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Genocídio e etnocídio

O genocídio e o etnocídio, embora diferentes, estão relacionados, pois o primeiro trata do extermínio sistemático de um povo, enquanto o segundo é o extermínio de uma cultura.

A história humana está marcada por eventos de encontros e confrontos entre grupos com diferentes etnias e culturas. Esses embates moldaram nossa história e influenciaram em grande parte a organização territorial, política e cultural que temos hoje. O exemplo mais próximo que temos é o processo de colonização europeu que os países do continente americano sofreram. Os colonizadores europeus que chegaram às novas terras encontraram povos de línguas e costumes completamente diferentes dos seus. Mas como a prioridade não era o intercâmbio cultural, e sim o domínio sobre as riquezas do novo território, o confronto foi inevitável. Como bem sabemos, os confrontos que ocorreram no decorrer do processo de colonização tiveram um único resultado: os colonos conseguiram o que procuravam e os habitantes locais encontraram apenas a morte e a destruição de sua cultura.

O ato de destruir, por meio do assassinato em massa de um grupo humano ou etnia, é denominado genocídio. Já o ato de destruir qualquer traço remanescente de uma cultura, seja material, como símbolos ou obras artísticas que possuem representação cultural, seja imaterial, como uma língua ou uma crença religiosa, é denominado etnocídio ou genocídio cultural. O etnocídio, no entanto, não precisa ser necessariamente planejado para que ocorra, já que o processo de aculturação vivido por um povo sob o domínio de outro pode enfraquecer costumes e crenças “originários” daquela população.

Apesar de ter sido uma prática relativamente comum no decorrer de toda a historia humana, é na história mais recente que temos os exemplos mais claros e mais bem documentados.

Alguns exemplos de genocídios e etnocídios na modernidade:

  • Genocídio e etnocídio armênio

O primeiro ato de genocídio em nossa história moderna aconteceu durante a Primeira Guerra Mundial quando o ainda existente Império Otomano (hoje conhecido como República da Turquia), após uma desastrosa campanha contra a Rússia, responsabilizou o povo armênio por sua derrota, já que uma parte da população armênia voluntariou-se para lutar pelo exército russo com a esperança de ganhar a sua independência.

Entre os anos de 1915 e 1920, o governo Otomano colocou em prática um plano para desarmar, isolar e tomar os bens da população armênia sob o pretexto de que eles eram traidores e donos de uma cultura vil e naturalmente degenerada. As propagandas turcas tinham a intenção de dessensibilizar o restante da população para o sofrimento do povo armênio, que agora era forçado a abandonar as suas casas e era enviado a campos de concentração a céu aberto, nas áreas do deserto da Mesopotâmia, sem comida, água e nenhuma forma de estrutura básica. Eles eram então torturados, assassinados ou deixados para morrer de fome. Estima-se que durante o período cerca de 1,5 milhão de armênios foram mortos no genocídio sistematizado pelo então Império Otomano. As propriedades deixadas para traz pelas vítimas armênias foram confiscadas e vendidas, e seus livros foram descartados ou destruídos. As memórias do povo armênio foram destruídas da mesma forma que os seres humanos que faziam parte dela. O genocídio foi acompanhado do etnocídio.

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Um dos mais de 25 campos de concentração a céu aberto, onde dezenas de milhares de armênios foram assassinados
Um dos mais de 25 campos de concentração a céu aberto, onde dezenas de milhares de armênios foram assassinados

  • Holocausto

Foi durante a Segunda Guerra Mundial que o maior e mais bem documentado genocídio aconteceu. O assassinato em massa de mais de 20 milhões de pessoas, entre eslavos, ciganos, judeus, comunistas, deficientes e homossexuais, foi um dos maiores atos de assassinato sistemático já vistos até hoje. Em meio à “Solução Final” de Hitler, estava a destruição da memória e do patrimônio cultural dos povos vítimas do seu plano de “limpeza étnica”. Novamente um ato do genocídio era acompanhado do etnocídio.

Genocídios no Brasil

No Brasil também temos exemplos de genocídios e etnocídios. O maior deles está relacionado com a abordagem do Estado com a população indígena, que, no decorrer da história do país, foi perseguida, retirada de suas terras e destituída de qualquer direito sobre a própria cultura. Estima-se que durante o período colonial cerca de cinco milhões de índios viviam no território brasileiro. Atualmente, segundo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE, a população indígena é de pouco mais de 800 mil pessoas. Os trabalhos realizados pelo governo, a partir da Constituição de 1988, ganharam alguma força nos últimos anos, e órgãos como a Fundação Nacional do Índio (Funai), criada em 1967, que tem como função “ proteger e promover os direitos dos povos indígenas no Brasil”, serviram para mediar e representar as necessidades da população indígena.

Outro exemplo, mas menos conhecido, é o episódio chamado de “holocausto brasileiro”, em que mais de 60 mil internos do “Hospital Colônia de Barbacena”, localizado em Barbacena, Minas Gerais, morreram vítimas de negligência, fome e maus-tratos físicos e psicológicos. O caso veio a público e ganhou grande repercussão em 2012 por meio da jornalista Daniela Arbex, autora do livro “O holocausto brasileiro”, que reconta os sofrimentos e os acontecimentos que resultaram na morte dos pacientes internados no hospício “Colônia”.

Crianças vítimas do genocídio armênio
Crianças vítimas do genocídio armênio
Publicado por: Lucas de Oliveira Rodrigues
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