Sociedade feudal
A sociedade feudal é um conceito complexo que abrange os modos de condução social, política e econômica praticados no decorrer de grande parte da Idade Média. O seu processo de formação foi lento e não se tornou homogêneo por toda a Europa, embora abrangesse grande parte das sociedades medievais e atingisse seu ápice apenas entre os séculos X e XIII, criando-se uma estrutura complexa e frágil entre clero, nobreza e trabalhadores (servos, camponeses livres, artesãos, entre outros). A definição desse modelo de sociedade, no entanto, é bem específica e constituía-se de práticas e de costumes como a vassalagem, o colonato, a corveia, a talha, entre outros.
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Resumo sobre a sociedade feudal
- A sociedade feudal foi uma estrutura social, política e econômica predominante na Europa durante parte da Idade Média, embora ela não tenha sido homogênea em todo o continente nem tenha durado igualmente em todos os lugares.
- Sua formação foi gradual: seus primeiros fundamentos surgiram durante a crise do Império Romano, mas passou a se consolidar apenas entre os séculos IV e VIII, atingindo o auge apenas na transição entre Alta Idade Média e Baixa Idade Média.
- A estrutura da sociedade feudal era extremamente delicada, consolidada pela fragilidade das monarquias e pela consequente organização política descentralizada. A Igreja Católica, por sua vez, tornou-se a instituição mais poderosa da Idade Média.
- A agricultura tornou-se a base econômica desse modelo de sociedade, praticada em grande parte por servos que eram obrigados a colaborar com a corveia (trabalho gratuito), com a talha (taxa de produção), entre outros.
- Os vassalos eram nobres que recebiam terras de seus suseranos a fim de administrá-las e de extrair suas riquezas, ligados pela lealdade e pela obediência para com os seus senhores.
- A relação entre clero e nobreza sempre foi baseada nas negociações para que houvesse um equilíbrio de poder, criando-se uma estrutura social complexa e oscilatória entre ambas as camadas.
- Apesar de o clero deter o controle espiritual sobre as sociedades feudais, eram os nobres quem possuíam o poder militar. No entanto, eram os servos e os camponeses que sustentavam as demais classes por meio dos trabalhos ligado às terras.
O que era a sociedade feudal?
A sociedade feudal é atualmente reconhecida como a estrutura social, política e econômica que se formou na Europa na primeira metade da Idade Média (período da História que abrange do século V ao XV).
Por “feudal”, entende-se que essa sociedade era convencionalmente constituída de características próprias, como as relações em torno dos feudos (propriedades de território), a divisão social entre servos e camponeses, nobreza e clero, a fragilidade do poder monárquico, a relação entre suseranos e vassalos e um sistema econômico de trabalho ligado aos mansos.
No entanto, a sociedade feudal não surgiu “da noite pro dia”. Pelo contrário, os primeiros atributos de sua construção remetem provavelmente ao século III d.C., durante a iminente crise do Império Romano e momentos finais da Idade Antiga. Porém, ela só passou a ser formada, realmente, entre os séculos IV e VIII, incentivada por um forte processo de êxodo rural e de diminuição da mão de obra escrava, o que acabou gerando sociedades rurais de subsistência dependentes das terras herdadas pela nobreza. Finalmente, o ápice da sociedade feudal ocorreu entre os séculos X e XIII, apesar de muitas vezes ser erroneamente considerada como a única estrutura social, política e econômica vigorada durante a Idade Média.
Características da sociedade feudal
A sociedade feudal tem como principais características:
- Vassalagem e suserania: Os vassalos, no contexto do feudalismo, eram os nobres relacionados a um suserano por meio de um contrato social. Ou seja, o suserano era quem concedia a propriedade territorial a um nobre de menor influência, mas exigia a sua fidelidade, geralmente em tempos de guerra. Nesse caso, o vassalo apoiava o seu suserano por meio da concessão de seus exércitos ou de qualquer outra demanda de seu senhor. Era comum que um vassalo fosse ao mesmo tempo um suserano, e assim sucessivamente, de forma que a autoridade máxima da suserania era geralmente desempenhada pelo rei.
