Crônica argumentativa

A crônica argumentativa é um texto híbrido que busca apresentar reflexões e pontos de vista pessoais a respeito de temas ou situações cotidianas. Ela se inicia com a apresentação temática, desenvolve-se com o aprofundamento da argumentação e é concluída com um desfecho que reitera a opinião do autor. A temática abrange diferentes assuntos e a sua linguagem e estrutura são híbridas, de modo que podem apresentar aspectos mais teóricos, poéticos, políticos, humorísticos, dramáticos, etc.

Leia também: Crônica narrativa – gênero que conta histórias cotidianas de forma criativa

Passo a passo de como fazer uma crônica argumentativa

Para fazer uma crônica argumentativa, deve-se organizar alguns elementos prévios à escrita, como o contexto cotidiano ou o exemplo que vai ilustrar e inserir o tema, bem como o ponto de vista ou a reflexão que se deseja expressar.

Em seguida, decididos os exemplos e a mensagem que será expressada, pode-se iniciar o texto com a apresentação do tema. Tal apresentação pode conter uma pequena narrativa de alguma circunstância cotidiana, ou ainda citar algum outro texto como fonte inicial de reflexão, entre outras possibilidades, o importante é que o leitor adentre no universo do texto.

Posteriormente, aprofunda-se a argumentação do cronista, acrescentando exemplos, apontando reflexões, fazendo comparações, citando outros textos ou outras reflexões, aplicando justificativas ou outros recursos argumentativos. Por fim, conclui-se a crônica com um desfecho que evidencie a ideia que se buscou defender ao longo da crônica.

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Exemplo de crônica argumentativa

Um reconhecido nome da crônica argumentativa é o escritor e psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha de São Paulo. Abaixo seguem alguns trechos de sua crônica “O segredo da vida de um casal”, publicada em 2007 e livre para acesso no site da UOL.

EM GERAL, na literatura, no cinema e nas nossa fantasias, as histórias de amor acabam quando os amantes se juntam (é o modelo Cinderela) ou, então, quando a união esbarra num obstáculo intransponível (é o modelo Romeu e Julieta).
No modelo Cinderela, o narrador nos deixa sonhando com um "viveram felizes para sempre", que seria a "óbvia" consequência da paixão.

No modelo Romeu e Julieta, a felicidade que os amantes teriam conhecido, se tivessem podido se juntar, é uma hipótese indiscutível. O destino adverso que separou os amantes (ou os juntou na morte) perderia seu valor trágico se perguntássemos: será que Romeu e Julieta continuariam se amando com afinco se, um dia, conseguissem deitar-se juntos sem que Romeu tivesse que escalar a casa de Julieta até o famoso balcão? Ou se, em vez de enfrentar a oposição letal de suas ascendências, eles passassem os domingos em espantosos churrascos de família?
Talvez as histórias de amor que acabam mal nos fascinem porque, nelas, a dificuldade do amor se apresenta disfarçada. A luta trágica contra o mundo que se opõe à felicidade dos amantes pode ser uma metáfora gloriosa da dificuldade, tragicômica e inglória, da vida conjugal.
O casal que dura no tempo, em regra, não é tema para uma história de amor, mas para farsa ou vaudeville - às vezes, para conto de terror, à la "Dormindo com o Inimigo".

Nessa primeira parte, percebe-se que o autor faz a parte introdutória da crônica argumentativa, apresentando tema, introduzindo elementos que situam o leitor a respeito do que será discutido, além de fornecer referências literárias que contribuem para a compreensão do leitor.

“Trillin compunha com sua mulher, Alice, uma dobradinha humorística, em que Calvin era o avoado, o feio e o desajeitado, e Alice encarnava, ao mesmo tempo, a beleza, a graça e a sabedoria concreta de vida.
À primeira vista, isso confirma a regra: a vida de casal é um tema cômico. Mas as crônicas de Trillin eram delicadas e tocantes: engraçadas, mas nunca grotescas. Trillin não zombava da dificuldade da vida de casal: ele nos divertia celebrando a alegria do casamento. Qual era seu segredo?

