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Crônica narrativa

A crônica narrativa conta histórias cotidianas e banais por meio do olhar criativo do cronista.
Uma espécie de observador do cotidiano, ações banais ou acontecimentos inusitados são sempre temas dos cronistas.
Uma espécie de observador do cotidiano, ações banais ou acontecimentos inusitados são sempre temas dos cronistas.

A crônica  narrativa é um gênero literário típico dos séculos XX e XXI. O cronista – aquele que escreve as crônicas – é uma espécie de observador do cotidiano: cenas corriqueiras, ações banais ou acontecimentos inusitados são sempre temas de ótimos textos desse gênero.

Saiba mais: Leia sobre este grande nome da crônica brasileira

Características

Embora seja um gênero textual com limites bem flexíveis, podendo muitas vezes aproximar-se do gênero conto, a crônica possui algumas características presentes em quase todas as grandes composições:

  • Tematizar situações cotidianas: diálogos entre casais, cenas em um restaurante, momentos em uma estação de metrô são temas comuns em crônicas.
  • Linguagem leve: o uso do nível coloquial da língua é bem-vindo nas crônicas. Em alguns casos, o humor ou, ainda, o tom poético pode marcar a linguagem usada nesse gênero.
  • Narrativas curtas: em geral, as crônicas não são textos longos. Os enredos costumam durar, no máximo, poucas horas, e, em geral, a narrativa  ocorre em um ou dois cenários.
  • Poucos personagens: por ser uma narrativa curta, é comum que as crônicas representem apenas um pequeno grupo de pessoas e, em muitos casos, apenas um personagem surge no texto.

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Como fazer

  • Para produzir qualquer texto, é necessário projetar bem antes de escrever e, depois de feito, revisar o material produzido. A inspiração é importante, mas sem planejamento e esforço, escrever nunca é tarefa fácil. 
  • Para além dos aspectos gerais da produção de texto, é necessário ser um bom observador do cotidiano ao tentar produzir crônicas. Isso porque o cerne desse tipo de texto é a visão original do cronista sobre fatos que quase todos enxergam, mas quase ninguém significa da forma com que o autor o faz.
  • Pensar em um grupo reduzido de personagens e cenários é uma estratégia interessante para fazer uma boa crônica.
  • Por fim, é importante tentar sempre usar uma linguagem leve e, se for o caso, bem-humorada ou, ainda, poética para produzir suas crônicas narrativas.

Veja também: Conheça algumas técnicas para te ajudar a estruturar uma narrativa

Exemplo

Leia, abaixo, uma crônica de Gregório Duvivier e perceba a tematização de cenas cotidianas e o uso de uma linguagem leve, bem-humorada e, por vezes, até poética.

O momento em que sua filha descobre a verdade sobre você

Antes mesmo de ter uma filha já morria de medo disso: algum dia ela vai perceber que eu não sei de nada. Sim, porque é pra isso, em grande parte, que se tem filhos, pra que alguém no mundo acredite, nem que seja por alguns anos, que você sabe alguma coisa. E é por isso, também, que se odeia tanto os adolescentes: não é porque eles acham que os pais são idiotas, mas porque eles perceberam que os pais são idiotas. No caso da minha filha, a queda do mito paterno aconteceu um pouco mais cedo do que eu imaginava, mais precisamente aos três dias de vida.

Minha filha não chorou quando nasceu. Só choramos nós, os pais, emocionados de ter uma filha que não chora. Nasceu sorrindo, vê se pode, dizíamos nós, chorando. Depois chorei outra vez quando ela mamou na mãe, e chorei de novo quando vi os avós vendo a neta, e sendo avós pela primeira vez. Acho que foi ali que ela começou a suspeitar: quem é esse cara chorando o tempo todo? Barbudo, trinta anos na cara, chorando desse jeito? Será que ele tem algum problema?

A epifania aconteceu mesmo quando a gente chegou em casa e, pela primeira vez, ela chorou. E a partir daí não parava de chorar. Mamava e chorava e mamava. No meio da madrugada, quando a mãe dela dormia um sono merecido, peguei minha filha no colo e fomos pra sala. Achei que fosse resolver no mano a mano.

Foi ali, só nós dois, no lusco-fusco, que ela percebeu tudo. Aos três dias de vida, vi no fundo dos seus olhos que ela tinha descoberto que o seu pai não fazia a menor ideia do que tava fazendo. E foi ali que ela começou a chorar de verdade.

Desculpa, cheguei a dizer, desculpa ter feito você nascer de um pai que não sabe de nada, tanta gente escolada por aí e você veio parar logo na casa desse marinheiro de primeira viagem, esse sujeito que tá chorando mais que você, desculpa, filha, desculpa. E ela chorou mais ainda ao ver sua suspeita confirmada.

Desde então assisti milhões de vídeos no YouTube sobre como fazer um bebê parar de chorar. Vira pro lado, shh, shh, oferece o mindinho, shh, shh, balança, suinga, shh, shh, faz charutinho, shh, shh. Passou, passou, passou. Até agora não encontrei nenhum vídeo sobre como fazer um pai parar de chorar.

Filha, vou precisar de você. Seu pai também, coitado, acabou de nascer. Tá perdidinho. Me ensina a parar de chorar que nisso você já tá melhor que eu.

Gregório Duvivier,

Jornal Folha de São Paulo, 22 de abril de 2018.

Publicado por Fernando Marinho
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