Estopim do Golpe Militar

No ano de 1964, o Brasil vivia um período de intensa turbulência política ligada ao mandato do presidente João Goulart. Tal instabilidade já havia se iniciado no ano de 1961, quando forças militares tentaram impedir que Jango assumisse a cadeira presidencial depois que Jânio Quadros resolveu abrir mão de seu mandato. Tendo uma ligação histórica com os setores trabalhistas, João Goulart era uma figura considerada demasiadamente próxima do pensamento político de esquerda.

O efeito dessa primeira tensão foi a mudança do regime político do país, que deixou de ser presidencialista e passou a ser parlamentarista. Na prática, essa manobra resultou na restrição dos poderes políticos de João Goulart com a introdução da figura de um Primeiro Ministro na composição do Poder Executivo. Sendo assim, o mandato de João Goulart foi garantido sem que uma ameaça de golpe político fosse colocada em ação pelos militares.

Contudo, entre 1961 e 1963, as dificuldades em se combater os problemas sociais e econômicos do país acabou estabelecendo uma oportunidade de retorno ao sistema presidencialista. Através de um plebiscito realizado em janeiro de 1963, o presidencialismo foi retomado e o presidente João Goulart passou a atuar com maiores poderes. Foi a partir de então que Jango passou a empreender o desenvolvimento das chamadas “reformas de base”.

As reformas de base consistiam em um amplo plano de mudanças que iria afetar profundamente os setores de tributação, políticas agrárias, educação, bancário, universitário e habitacional. Com expresso apoio de setores nacionalistas, esquerditas e trabalhistas, o conjunto das reformas a serem desenvolvidas incomodaram grupos mais conservadores do empresariado nacional, das classes médias e dos militares.

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Em plena Guerra Fria, em que a rigidez ideológica posicionada entre o capitalismo e o socialismo tinha grande força, as reformas de base poderiam ser facilmente acusadas de ser uma tentativa de “sovietização” ou “esquerdização” do Brasil. Não por acaso, o anúncio das reformas foram duramente atacadas como o início da formação de uma “república sindicalista” no país.

Se por um lado essas acusações ameaçavam a execução das reformas, João Goulart contava com o expresso apoio de vários setores da sociedade daquela época. Universitários e secundaristas ligados à União Nacional dos Estudantes, o proletariado urbano representado pelo Comando Geral dos Trabalhadores e os trabalhadores rurais vinculados às Ligas Camponesas eram os setores que expressavam simpatia pela aplicação das Reformas de Base.

No dia 13 de março de 1964, o estopim dessa crise aconteceu com a organização do Comício da Central do Brasil. Neste evento, ocorrido no Rio de Janeiro, Jango reafirmou publicamente o compromisso de estabelecer a execução das reformas. Foi a partir daí que setores contrários se articularam para que o conjunto de mudanças fosse impedido. Por meio de passeatas, publicações e discursos, as forças militares já contrárias a Jango tiveram o apoio suficiente para deflagrar o Golpe Militar, no dia 31 de março daquele mesmo ano.


Por Rainer Gonçalves Sousa
Colaborador Brasil Escola
Graduado em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG
Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG

A organização do Comício da Central do Brasil em que João Goulart reafirmou a execução das reformas de bases foi o estopim para o Golpe Militar
A organização do Comício da Central do Brasil em que João Goulart reafirmou a execução das reformas de bases foi o estopim para o Golpe Militar
Publicado por: Rainer Gonçalves Sousa
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