Pois bem, Alice, com quem Trillin se casou em 1965, morreu em 2001.
Trillin escreveu "Sobre Alice", que acaba de ser publicado pela Globo. Esse pequeno e tocante texto de despedida desvenda o segredo de um amor e de uma convivência felizes, que duraram 35 anos.
O segredo é o seguinte: Calvin e Alice, as personagens das crônicas, não eram artifícios literários, eram os próprios. A oposição entre os dois foi, efetivamente, o jeito especial que eles inventaram para conviver e prolongar o amor na convivência.
Considere esta citação de um texto anterior, que aparece no começo de "Sobre Alice": "Minha mulher, Alice, tem a estranha propensão de limitar nossa família a três refeições por dia". A graça está no fato de que a "propensão" de Alice não é extravagante, mas é contemplada por Calvin como se fosse um hábito exótico.”

Nesse segundo fragmento, o autor insere um elemento diferente dos indicados na introdução. Ele apresenta uma espécie de “exemplo” daquilo que dissertou no início e mostra que a escrita de Calvin sobre Alice apresenta uma história de amor diferente da usualmente apresentada pela literatura, a qual não apresenta uma perfeição conjugal, bem como não a desmoraliza. Esse repertório atua como fortalecedor do ponto de vista que está sendo defendido pelo autor, ao mesmo tempo em que encaminha a discussão para sua conclusão.

“Com isso, Calvin e Alice transformaram sua vida de casal numa aventura fascinante: a aventura de sempre descobrir o outro, cuja diferença inesperada nos dá, de brinde, a certeza de que nossa obstinada maneira de ser, nossos jeitos e nossa neurose não precisam ser uma norma universal, nem mesmo a norma do casal.
Há quem diga que o parceiro ideal é aquele que nos faz rir. Trillin completou a fórmula: Alice era quem conseguia fazê-lo rir dele mesmo. Com isso, ele descobriu a receita do amor que dura.”

Ao final, percebe-se que o autor conclui seu pensamento, com o auxílio da história de Calvin e Alice, a respeito do segredo da duração do amor. Aqui, evidencia-se a estrutura dividida em apresentação, argumentação e conclusão da crônica argumentativa.

Veja também: Editorial – gênero textual cuja função é apresentar o ponto de vista de um grupo midiático

Característica e estrutura da crônica argumentativa

Na crônica argumentativa, o autor exerce sua expressão pessoal, refletindo e criticando temas cotidianos.
Na crônica argumentativa, o autor exerce sua expressão pessoal, refletindo e criticando temas cotidianos.

A crônica argumentativa é um texto que busca expressar um ponto de vista reflexivo a respeito de alguma temática do cotidiano, evidenciando um ponto de vista, sem, no entanto, ter o intuito definitivo de convencer o leitor, e sim de expressar sua opinião e provocar possíveis reflexões.

As temáticas que inspiram as crônicas argumentativas são os acontecimentos e elementos do cotidiano, experiências simples e comuns que são vividas por muitos, mas observadas por poucos. Assim, o cronista busca expor o tema e também interpretações inovadoras sobre ele.

A diferença da crônica argumentativa é justamente a evidência de um ponto de vista de modo não usual, pois não se restringe à argumentação lógica com comprovação de fatos, tampouco objetiva  provar a verdade, mas abrange a hibridez do gênero crônica, permitindo a integração de elementos dramáticos, irônicos, poéticos e outros que caibam ao texto.

A estrutura da crônica argumentativa divide-se em:

  • exposição do tema: momento inicial da crônica na qual o autor apresenta os elementos primordiais do tema, introduzindo o leitor no cenário ou no assunto;
  • posicionamento do autor sobre o tema: após uma apresentação inicial, comumente se apresentam o posicionamento do autor, a tese ou o ponto de vista dele a respeito da temática trabalhada;
  • argumentação: apresentação de elementos que aprofundam e solidificam o ponto de vista do autor sobre;
  • conclusão: síntese ou reflexão final a respeito do assunto.

Diferenças entre crônica e crônica argumentativa

O gênero crônica é de classificação abrangente, pois engloba diversos subtipos. Pode ser compreendido como um texto que visa relatar e comentar acontecimentos do cotidiano em ambiente profissional, público, pessoal ou outro. As crônicas portuguesas, por exemplo, conhecidas por serem documentos que descreviam as novas terras conhecidas à corte, apresentavam o relato e descrição das impressões vividas no cotidiano de viagem.

O gênero crônica argumentativa também apresenta acontecimentos cotidianos, mas se expande para a função de defender uma “visão”, um ponto de vista sobre o tema, mas essa defesa não se concentra tanto no convencimento do leitor, e sim na própria atividade de expressão e fomento do pensamento crítico. Para saber mais sobre a modalidade mais abrangente desse gênero híbrido, leia o texto: Crônica.

Publicado por: Talliandre Matos
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