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Niilismo

Niilismo é uma perspectiva que rejeita valores, significados e crenças absolutas ou universais. O niilismo parte da falta de sentido para chegar ao absurdo da vida.
Homem empurrando uma pedra em uma colina, uma alusão ao niilismo.
O niilismo designa uma vida que, mesmo sem fazer sentido, é vivida com contentamento, como no mito de Sísifo.

O niilismo é uma visão de mundo que ressalta a falta de significado ou propósito na vida, a ausência de valores morais absolutos e a crença na inexistência de verdades objetivas. O termo niilismo tem suas raízes na palavra latina nihil, que significa “nada”.  O niilismo pode se manifestar em vários tipos, incluindo o niilismo existencial, moral e epistemológico. Uma de suas principais características é o afastamento de valores que pretendem ser absolutos.

Diversos pensadores contribuíram para o desenvolvimento do pensamento niilista, incluindo o escritor russo Dostoievski e os filósofos Nietzsche, Schopenhauer e Sartre. Cada um deles abordou o niilismo de maneiras distintas, oferecendo pensamentos e críticas diversas sobre esse fenômeno cultural e filosófico.

Leia também: Dogmatismo — postura que defende a noção de verdade eterna e absoluta

Resumo sobre niilismo

  • O niilismo é uma perspectiva que rejeita valores, significados e crenças tradicionais que pretendem ser absolutos ou universais.
  • Tem raízes na palavra latina nihil, significando “nada”; manifesta-se como niilismo existencial, moral e epistemológico.
  • O niilismo moral afirma que não existem princípios éticos absolutos e que as noções de certo e errado são subjetivas.
  • Filósofos como Nietzsche, Schopenhauer e Sartre contribuíram para o pensamento niilista.
  • O niilismo, por outro ângulo, pode ser visto como uma oportunidade para liberdade individual e criação de significado pessoal.

Videoaula sobre niilismo

O que é niilismo?

O niilismo é a desvalorização e a morte do sentido. Ele representa a ausência de finalidade e de resposta aos porquês. De onde viemos? O que somos? Por que obedecemos às autoridades? Qual é o sentido da história? Após o início da Idade Moderna, por causa de novas descobertas da ciência e da secularização da sociedade, as respostas a perguntas como essas mergulham em um abismo sem nome.

Essa visão de mundo niilista, que dissolveu as verdades tradicionais e nada colocou no lugar, atingiu valores e leis que regulavam a sociedade europeia, contribuindo, assim, para mudanças na mentalidade e nas estruturas sociais. Tudo isso contribuiu para modificar o contexto histórico do Antigo Regime, marcado pelas instituições monárquicas e os valores aristocráticos da nobreza.

No século XIX, o niilismo foi expresso em movimentos literários, filosóficos e políticos, direcionados para a vivência do profundo mal-estar sentido na sociedade moderna. Esse mal-estar niilista designa o fato de nada substituir os valores e os princípios de origem religiosa ou metafísica que, por séculos, forneceram critérios absolutos que orientaram a existência humana.

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Características do niilismo

O niilismo é uma perspectiva que, em geral, se caracteriza pela rejeição significativa de valores, significados e crenças tradicionais. Entre as concepções niilistas, há as que negam a existência de um Deus, da imortalidade da alma, da liberdade humana, da autoridade da razão, da possibilidade de conhecimento, da objetividade da moral ou da possibilidade de um final feliz para a história humana ou mesmo individual.

Veja também: O que defende a filosofia existencialista?

Tipos de niilismo

O niilismo é um fenômeno multifacetado e pode se apresentar em diferentes tipos. Destaque para o niilismo moral, o niilismo existencial, o niilismo epistemológico e o niilismo político e social.

→ Niilismo existencial

Envolve a crença de que a vida não tem um propósito intrínseco ou significado. Um niilista existencial pode argumentar que a vida não tem um propósito intrínseco, portanto, não vale a pena se preocupar seriamente com coisa alguma.

