Clareza textual

Clareza textual é uma qualidade de textos de fácil entendimento. Um texto não literário precisa ser claro, pois ele apresenta uma utilidade específica. Já um texto literário, como uma poesia, pode ser ambíguo e cheio de hipérbatos. O duplo sentido e as inversões na estrutura da frase fazem a poesia ser um objeto de interpretação artística.

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No entanto, textos como manual de instrução, relatório e notícia, por exemplo, precisam apresentar clareza textual para cumprirem sua função e serem úteis. Textos concisos, coesos e coerentes permitem a clareza textual. Além disso, é preciso usar palavras comuns, de conhecimento geral e considerar o conhecimento de mundo do receptor da mensagem.

Leia também: Afinal, o que é um texto?

Resumo sobre clareza textual

  • A clareza textual é um dos elementos que possibilita o entendimento rápido e completo de um texto.

  • A concisão textual é o que caracteriza um texto direto, curto, exato, de poucas palavras, e, portanto, pode tornar tal texto mais claro.

  • A ambiguidade é a presença de termos com mais de um sentido e, portanto, pode prejudicar a clareza textual: “planta”, “manga”, “vela”, “pena” etc.

  • A coesão é a ligação entre elementos de um texto: “Comprei os remédios, os quais foram indicados pela minha médica.”.

  • A coesão auxilia na coerência (sentido de um texto), pois possibilita a clareza textual.

  • Usar palavras comuns e termos sem ambiguidade, evitar hipérbatos e conhecer o gênero textual ajudam a construir a clareza textual.

Imagem explicando o que é clareza textual e mostrando exemplos.
A clareza textual é uma qualidade de textos legíveis. (Créditos: Isa Galvão | Mundo Educação)

O que é clareza em um texto?

A clareza textual é uma qualidade que permite o rápido entendimento de um texto pelo leitor. Ela é obtida por meio de mecanismos ou de ações que tornam o texto compreensível. Um texto claro é aquele que expressa objetivamente uma informação, uma opinião, uma instrução, uma descrição ou uma narração, sem tomar muito tempo do leitor.

É importante destacar que a clareza é uma qualidade essencial de textos funcionais, ou seja, aqueles que têm uma utilidade específica. Por exemplo, imagine que você queira fazer um bolo, mas a receita não é clara. Muito provavelmente você vai desistir de fazer o bolo ou vai criar sua própria receita.

Porém, não espere clareza em um texto poético, pois você não necessariamente vai encontrar! A poesia não trabalha com clareza, mas com o sentido figurado e com a ambiguidade. Assim, a clareza não é uma característica típica de textos literários ou artísticos, mas, sim, de textos funcionais e utilitários. Afinal, se você lê uma notícia, por exemplo, você quer uma informação clara, não um texto que exija uma análise interpretativa.

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Exemplos de clareza textual

Para você perceber a clareza textual, é preciso ver também a situação oposta, isto é, um texto sem clareza. É isso que vou mostrar para você no quadro abaixo.

Ausência de clareza textual

Presença de clareza textual

Explicação

Isto foi o que Elvira disse para o amigo, que sairia à noite.

Isto foi o que Elvira disse para o amigo, que ela sairia à noite.

Ao explicitar o pronome “ela”, fica claro que Elvira sairia à noite e não o seu amigo.

Bateu no rapaz com o livro.

Com o livro, bateu no rapaz.

Ao colocar, no início da frase, o instrumento usado para agredir o rapaz, a ambiguidade é desfeita: não era o rapaz que estava com o livro, mas a pessoa que bateu no rapaz é que estava com o livro.

Júlia a amiga apoiou.

Júlia deu apoio à amiga.

Ao usar a expressão “deu apoio”, é inevitável o uso da crase, que deixa bem claro que o alvo do apoio é a amiga e não Júlia.

Ela ficou apaixonada por aquele gato.

Ela ficou apaixonada por aquele homem, que era um gato.