- Soberania católica: A Igreja Católica tornou-se a instituição mais poderosa da Idade Média, abrangendo a maioria de suas riquezas (por meio de impostos, de espólios etc.) e detendo a maior parte das terras do continente. Apesar de a nobreza exercer a soberania militar sobre os Estados, a interdependência entre essa classe e o clero configurava um equilíbrio de forças, de forma que os reis eram geralmente legitimados pelas autoridades da Igreja antes de assumirem o cargo.
- Estados fragmentados: No contexto da Alta Idade Média, ainda não se pode pensar em um rei soberano que comanda um grande Estado. Pelo contrário, no feudalismo, o mapa da Europa parecia mais o que muitos historiadores medievalistas chamam de “colcha de retalhos”: Estados fragmentados, frágeis, constantemente em atrito uns com os outros. Como consequência desta fragmentação, era comum que as fronteiras entre os Estados, no feudalismo, fossem alteradas diariamente.
- Colonato, comitatus e beneficium: Esses três conceitos foram herdados de costumes da Antiguidade: o colonato, transmitido dos romanos que migraram para os campos, era uma espécie de contrato social estipulado entre os camponeses e o proprietário de terras, em que o trabalhador era obrigado a pagar uma porcentagem de sua produção para o senhor daquele espaço rural. Já o comitatus e o beneficium eram práticas germânicas que constituíam, respectivamente, no conceito de lealdade pessoal a um líder (inclusive no ato de dividir espólios de guerra) e na doação de terras por parte de um chefe militar a seus combatentes.
- Corveia e talha: As duas eram obrigações que os trabalhadores tinham para com o senhor feudal. Enquanto a corveia significava a imposição de prestar serviços exclusivos ao senhor feudal por três dias semanais, a talha consistia na taxa de produção que o trabalhador era obrigado a destinar também ao senhor feudal — geralmente, cerca de 50% do total.
- Mansos: Eram a base econômica do feudalismo, pois consistiam nas áreas agrárias sob posse do senhor feudal. Havia três tipos de mansos: o manso senhorial, constituído pelas melhores terras, destinados exclusivamente ao senhor feudal (e onde também os servos praticavam a corveia); o manso comunal, de uso comum para os servos, que podiam extrair sua madeira, frutos e afins (exceto a caça, que era exclusivamente praticada pelos senhores); o manso servil, onde os servos exerciam o seu trabalho básico e colhiam o necessário para a talha e para a própria subsistência.
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Como era dividida a sociedade feudal?
A sociedade feudal é muitas vezes apresentada em três camadas sociais bem definidas: o clero no topo, a nobreza no intermédio e os camponeses e servos abaixo dos demais. Na França, alguns intelectuais desse período discursavam a favor da Teoria das Três Ordens, na qual Deus havia definido a sociedade em partes: os oratores (aqueles que oram – clero), os bellatores (aqueles que lutam – nobreza) e os laboratores (aqueles que trabalham – camponeses, servos e outros).
No entanto, essa redução da complexa sociedade feudal pode ser problemática, se for encarada de maneira literal, já que a sociedade feudal não era, necessariamente, dividida por camadas nítidas e concretas. A relação entre o clero e a nobreza, por exemplo, ocorria por forma de apoio mútuo e de constante negociação, geralmente para se configurar um equilíbrio de poder entre ambos. Muitas vezes, dependendo do contexto em que coexistiam, revezavam-se no topo do poder.
No entanto, se pudermos resumir esta relação de poder entre as camadas sociais do feudalismo, é preferível compreendermos que o topo simbólico era ocupado pelo clero. Isso se deve à propagação do cristianismo como instituição religiosa, que detinha o poder sobre os demais — inclusive os nobres — devido ao seu discurso monopolizador de espiritualidade e intelectualidade.
Além disso, no processo de consolidação do sistema feudalista, as monarquias ainda eram muito fragilizadas e descentralizadas, diferentemente da constituição do que se tornariam os Estados Modernos. Em outras palavras, a nobreza detinha a maior força física sobre a sociedade, mas era impelida a se submeter à Igreja Católica por necessitar da aprovação espiritual das autoridades da instituição.
