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Tempos históricos no quadro “A Batalha de Alexandre”

A mescla dos tempos históricos no quadro “A Batalha de Alexandre”, de Albrecht Altdorfer, pode ser observada, entre outras coisas, na caracterização que o pintor faz dos persas.
Acima, “A Batalha de Alexandre”, de Altdorfer, 1529
Acima, “A Batalha de Alexandre”, de Altdorfer, 1529

A encomenda de Guilherme IV

No ano de 1528, o Duque da Baviera, Guilherme IV, encomendou uma série de telas a pintores que serviam aos principados alemães. Os quadros a serem pintados deveriam ser compostos a partir de temáticas históricas e teriam como destino a decoração da casa de verão do duque, em Martallholf. Um dos pintores contratados pelo duque foi Albrecht Altdorfer (1480-1538), que escolheu o tema da grande batalha de Alexandre Magno contra Dario III, da Pérsia. Acontece que o quadro de Altdorfer, pintado em 1529, traz em sua estrutura elementos que documentam o momento vivido pelo Sacro Império Romano-Germânico nos idos de 1520.

O tema clássico: A Batalha de Issus

Alexandre Magno foi o responsável por submeter todo o extenso império persa ao jugo dos gregos. A batalha travada contra Dario III que deu a Alexandre a vitória definitiva ocorreu em Issus, na Ásia Menor, em 333 a.C. Ao longo dos tempos, desde os sucessores de Alexandre, passando pelos medievais, e chegando até a modernidade, a história dessa batalha foi sendo narrada como o triunfo de um herói, cuja habilidade militar e conquistas territoriais tornaram-no lendário.

Altdorfer valeu-se do vulto heroico de Alexandre Magno e reproduziu a história da batalha em seu quadro (que pode ser visto na imagem no topo do texto). O quadro apresenta os soldados de Alexandre deslocando-se da direita para a esquerda, enquanto os soldados persas fazem o movimento contrário. No plano superior do quadro, há a figura do Sol despontando entre as nuvens do lado das tropas de Alexandre. Já no persa estão presentes a Lua e as trevas. O curioso é que Altdorfer quis ser o mais fiel possível ao contexto da batalha e acabou por colocar na tela elementos que iam além de uma simples representação de um confronto armado, como acentua o historiador alemão Reinhart Koselleck:

[...] Para obter a maior exatidão possível, o pintor e o historiógrafo da corte, que o assistiu, recorreram a Curtius Rufus, do qual foram extraídos os números, supostamente precisos, de participantes da batalha, bem como o número daqueles que sucumbiram e dos que foram feitos prisioneiros. Os números encontram-se inscritos nas faixas das tropas, nas quais se alude ao número de mortos que, no quadro, encontram-se ainda entre os vivos, e que talvez até mesmo segurem a faixa de sol a qual perecerão. Trata-se de um sabido anacronismo, do qual Altdorfer lançou mão no intuito de tornar a representação da batalha manifestamente fiel.” [1]

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A presença do Cerco de Viena no quadro de Altdorfer

Mais que representar o conflito, Altdorfer quis dar contornos simbólicos à estrutura da obra. E nessa estrutura estão presentes dois tempos históricos, o vivido por Alexandre e Dario III em 333 a.C. e aquele que estava sendo vivido pelo Sacro Império Romano-Germânico na época em que o quadro foi pintado. Em 1529, houve o primeiro cerco turco-otomano contra o centro do Sacro Império, a cidade de Viena, na Áustria. O Cerco de Viena consistiu em uma tentativa do Império Turco-Otomano de desmantelar o centro da unidade política da Cristandade. Em seu quadro, Altdorfer representou os persas comandados por Dario III como típicos turcos, desde as armas até os turbantes.

Essa forma de representação estabelecia uma associação histórica entre o que havia acontecido no passado e o que o próprio pintor estava vivendo no século XVI, como reitera o historiador Koselleck: “[…] A maioria dos persas assemelha-se, dos pés ao turbante, aos turcos, que, no mesmo ano de composição do quadro (1529), sitiaram Viena, sem resultado. Em outras palavras, Altdorfer captou um acontecimento histórico que era, ao mesmo tempo, contemporâneo para ele. [2]

NOTAS

[1] KOSELLECK, Reinhart. “O futuro passado dos tempos modernos”. In: Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. (Trad. Wilma Patrícia Maas e Carlos Almeida Pereira). Rio de Janeiro: Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2006. p. 21-22.

[2] Idem. p. 22.

Publicado por Cláudio Fernandes

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