Ao explicitar que o “gato” é um homem, evita-se a ambiguidade, pois, na primeira frase, não sabemos se a pessoa é apaixonada pelo animal gato ou por um homem bonito.

Pega aquele livro para mim, por favor.

Pega aquele livro que está debaixo do livro de matemática, por favor.

Ao explicar qual livro está solicitando, o enunciador da frase torna seu discurso mais claro. Do contrário, seu interlocutor não saberia que livro pegar, já que há mais de um.

Mãe, a Deise não quer pegar sua lista de presentes para mim.

Mãe, a Deise não quer pegar lista de presentes dela para mim.

Ao usar “dela”, em vez de “sua”, fica claro que a lista é da Deise e não da mãe.

Clareza e concisão textual

O texto conciso é um texto preciso, exato, direto, curto, de poucas palavras. Quando um texto conciso está bem estruturado, apresenta clareza. Afinal, quando você coloca muita informação desnecessária, isso pode confundir o leitor, pois tira a sua atenção da mensagem principal.

Portanto, frases longas, informações óbvias e desnecessárias e repetições sem importância, acabam impedindo a comunicação direta daquilo que realmente importa. O ideal é que o leitor logo descubra o que o enunciador quer comunicar, mas é claro que isso está relacionado ao objetivo do texto.

Se você for ler, por exemplo, um romance russo do século XIX, vai perceber que os autores são prolixos, que adoram detalhes e que não são nada concisos. Textos didáticos e acadêmicos (teses e dissertações, por exemplo) também são bastante detalhados. Já uma notícia deve ser concisa, pois o leitor quer a informação rápida e não o suspense de um romance.

A concisão também é esperada em um bilhete, em uma receita culinária e em uma mensagem de WhatsApp, para citar alguns exemplos. Então, quando você está escrevendo um texto, vale a pena perguntar: preciso falar disso? Se a informação não é importante, é melhor deixar de lado e ir direto ao ponto.

Veja um exemplo de texto prolixo:

Não fui à consulta hoje, infelizmente, pois eu estou com uma sensibilidade nos dentes que está me incomodando muito. Pensei que isso já estivesse resolvido, mas a sensibilidade voltou de novo depois de eu comer algumas uvas, não sei se tem alguma relação. Mas acordei atrasado. Tinha marcado a consulta para ver se é preciso uma limpeza, mas agora com a sensibilidade, é outro problema.

Porém, o objetivo do enunciador era simplesmente dizer:

Não fui à consulta, pois acordei atrasado.

A secretária da dentista, ao receber essa mensagem, imagina que o paciente está sofrendo muito com a sensibilidade e, por isso, ele quer remarcar com urgência:

Acho que consigo um horário para você hoje no final da tarde.

E ele responde:

Não é urgente, é só um incômodo. Remarque para a semana que vem, por favor.

Clareza textual e ambiguidade

A ambiguidade prejudica a clareza textual. Isso porque uma frase ambígua é aquela que apresenta mais de um sentido. Então, o uso de palavra polissêmica (com mais de um sentido) pode provocar ambiguidade:

A letra não me agradou.

Não gostou da minha caligrafia?

Não, estou falando sobre a letra de música.

O uso de hipérbatos (inversões da ordem natural das frases) também gera ambiguidade:

O menino olhava o cão.

Quem olhava quem? Quem é o sujeito (elemento que pratica a ação) e quem é o objeto (elemento que completa o sentido do verbo)? Porém, se escrevermos “Ao menino olhava o cão.”, eliminamos a ambiguidade por meio do uso de objeto direto preposicionado. O objeto direto é o complemento de um verbo, no caso, o verbo “olhar”.

Ele é direto porque não é iniciado por preposição. No entanto, para eliminar a ambiguidade, podemos colocar a preposição “a” antes do objeto direto, de forma a destacar tal objeto:

Ao menino olhava o cão.

