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Revolução Hussita e a crise do catolicismo

A Revolução Hussita teve como ponto de partida a oposição às práticas do clero católico, antecipando em um século as lutas camponesas na Alemanha, no séc. XVI.

Os conflitos sociais na Boêmia no século XV tiveram uma forte influência religiosa e prefiguraram diversos outros conflitos que eclodiriam em outras partes da Europa um século depois com o advento da Reforma Protestante. A Boêmia localizava-se onde hoje é a República Tcheca e incluía, no século XIV, a Morávia, a Silésia e a Alta e a Baixa Lusátia. O nome de Revolução Hussita, que foi dado ao conflito que eclodiu entre 1419 e 1436, referia-se ao teólogo e padre Jan Huss.

Jan Huss, sob a influência de algumas ideias de John Wycliff, havia se oposto à venda de indulgências pela Igreja Católica, defendendo ainda a autoridade da bíblia como a única que deveria ser aceita pelos cristãos e que a comunhão deveria ser realizada através do pão e do vinho e ministrada pelos leigos, e não pelos clérigos da igreja. Por esses posicionamentos doutrinários, Jan Huss foi condenado como herege e morto na fogueira em 1415, durante o Concílio de Constança.

A execução de Huss deixou seus seguidores indignados, iniciando em 1419 o que ficou conhecido como Revolução Hussita. Mas não eram apenas os aspectos religiosos que geraram o conflito. A Boêmia era controlada à época por uma elite católica de origem alemã, enquanto a maior parte da população era de origem tcheca ou eslava. As grandes minas de prata da região, as maiores da Europa, também eram controladas por esses nobres germânicos.

O rei Venceslau IV tentou combater a influência germânica na Boêmia, indicando inclusive Jan Huss para a reitoria da Universidade de Praga, em 1402. Além disso, Venceslau IV permitia uma liberdade de culto no reino, o que gerou uma indisposição com a Igreja Católica e com a nobreza germânica.

Após a morte de Huss, nobres da Boêmia e da Moravia organizaram-se em um congresso e condenaram o Concílio de Constança pela execução do padre de Praga. Não reconheceram ainda as decisões do Concílio, inclusive a eleição do novo papa, Martinho V.

O rei da Hungria e irmão de Venceslau, Segismundo, recebeu do Concílio a permissão para organizar um exército e invadir a Boêmia. Venceslau IV ainda tentou um acordo, pretendendo deixar a população revoltosa fora da praça da cidade.

A própria população de Praga não aceitou a decisão e, liderada por Jan Zizka, invadiu um dos palácios da cidade e lançou pelas janelas os membros do Conselho. Esse evento ficou conhecido como primeira Defenestração de Praga e deu início à Revolução Hussita.

Em 1420, os hussitas criaram uma comunidade que deram o nome de Tabor, em homenagem às várias referências bíblicas ligadas ao monte Tabor. A vida na comunidade era baseada na simplicidade e no fato de que não havia propriedade privada. Era uma forma de realizar os ideais de Jan Huss de uma sociedade justa e com igualdade. Graças ao nome da comunidade, esse grupo de hussitas ficou conhecido como taboritas.

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Os taboritas eram formados em sua maior parte por camponeses defendendo ações radicais, rejeitando os desvios do clero, a pompa dos cultos e aproximando-se de posições apocalípticas de que o fim do mundo estava próximo, em virtude das injustiças sociais vividas, e que um novo reino milenar adviria, onde as riquezas seriam divididas por todos.

Jan Rokycana entregando mensagem de Praga a Jan Zizka, em 1424, em gravura de Venceslav Cerny
Jan Rokycana entregando mensagem de Praga a Jan Zizka, em 1424, em gravura de Venceslav Cerny

Mas eles não eram o único grupo hussita. Havia ainda os utraquistas, que se diziam os verdadeiros intérpretes de Jan Huss. Formados por membros da pequena nobreza e por elementos da burguesia urbana, os utraquistas eram moderados, tinham uma visão mais liberal e, muitos deles, eram ricos.

A unidade entre os dois grupos tinha por objetivo garantir a liberdade da Boêmia frente à ameaça externa. Para isso foi estabelecido um acordo em torno dos Quatro Artigos de Praga, que estabelecia: 1. liberdade para a pregação; 2. comunhão através do pão e vinho; 3. privação das riquezas pelo clero; 4. castigo dos pecados públicos.

Como Segismundo não aceitou os artigos, e com o apoio de Roma, cinco cruzadas foram realizadas contra os hussitas. Sob a liderança de Jan Zizka, que havia perdido parte da visão, os hussitas conseguiram durante 15 anos conter as investidas das tropas católicas. Outro líder taborita que se destacou foi o padre Procópio, o Grande. Os principais motivos para as constantes vitórias dos hussitas eram a fé em um mundo mais justo, a inovação da utilização da infantaria e a criação de fortificações que impediam o avanço da cavalaria do exército comandado por Segismundo.

Entretanto, divisões internas aos hussitas levaram à sua derrota. Os utraquistas aceitaram as conversações com a Igreja Católica e, em 1434, passaram a lutar contra os taboritas, derrotando-os na Batalha de Lipan.

Em 1436, os utraquistas entraram em acordo com Roma, com os católicos aceitando durante certo tempo o compartilhamento das duas práticas cristãs. Entretanto, com a chegada ao papado de Pio II, em 1458, o acordo foi desfeito, tornando o catolicismo a única religião aceita oficialmente na Boêmia.

O interessante nesse processo histórico é perceber que a Revolução Hussita demonstrou a crise que vivia a Igreja Católica ao final da Idade Média e início da Idade Moderna. Além disso, antecipava em um século as rebeliões camponesas que eclodiram na Alemanha após a Reforma Protestante iniciada por Marinho Lutero.

Retrato de Jan Zizka, principal líder dos hussitas
Retrato de Jan Zizka, principal líder dos hussitas
Publicado por: Tales dos Santos Pinto
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