As questões fundamentais da vida são respondidas por um vazio sem nome. Os niilistas existenciais, muitas vezes, questionam a existência de um propósito divino ou absoluto, e argumentam que é responsabilidade do indivíduo criar seu próprio significado na vida.

→ Niilismo moral

Rejeita os valores morais que pretendem ser universais, isto é, afirma que não existem princípios éticos absolutos e que as noções de certo e errado são subjetivas ou culturalmente condicionadas.

Na prática, o niilista moral acredita no não cognitivismo moral, uma posição filosófica segundo a qual as proposições morais não expressam fatos ou crenças com conteúdo cognitivo. Em outras palavras, frases como “você deve fazer isto ou aquilo” não são expressões de fatos que podem ser verdadeiros ou falsos, mas, em vez disso, expressam emoções, atitudes, preferências pessoais ou simplesmente comandos.

→ Niilismo epistemológico

Afirma que o conhecimento objetivo e inquestionável é inatingível. Os niilistas epistemológicos argumentam que não podemos ter certeza de nada e que todas as nossas crenças são, no máximo, aproximações imperfeitas da realidade. Elas carregam apenas conteúdos subjetivos, relativos e culturalmente codificados.

→ Niilismo político e social

Reúne as ideias de alguns pensadores que questionaram a validade de estruturas sociais, políticas e instituições, argumentando que tudo é, em última instância, sem sentido.

Filósofos do niilismo

  • Arthur Schopenhauer (1788-1860): é conhecido por seu pessimismo radical e por rejeitar certos valores tradicionais. Embora não tenha usado explicitamente o termo niilismo, suas ideias compartilham algumas semelhanças com as perspectivas niilistas.
  • Martin Heidegger (1889-1976): em sua obra Ser e tempo, Heidegger aborda questões existenciais e a natureza do ser. Ele argumenta que a tradição filosófica ocidental conduziu a um esquecimento do ser e a uma perda de sentido na Modernidade. Embora Heidegger não se identificasse como niilista, suas críticas à tradição filosófica podem ser interpretadas como alinhadas com algumas ideias niilistas.
  • Albert Camus (1913-1960): um escritor e filósofo existencialista, abordou o absurdo da existência humana em sua obra O mito de Sísifo. Ele explorou a ideia de que a vida é intrinsecamente absurda e que a busca de significado é uma luta fútil. Embora nem todos concordem em categorizá-lo como niilista, suas ideias têm afinidades com certas características niilistas.
  • Jean-Paul Sartre (1905-1980): outro filósofo existencialista, Sartre argumentou que a existência precede a essência e que os indivíduos são livres para criar seu próprio significado na ausência de uma essência predefinida. Embora suas ideias possam ser mais positivas em relação à liberdade individual, alguns aspectos de sua filosofia podem ser interpretados como alinhados com o niilismo.

→ O niilismo literário russo do século XIX

Gravura com dois homens sentados, bebendo, personagens do niilismo literário russo.
Raskólnikov e Marmeládov, personagens da obra Crime e castigo, de Dostoiévski, que explora elementos niilistas.

Ivan Turgenev é frequentemente associado ao niilismo literário russo por meio de sua obra Pais e filhos (1862), na qual retrata o conflito geracional entre os conservadores, representados pelos pais, e os niilistas, representados pelos filhos. Os personagens niilistas da obra rejeitam as tradições, a religião e as instituições sociais, buscando uma vida baseada na razão e na liberdade individual.

Por sua vez, Fiódor Dostoiévski explorou o niilismo moral e existencial de maneira mais profunda e complexa em várias de suas obras. A frase “Se Deus não existe, tudo é permitido”, que pode ser encontrada no livro Os irmãos Karamazov, expressa a visão sobre a moralidade e a existência do personagem Ivan Karamazov.

Essa declaração sugere que, na ausência de Deus e de uma base transcendental para a moralidade, não há limites éticos fixos, e as ações humanas são desprovidas de restrições morais absolutas. Portanto, tudo se torna permitido na medida em que não há uma autoridade divina para ditar o que é certo ou errado.