Note que há inversão da ordem natural da frase. Em vez de sujeito + verbo + complemento verbal, a frase utilizou esta estrutura: complemento verbal + verbo + sujeito.

Pronomes possessivos também podem causar ambiguidade:

Augusto, quando conheci o Jonas, seu cachorro não parava de latir, você se lembra?

Afinal, de quem é o cachorro? De Augusto ou de Jonas? É melhor esclarecer a situação:

Augusto, quando conheci o Jonas, o cachorro dele não parava de latir, você se lembra?

Isso não quer dizer que você não pode usar uma palavra polissêmica, um hipérbato ou um pronome possessivo. Você só precisa ter atenção no uso desses recursos linguísticos, os quais devem estar bem contextualizados para não gerar ambiguidade.

Clareza, coesão e coerência

A coesão e a coerência contribuem para a clareza textual. Isso porque a coesão é a ligação entre componentes de um texto, o que permite que tudo fique conectado. Nós professores gostamos de dizer: de forma que tudo fique “amarradinho”.

Veja esta frase:

Minha sócia e meu filho são casados. Ela está de férias, enquanto ele continua trabalhando.

Os pronomes “ela” e “ele” são elementos coesivos, pois retomam as expressões “minha sócia” e “meu filho”, sem que o enunciador precise repetir tais expressões.

O mesmo ocorre em:

Ele criticou minha tese de doutorado, a qual recebera menção honrosa.

Assim, o pronome relativo “a qual” retoma a expressão “tese de doutorado”.

Tais mecanismos coesivos permitem que o texto fique coeso, ou seja, com os elementos bem conectados, e possibilitam também a coerência do texto, ou seja, possibilitam a construção de sentido do texto. No entanto, a coerência também depende de elementos extralinguísticos.

Por exemplo, se digo para você que “Pagu morreu em 1962.”, mas você não sabe que Pagu foi uma escritora brasileira, o sentido da frase fica comprometido. Portanto, o conhecimento de mundo de quem lê também é responsável pela construção de sentido do texto.

Enfim, um texto coeso e coerente contribui para a clareza textual. Pois a coesão e a coerência fazem com que o texto seja legível, isto é, compreensível. Daí a importância de dominar as regras da gramática normativa e de possuir conhecimentos linguísticos.

Confira também: Textualidade — o conjunto de elementos necessários em toda produção textual

Dicas para clareza textual

  • Siga as regras da gramática normativa, pois elas existem para uniformizar a língua, evitando desvios que podem gerar falta de clareza. Por exemplo, se, em um bilhete, alguém escreve, sem vírgula, “Espero todos para estudar colegas.”, o termo “colegas” é tratado como objeto de estudo, quando na verdade devia fazer referência aos interlocutores do bilhete: “Espero todos para estudar, colegas.”.

  • Utilize palavras de fácil entendimento, comuns, de uso geral, pois nem todo mundo sabe o que é, por exemplo, “apropinquar” (aproximar) ou “cominar” (ameaçar com pena ou com punição). O objeto do texto deve ser a comunicação e não mostrar que você tem um extenso vocabulário linguístico.

  • Evite hipérbatos, ou seja, use, por exemplo, “Os novos clientes não compraram nada.”, em vez de “Nada não compraram os novos clientes.”. As inversões, muito bem-vindas em poesia, não devem ser usadas em texto funcional, o qual busca comunicar algo de forma clara.

  • Não utilize palavras ou frases com duplo sentido, como, por exemplo, “Vovô está no banco.”. Ele está sentado em um banco ou foi pegar dinheiro? Especifique: “Vovô está sentado no banco.” ou “Vovô foi buscar dinheiro no banco.”.

  • Expresse suas ideias com exatidão, preocupando-se em não deixar o interlocutor com dúvidas. Por exemplo, em vez de dizer ou de escrever “Peça para Rosa falar comigo.”, é melhor ser específico: “Peça para Rosa falar comigo, na sala de reunião, às duas da tarde.”.

