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Indústria cultural

Indústria cultural é um fenômeno do capitalismo ligado à manipulação do desejo e do consumo das pessoas por meio da grande mídia. O termo tem origem na Escola de Frankfurt.
Adorno (à esquerda) e Horkheimer (à direita), teóricos que deram origem ao conceito de indústria cultural.
Adorno (à esquerda) e Horkheimer (à direita) criticaram a massificação das produções culturais na contemporaneidade.[1]

Indústria cultural é um conceito elaborado pela Escola de Frankfurt e se refere a um fenômeno característico do capitalismo e presente nas sociedades industriais do século XIX: a criação de um mercado consumidor de bens culturais.

Apesar da herança marxista dos seus membros, o objetivo da escola era produzir estudos interdisciplinares, e a teoria crítica que pretendeu elaborar esteve influenciada por propostas psicanalíticas e fatores culturais. A expressão “indústria cultural” foi utilizada originalmente em Dialética do esclarecimento (1947), obra de Theodor Adorno e Max Horkheimer, com colaboração de outros membros.

Leia mais: Jürgen Habermas — grande intelectual do século XX ligado à Escola de Frankfurt, estudou a relação entre democracia e comunicação

Resumo sobre indústria cultural

  • A indústria cultural é um fenômeno relacionado ao capitalismo e seu modo de manipulação da sociedade por meio da grande mídia.

  • É um conceito que foi elaborado pelos pensadores da Escola de Franfurt, durante o século XX.

  • Theodor Adorno e Max Horkheimer, representantes da Escola de Frankfurt, cunharam a expressão, utilizada, pela primeira vez, na obra Dialética do esclarecimento.

  • De acordo com os teóricos da indústria cultural, esta se baseia na popularização da cultura tendo em vista o lucro.

  • A expressão “cultura de massa” foi usada em rascunhos sobre o tema, mas, para a publicação da obra de Adorno e Horkheimer, foi escolhido o termo “indústria cultural”.

  • Atualmente, os estudos que envolvem sociedade, comunicação e cultural continuam e têm em análise outros meios utilizados pela indústria cultural, como a internet.

Videoaula sobre indústria cultural

O que é indústria cultural?

Indústria cultural é um fenômeno relacionado com as mudanças trabalhistas e a introdução de novidades tecnológicas nos meios de comunicação do final do século XIX. Com a maior parte da população operária e trabalhadores em geral usufruindo de tempo livre, houve maior procura por atividades de lazer e entretenimento.

Antes supridos por atividades escolhidas pelas pessoas dessas classes sociais, os espaços destinados a elas começaram a contratar artistas e oferecer outros serviços, já formando o que seria qualificado como “popular”. As casas de grandes espetáculos e os teatros, nessa época, ainda eram frequentados somente pela classe de maior poder aquisitivo.

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Foi com a popularização das transmissões de rádio, no início do século XX, que o caráter ideológico de uma cultura para as massas evidenciou-se, processo que ocorreria de forma semelhante no cinema anos mais tarde.

A modificação do conteúdo das programações culturais para atender ao público crescente ocasionou uma massificação desse conteúdo. Essa padronização consistiu, em alguns casos, em uma diminuição da complexidade de obras voltadas para a cultura superior. Seria apenas com a padronização de suas mercadorias que essa indústria poderia satisfazer muitos consumidores.

A expressão “indústria cultural” deveria soar estranha e indicar uma contradição. A indústria tem características distintas da produção que poderia ser legitimamente caracterizada como cultura. Enquanto esta palavra está associada com a criação como expressão de dúvidas, anseios e valores, aquela relaciona-se com a satisfação de demandas de consumidores.

A indústria cultural alcança seus objetivos porque os produtos culturais servem a uma demanda formada ideologicamente. A expectativa e o interesse nesses produtos têm origem em objetivos econômicos de grandes grupos empresariais, que influenciam as pessoas pelos meios de comunicação. Se não nos tornamos conscientes desse processo, é porque já estamos de tal forma acostumados que não questionamos nem o conteúdo nem a forma do que nos é apresentado como cultura.

