que destacar que a nossa ditadura teve uma feição de ordem militar e que teve significativo amparo de grupos influentes da sociedade civil.


Por Rainer Gonçalves Sousa
Colaborador Mundo Educação
Graduado em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG
Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG

A presença do apoio civil: um dos elementos centrais para a eficiência do golpe militar
A presença do apoio civil: um dos elementos centrais para a eficiência do golpe militar
Publicado por: Rainer Gonçalves Sousa
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Lista de Exercícios

Questão 1

(Udesc-SP) Leia o excerto a seguir. “As classes dominantes, sob liderança do bloco multinacional e associado, empreenderam uma campanha ideológica e político-militar em frentes diversas, através de uma série de instituições e organizações de classe, muitas das quais eram partes integrantes do sistema político populista.”

(DREIFUSS, René Armand. 1964: a Conquista do Estado–Ação Política, Poder e Golpe de Classe. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 1986. p. 483.)

Relacionando as motivações do golpe militar de 1964 no Brasil, expostas no excerto, com a cultura política brasileira, assinale a alternativa correta:

a) À época, o Estado brasileiro tentava aproximação com a China Comunista, o que pode ser facilmente verificável na condecoração que Jânio Quadros realizou a Ernesto Guevara (Che) e também na viagem que João Goulart realizou para aquele país.

b) A guerrilha urbana instituída pelo Estado Brasileiro foi capaz de proteger os cidadãos da ameaça comunista.

c) Entre os partidos políticos que lutaram pela preservação da democracia e contra a ditadura militar, destacou-se a Aliança Renovadora Nacional – ARENA.

d) Pode-se afirmar que o Golpe Militar não se realizou apenas por influências internas e exclusivamente brasileiras.

e) Questões sociais como reforma agrária, distribuição de renda e alianças políticas não foram significativas para a produção do Golpe Militar de 1964.

Questão 2

(UFMG) O Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) esteve no centro da crise que resultou no golpe político-militar de 1964.

Todas as alternativas apresentam afirmações corretas sobre o PTB, EXCETO:

a) Alguns setores do PTB, após o suicídio de Vargas, conseguiram uma grande autonomia e defenderam a formação de uma frente popular, a Frente Parlamentar Nacionalista, para neutralizar a ala de centro do Partido.

b) O fortalecimento da ARENA (Aliança Renovadora Nacional) junto às classes trabalhadoras urbanas deslocou o PTB de sua posição hegemônica e rompeu o equilíbrio político da década de 60.

c) O partido surgiu como instrumento de manipulação do governo Vargas e buscou, em especial, conter o avanço do Partido Comunista Brasileiro no controle da classe trabalhadora.

d) O PTB manteve uma coligação eleitoral histórica com o PSD (Partido Social Democrático), que tinha sua base política no campo e era sustentado pelo localismo e coronelismo.

e) O PTB tinha características marcadamente nacionalistas, defendia uma política estatizante em relação à economia e apresentava feição reformista.

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