  • Evite a prolixidade ou a redundância, pois a mensagem direta e sucinta cumpre o seu papel de comunicar. Por exemplo, a frase “Sigmund Freud foi um psicanalista austríaco.” pode ser suficiente, a não ser que o objetivo de seu texto seja fazer uma biografia dele. Porém, se essa informação é apenas acessória no texto, não há necessidade de detalhes.

  • Fique atento ao uso dos pronomes possessivos “seu” e “sua” para não gerar ambiguidade. Por exemplo, na frase “Professora, Pedro disse que seu livro ficou sobre a mesa.”, não está claro de quem é o livro que está sobre a mesa.

  • Especifique, não use expressões genéricas como “Entregue o relatório o mais rápido possível.”. Se quer uma resposta, especifique quando. Do contrário, o relatório pode ser entregue hoje ou daqui a uma semana.

  • Ao colocar alguma referência externa, seja colaborativo, pois o leitor pode não conhecer tal referência. Por exemplo, se você menciona, em um texto, o nome Audrey Tautou, deve explicar que ela é uma atriz francesa, pois nem todo mundo a conhece.

  • Conheça a estrutura e as características do gênero de texto que você está produzindo. Afinal, se você escrever um relatório como se fosse um poema, o leitor vai ficar confuso, sem saber se aquilo é um documento informativo ou uma obra de arte.

  • É preciso prever o destinatário de sua mensagem e qual é o repertório (conhecimento de mundo) dessa pessoa. Se o destinatário é alguém da área de Psicologia, por exemplo, você pode usar termos técnicos em um texto sobre o assunto. No entanto, se é um leigo, é preciso usar um vocabulário geral, menos específico, algo que todos podem entender.

Exercícios resolvidos sobre clareza textual

Questão 1

Assinale a alternativa que apresenta texto com clareza textual.

A) O professor informou ao aluno que sua nota era dez, o que o deixou muito feliz.

B) A costureira viu sua irmã na rua com a amiga que ela não via fazia muito tempo.

C) Apesar do meu empenho, não consegui impedir as inúmeras críticas ao meu projeto.

D) Julieta e Amanda não estudaram para a prova, entretanto tiraram nota zero.

Resolução:

Alternativa C.

Na alternativa A, não sabemos quem ficou feliz, se foi o professor ou se foi o aluno, nem sabemos o motivo da felicidade, se foi o ato de o professor informar ou se foi a nota dez. Na alternativa B, não sabemos de quem é a amiga, se é da costureira ou se é da irmã da costureira. Na alternativa D, o uso de “entretanto” indica oposição, mas tirar nota zero não se opõe a não estudar.

Questão 2

Analise estas frases:

I- Lúcia estava com Vânia em sua casa.

II- Derciane pediu que Carla pegasse seu paletó.

III- Querida, entreguei o bilhete à sua mãe.

Apresenta(m) clareza textual a(s) frase(s):

A) I apenas.

B) II apenas.

C) III apenas.

D) I e III apenas.

E) I, II e III.

Resolução:

Alternativa C.

Na frase I, não sabemos se a casa é de Lúcia ou de Vânia. Na frase II, não sabemos se o paletó é de Derciane ou de Carla. Por fim, na frase III, fica claro que a mãe é da interlocutora do enunciador da frase.

Fontes

CEGALLA, Domingos Paschoal. Novíssima gramática da língua portuguesa. 49. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2020.

GUIMARÃES, Elisa. A articulação do texto. 10. ed. São Paulo: Ática, 2011.

KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 22. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. 3. ed. São Paulo: Contexto, 2010.

KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual. 12. ed. São Paulo: Contexto, 2001.

BLIKSTEIN, Izidoro. Técnicas de comunicação escrita. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2019.  

Escritor do artigo
Escrito por: Warley Souza Professor de Português e Literatura, com licenciatura e mestrado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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