Se o clero era responsável pela fé, e a nobreza era responsável pela guerra, a mão de obra essencial para a sociedade feudal era exercida pelos trabalhadores do campo. Esse trabalho era geralmente praticado por camponeses ou servos, que eram pessoas eram ligadas à terra por uma relação de obediência ao senhor feudal, que detinha a posse das terras.
Pirâmide da sociedade feudal
Exercícios resolvidos sobre sociedade feudal
Questão 1
(Unemat)
“O feudalismo se desenvolveu em um longo processo de desagregação do antigo Império Romano. Os motivos foram muito variados, indo desde a subjugação de povos de diferentes culturas, até mesmo a incapacidade de administração e usurpação do poder. Estes fatores juntos contribuíram para a crise e a queda do Império, dando origem a um novo sistema, o feudalismo.”
PEDRO, Antonio. História do Mundo Ocidental. São Paulo: FTD, 2005.
O feudalismo é um sistema social baseado na existência de diferentes divisões sociais, em que as classes predominantes eram:
A) Senhores feudais proprietários das terras e os servos trabalhadores das terras e que pagavam impostos para os senhores feudais, em conformidade com sua produção agrícola e a utilização de benfeitorias existentes nas terras dos senhores.
B) Patrícios grandes proprietários de terras e os plebeus trabalhadores rurais que possuíam pequenas propriedades, eram artesãos ou comerciantes e não possuíam participação política.
C) Capitalistas proprietários do comércio e da indústria, e de outro lado os operários que vendiam seu trabalho em troca de salário.
D) Os reis donos das terras e de exércitos que controlavam a política e a economia e de outro lado havia os súditos, pessoas que não possuíam bens, trabalhavam nas propriedades reais em troca de proteção e parte da produção agrícola.
E) Reis proprietários das terras e controladores do mercado e da política, e os comerciantes, nobres possuíam recursos, mas não tinham acesso a política.
Resolução:
Alternativa A.
As relações de poder entre os nobres e os servos eram mantidas por meio do trabalho, concedido pelos senhores feudais em troca de serviços como a corveia e a talha.
Questão 2
(Enem - Adaptada) “A casa de Deus, que acreditam uma, está, portanto, dividida em três: uns oram, outros combatem, outros, enfim, trabalham. Essas três partes que coexistem não suportam ser separadas; os serviços prestados por uma são a condição das obras das outras duas; cada uma por sua vez encarrega-se de aliviar o conjunto… Assim a lei pode triunfar e o mundo gozar da paz.”
ALDALBERON DE LAON, In: SPINOSA, F. Antologia de textos históricos medievais. Lisboa: Sá da Costa, 1981.
A ideologia apresentada por Aldalberon de Laon foi produzida durante a Idade Média. O objetivo de tal ideologia está em:
A) Justificar a dominação estamental
B) Subverter a hierarquia social
C) Impedir a igualdade jurídica
D) Controlar a exploração econômica
E) Questionar a ordem divina
Resolução:
Alternativa A.
A dominação estamental foi uma teoria criada por intelectuais da Idade Média para impor e para justificar a estratificação social, mantendo-se, assim, os privilégios da nobreza e do clero e diminuindo a probabilidade de se formarem revoltas criadas pelas camadas mais baixas.
Créditos de imagem
[1] Hegodis / Wikimedia Commons (reprodução)
[2] Paradox Development Studio / Wikimedia Commons (reprodução)
Fontes
BROWN, Elizabeth A. R. The Tyranny of a Construct: Feudalism and Historians of Medieval Europe. The American Historical Review. Oxford: Oxford University Press, v.79, n.4, p.1063-1088, 1974.
BLOCH, Marc. A Sociedade Feudal. São Paulo: Edipro, 2016.
DUBY, Georges. As Três Ordens ou o Imaginário do Feudalismo. Lisboa: Estampa, 2002.
REYNOLDS, Susan. The Problem of Feudalism. Fiefs and Vassals: The Medieval Evidence Reinterpreted. Oxford: Oxford University Press, p.1-16, 1994.