Antifascismo

O antifascismo é uma forma de agir de movimentos políticos que decidem lutar contra o avanço do fascismo e da extrema-direita. O antifascismo surgiu no período entreguerras, quando o fascismo avançava na Itália e o nazismo avançava na Alemanha. A partir de então, outras experiências antifascistas formaram-se na Europa. Atualmente, o antifascismo luta contra o avanço do neofascismo, sobretudo por meio do populismo de direita.

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Entendendo o antifascismo

O antifascismo é uma forma de ação que movimentos políticos adotam para combater o fascismo e a extrema-direita.[1]
O antifascismo é uma forma de ação que movimentos políticos adotam para combater o fascismo e a extrema-direita.[1]

O antifascismo deve ser entendido como uma forma de agir pela qual um movimento político formado por indivíduos da sociedade propõe-se a lutar contra o avanço do fascismo na política e sociedade. Os pesquisadores Acácio Augusto e Matheus Marestoni definem o antifascismo como uma política nada liberal que, por meio da revolução social, promove o combate não só aos fascistas, mas também a toda a política da extrema-direita|1|.

Os antifascistas em geral possuem ligações ideológicas com os anarquistas, socialistas e comunistas, além de utilizarem-se da ação direta como forma de atuação. A ação direta é uma forma de atuação autônoma, em que os indivíduos reúnem-se para tratar diretamente de um assunto de forma a propor melhorias para sociedade ou reprimir comportamentos indesejáveis. A ação direta, geralmente, é realizada sem a mediação de grandes partidos políticos.

O antifascismo nasceu no período dos regimes totalitários, quando fascismo e nazismo eram forças na Itália e Alemanha, respectivamente, e serviam de inspiração para outros partidos fascistas surgirem em outros países da Europa, América do Norte e até mesmo no Brasil. Atualmente, o antifascismo possui um foco de atuação maior que o antifascismo do começo do século XX.

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Origem

Como vimos, o antifascismo tem sua origem no seio dos regimes fascistas da Europa, mas o historiador Mark Bray traça como um ponto de partida para o confronto entre esquerdistas e direitistas conservadores a França do final do século XIX, que vivia a tensão do antissemitismo manifestado por conta do julgamento de um capitão judeu chamado Alfred Dreyfus|2|.

Ele tinha sido injustamente preso por divulgar segredos militares para os alemães, e seu julgamento dividiu a sociedade francesa entre antissemitas (ligados a conservadores direitistas) e esquerdistas, que defendiam a inocência do capitão. Assim, pequenos grupos da esquerda formaram-se para desafiar os antissemitas que se manifestavam nesse período.

Oficialmente falando, as primeiras ações antifascistas aconteceram na Itália e Alemanha, exatamente as duas nações que possuíram os maiores regimes fascistas do século XX. Nesse período, ideais fascistas começaram a surgir nesses dois países, influenciados por muitos fatores, que incluíam os ressentimentos com a Primeira Guerra Mundial, a crise econômica, o desejo de expansão imperialista, o temor pelo avanço do socialismo etc.

Esses elementos fizeram com que grupos ultranacionalistas, conservadores, antissemitas e militaristas reunissem-se em pequenas organizações que buscavam arregimentar seguidores. No caso italiano, tivemos o Fascio di Combattimento, grupo que originou o Partido Nacional Fascista, e, no caso alemão, o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães.

O surgimento dos grupos antifascistas nesses locais foi, antes de tudo, uma forma de autodefesa, uma vez que as milícias de fascistas e nazistas agiam com grande violência contra socialistas, comunistas, social-democratas e judeus, por exemplo. No caso italiano, as milícias fascistas eram chamadas de squadristi, também conhecidos como camisas negras, e no caso alemão, elas eram chamadas de sturmabteilung ou SA.

Nos dois contextos, a violência fascista (aqui no sentindo amplo, englobando também os nazistas) foi bem recebida por alguns grupos, como os liberais, que viam na ação dela uma forma de controlar o socialismo. Essa violência voltava-se contra lideranças socialistas, trabalhadores que realizavam greves, instalações socialistas etc.

  • Itália

Mark Bray traz um exemplo de como a violência dos fascistas na Itália acontecia ao falar do caso de Emilio Avon, um líder socialista em Castenaso, na Bolonha|2|. Em março de 1921, ele recebeu uma carta ameaçadora, e, no dia seguinte, sua casa foi invadida e ele foi espancado. Os fascistas deram um aviso de que ele tinha 15 dias para retirar-se da cidade, e Avon assim o fez para preservar a sua segurança e a de sua família.