O entretenimento é a característica mais perceptível dos produtos culturais planejados pela indústria cultural. Esse aspecto é, muitas vezes, usado como critério de avaliação pelas próprias pessoas, quando classificam em bom ou ruim determinado livro, filme etc. Há um conflito, nesse sentido, com a produção artística autônoma, que visa, muitas vezes, a criticar a cultura vigente em uma sociedade.

[A] arte não é social apenas mediante o modo da sua produção, em que se concentra a dialéctica das forças produtivas e das relações de produção, nem pela origem social do seu conteúdo temático. Torna-se antes social através da posição antagonista que adota perante a sociedade, e só ocupa tal posição enquanto arte autônoma.|1|

Uma vez que os grandes meios de comunicação influenciam e orientam padrões estéticos, o que vier a provocar incômodo ou insatisfação será avaliado como ruim pelas pessoas, podendo inclusive não ser entendido como arte. Contribui-se, assim, para inibir mudanças no que é culturalmente aceito em uma sociedade.

Leia mais: Identidade cultural — conjunto híbrido e maleável de elementos que formam a cultural identitária de um povo

Indústria cultural e cultura de massa

Retrato de Marilyn Monroe feito por de Andy Warhol, cujo trabalho remete à indústria cultural.
De acordo com os pensadores da Escola de Frankfurt, na base da popularização dos bens culturais está o lucro.

A classificação de algo como cultura de massa refere-se ao processo de produção de bens culturais por grandes empresas, mas possibilita uma interpretação equivocada, a saber, poderia sugerir que essa oferta fosse uma demanda originada pelas próprias classes populares, o que seria exatamente o oposto do que os pensadores da Escola de Frankfurt propuseram.

Embora a expressão “cultura de massa” tenha sido usada nos rascunhos de alguns escritos, foi escolhida a expressão “indústria cultural” para ser publicada na obra Dialética do esclarecimento. Como Theodor Adorno expôs em muitos textos, essa nova expressão objetiva indicar que aquilo que se apresenta como cultura é orquestrado para ser consumido e não resulta legitimamente de uma manifestação criativa. A indústria cultural pode ser entendida, então, como um uso específico dos meios de comunicação com efeitos ideológicos.

É importante frisar que os filósofos que implementaram uma teoria crítica da sociedade não pretenderam idealizar as produções culturais. Explicitaram, antes, o que estava na base da popularização dos bens culturais, ou seja, o lucro. Mesmo com muitas novidades nas artes e na cultura hoje, por exemplo, o sucesso de um filme ainda está atrelado às rendas que conquista, o que já havia sido criticado por Theodor Adorno há mais de 50 anos. Caso queira aprender mais sobre o conceito de cultura de massa, leia nosso texto.

Novos estudos sobre a indústria cultural

Novos estudos continuam a acompanhar a relação entre meios de comunicação e cultura, indicando seus aspectos alienantes e seus impactos no consumo. Com o surgimento de novas formas de comunicação, novos bens culturais são produzidos, o que renova a discussão acerca da produção da cultura.

Alguns estudiosos apontam jogos em mídia digital e mesmo atrações turísticas como as novas facetas da cultura industrializada. O que é mais óbvio nas novas ofertas são as alterações no conteúdo, uma vez que a sociedade e, consequentemente, o público sofreram mudanças.

Embora não se deixe de considerar a influência dos novos meios de comunicação sobre os indivíduos, muitos pesquisadores alegam que os indivíduos hoje são mais críticos do que quando considerados pelos teóricos da Escola de Frankfurt.

Nota

|1|ADORNO, Theodor. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2011. p. 340.

Créditos das imagens

[1] Jjshapiro at English Wikipedia | Commons

[2] Shutterstock

Fonte

ADORNO, Theodor. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2011. p. 340.

Publicado por Marco Oliveira
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