A violência dos fascistas, muitas vezes, foi apoiada por instituições, como a polícia, o que fazia com que os perseguidos sofressem duplamente. Assim, comunistas, socialistas e anarquistas resolveram reagir ao avanço e à violência fascista. A primeira reação antifascista surgiu na Itália, em 1921, ficando conhecida como Arditi del Popolo.

Essa organização chegou a reunir cerca de 20 mil membros dispostos a confrontar abertamente a violência fascista. O líder era um anarquista chamado Argo Secondari, e o grupo antifascista que ele liderava era formado por socialistas, comunistas, anarquistas e defensores da república.

Os antifascistas da Arditi del Popolo chegaram a agir para impedir que os squadristi realizassem novas ações, mas, no fim das contas, essa resistência fracassou. Em outubro de 1922, Benito Mussolini, líder do fascismo, foi nomeado primeiro-ministro da Itália. Os fascistas no poder voltaram-se não somente contra os antifascistas, mas contra todos que se colocavam contra os seus interesses.

  • Alemanha

O cenário alemão foi muito parecido com o italiano, mas nele a resistência antifascista foi mais consistente e esteve muito ligada a grandes partidos políticos. A década de 1920 na Alemanha foi bastante tensa pelo contexto de crise econômica, crescimento do antissemitismo e militarização da sociedade.

A extrema-direita alemã possuía diversas organizações paramilitares que atuavam perseguindo judeus, socialistas, comunistas e anarquistas. O grande problema do cenário alemão é que até houve certa resistência contra o fascismo, mas as divergências entre os grupos de esquerda contribuíram para enfraquecer a unidade antifascista no país.

Somente a partir de 1929 é que a ação antifascista na Alemanha começou a organizar-se, principalmente porque os nazistas estavam crescendo rapidamente e começaram a invadir bairros de trabalhadores e comunistas para intimidá-los. Em 1930, por exemplo, o Partido Nazista já era o segundo maior da Alemanha.

De 1929 em diante, marchas antifascistas começaram a acontecer na Alemanha e outros grupos antifascistas de anarquistas e sindicalistas iniciaram sua formação. Em 1931, a Aliança dos Combatentes da Frente Vermelha (Roter Frontkämpferbund), ou RFB, na sigla em alemão, passou a atacar tabernas em que os membros da SA reuniam-se.

O atual símbolo antifascista é uma pequena adaptação do símbolo usado pela alemã Antifaschistische Aktion, na década de 1930.
O atual símbolo antifascista é uma pequena adaptação do símbolo usado pela alemã Antifaschistische Aktion, na década de 1930.

No final de 1931, os social-democratas fundaram sua ação antifascista, nomeando-a Frente de Aço. A ação antifascista mais conhecida da Alemanha foi a Ação Antifascista (Antifaschistische Aktion), formada pelo Partido Comunista Alemão. Esse grupo conseguiu reunir uma vastidão de pessoas vinculadas a outras organizações e comitês de esquerda. O foco era reunir pessoas de diferentes classes sociais para formar uma resistência contra os nazistas|2|.

O símbolo do antifascismo moderno deriva do criado pela Antifaschistische Aktion. O símbolo desse grupo alemão da década de 1930 tinha duas diferenças básicas para o atual: as duas bandeiras apontavam para a direita e eram vermelhas. Com o tempo, as bandeiras foram apontadas para a esquerda (para mostrar que o antifascismo é uma ação desse lado político), e a cor de uma delas tornou-se preta (para incluir o anarquismo na simbologia antifascista).

Acesse também: Solução Final – o plano nazista para exterminar os judeus da Europa

Outras experiências antifascistas

“No Pasarán!” (ou Não Passarão!, no português) é o lema usado pelos antifascistas espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola.
“No Pasarán!” (ou Não Passarão!, no português) é o lema usado pelos antifascistas espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola.

No contexto do entreguerras, podem ser destacadas também a resistência antifascista na Espanha e na Inglaterra. No caso espanhol, ela tem relação com o contexto da Guerra Civil Espanhola, que colocou os fascistas (falangistas) ligados a Francisco Franco na luta contra os republicanos, defendidos por socialistas, comunistas e anarquistas.

Nesse conflito, que se estendeu de 1936 a 1939, as forças de Franco receberam auxílio direto de Mussolini, que chegou a enviar tropas para a Espanha, e da Alemanha de Hitler, que enviou armamentos. Essa guerra foi vencida por Franco, mas a resistência antifascista em alguns locais do país, como em Madrid, popularizaram a expressão “Não passarão!” (No pasarón!).

No caso da Inglaterra, os grupos antifascistas organizaram-se para lutar contra o avanço da União Britânica de Fascistas (British Union of Fascists ou BUF, na sigla em inglês), liderados por Oswald Mosley. Os grupos antifascistas na Inglaterra eram formados por judeus, constantemente atacados pela retórica antissemita da BUF, mas também tinha membros de grupos da esquerda.

Esses grupos antifascistas que surgiram na Inglaterra partiram para a ação de confronto direto contra as gangues que os atacavam, e dois momentos significativos marcaram sua história. Primeiro, em setembro de 1934, cerca de 120 mil antifascistas reuniram-se no Hyde Park para impedir um evento fascista.

O outro evento aconteceu em outubro de 1936, quando os fascistas tentaram realizar uma passeata provocativa pelas ruas de East End, um bairro londrino que tinha muitos judeus. Cerca de 100 mil antifascistas, inclusive muitos deles judeus, reuniram-se nas ruas desse bairro para impedir a marcha. Os antifascistas lutaram contra a polícia e os fascistas, forçando a retirada de Oswald Mosley e seu bando.

Esse segundo acontecimento ficou conhecido como Batalha de Cable Street (nome da rua em que a luta aconteceu). O antifascismo no Reino Unido conseguiu barrar o avanço fascista e até mesmo no pós-Segunda Guerra Mundial teve ação significativa.

Leia mais: Panteras Negras - grupo de extrema-esquerda que usa da ação direta para o combate ao racismo

Antifascismo moderno

O antirracismo é atualmente uma das bandeiras que o antifascismo defende.[2]
O antirracismo é atualmente uma das bandeiras que o antifascismo defende.[2]

O antifascismo moderno nasceu no pós-Segunda Guerra Mundial, e Mark Bray categoriza-o em dois momentos: um, que se estendeu de 1945 a 2003, e outro, que surgiu de 2003 em diante|2|. O antifascismo moderno é menos popular que o do período entreguerras, principalmente porque a ameaça fascista é menor.

O antifascismo moderno procura não ter ligação institucional com partidos, e sua atuação passou a posicionar-se não somente contra os grupos fascistas, mas contra todos os grupos de extrema-direita. Além disso, os antifascistas modernos procuram ampliar seus campos de luta incorporando pautas que defendem o antirracismo, o feminismo, a luta contra a homofobia, o anticapitalismo etc.

Na década de 1980, o antifascismo estava diretamente ligado a grupos autonomistas, que defendem a implantação de modelos de autogestão social, e grupos de punks. Com o tempo, outros grupos, como os adeptos do hip-hop, começaram a fazer parte do antifascismo, e até o final da década de 1990, começo do século XXI, a ação direta no sentido do confronto aberto e ocupação dos espaços públicos era muito eficaz no combate ao neofascismo e ao neonazismo.

De 2003 para cá, os grupos antifascistas têm tido alguma dificuldade no combate ao fascismo porque a estratégia dos grupos fascistas mudou radicalmente. As aparições públicas na defesa de slogans e símbolos fascistas começou a dar espaço para uma estratégia que visa à negação desses símbolos, mas que possui um discurso ainda marcado pelo racismo, homofobia, antissemitismo em alguns casos etc.

Isso marcou a ascensão do populismo de direta, um vertente que não necessariamente é fascista, mas que muitas vezes abriga grupos e discursos desse tipo quando há uma radicalização dos conservadores. Esse neofascismo tem avançado significativamente pela Europa, América do Norte e até mesmo América do Sul. Ainda assim, o crescimento do fascismo tem gerado uma reação, e o número de grupos antifascistas nesses locais também tem crescido.

Notas

|1| AUGUSTO, Acácio. MARESTONI, Matheus. Bater onde dói…e com força! In.: BRAY, Mark. Antifa: o manual antifascista. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.

|2| BRAY, Mark. Antifa: o manual antifascista. São Paulo: Autonomia Literária, 2019.

Créditos das imagens

[1] Tinxi e Shutterstock

[2] Madison Muskopf e Shutterstock

Publicado por: Daniel Neves Silva
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