Em Crime e castigo (1866), por exemplo, o protagonista, Raskólnikov, é um personagem que encarna elementos niilistas ao rejeitar as normas morais convencionais e buscar um novo código ético baseado em suas próprias ideias. Dostoiévski estava preocupado com as consequências sociais e psicológicas do niilismo, explorando as ramificações do pensamento niilista em sua obra.

Niilismo de Nietzche

Friedrich Nietzsche, um dos filósofos relacionados ao niilismo, em fotografia de 1887.
Friedrich Nietzsche não se considerava um niilista, mas abordou criticamente as consequências do niilismo.

O niilismo de Nietzsche aponta que “Deus está morto”, esse Deus capaz de cristalizar os ideais e os valores transcendentais que negam a vida e formam a moral decadente dos “fracos”. O niilismo de Nietzsche traz, ao mesmo tempo, a denúncia de uma ameaça e o anúncio de uma defesa.

A ameaça, uma era de angústia do homem moderno diante de uma vida privada de qualquer finalidade, fatalmente absurda, na visão de Nietzsche, seria o próprio niilismo, mais especificamente, a atitude passiva diante da absurdidade da vida. Se Deus está morto, se todos os ideais e valores perderam o sentido, de que adianta agir?

Esse niilismo passivo, acompanhado de uma total abdicação do querer, conduziria o ser humano em sua busca incessante por prazer e por conforto até o ponto de não retorno — o tempo daquele que Nietzsche denominou “o último homem”. Drenado em suas forças vitais, ele não teria mais como reagir e viveria fechado em si mesmo, enquanto, na verdade, sente apenas contentamento pela vida acanhada e sem graça que lhe foi destinada.

O niilismo de Nietzsche significa que esse niilismo passivo deve, necessariamente, ser ultrapassado por um niilismo ativo. Este, em vez de causar sofrimento pela falta de sentido, é gerador de novos valores para o ser humano. Que tipo de valor vitalista é esse? Nietzsche sugere que esses valores sejam forjados, “para além do bem e do mal”, pela vontade de potência inata no ser humano.

Nietzsche acreditava nessa operação de “transvaloração dos valores” para conseguir cumprir a tarefa de fundar novos valores que aceitem o devir, a força, o desejo e a singularidade humana; que cultivem a criatividade por meio da arte, a pluralidade de perspectivas no conhecimento, e a complexidade e o risco da existência.

Enfim, é com base nessa apologia da força, um antídoto moral contra o niilismo passivo, que Nietzsche chega ao conceito de super-homem, a encarnação da moral aristocrática e elitista proposta pelo filósofo. É importante deixar claro que o niilismo de Nietzsche resulta de um balanço sobre a origem dos valores intimamente ligados à moral e à religião, no que ficou conhecido como o método genealógico.

Niilismo pós-Nietzche

O niilismo do século XX passou por várias transformações e desenvolvimentos após as ideias de Friedrich Nietzsche, que desempenhou um papel significativo na introdução e na crítica do niilismo no contexto filosófico. Nietzsche não se considerava um niilista, mas abordou criticamente as consequências do niilismo, alertando para os perigos e desafios que ele via surgindo na sociedade de sua época.

Após Nietzsche, o niilismo foi abordado e reinterpretado de diversas maneiras. Algumas mudanças e desenvolvimentos notáveis incluíram a interpretação do niilismo como um fenômeno inevitável e até mesmo necessário, uma condição que poderia levar a um renascimento ou uma transformação das perspectivas e valores.

O movimento existencialista, que surgiu no século XX, compartilhou algumas afinidades com o niilismo. Filósofos como Jean-Paul Sartre e Albert Camus exploraram a liberdade individual, a ausência de significado absoluto e a responsabilidade pessoal. Embora esses filósofos não fossem niilistas estritos, suas reflexões sobre o absurdo da existência compartilhavam algumas semelhanças com as preocupações niilistas.

Alguns filósofos rejeitaram ou criticaram as ideias niilistas, buscando alternativas que fundamentassem valores e significados. Filósofos analíticos, por exemplo, frequentemente criticaram o niilismo por considerá-lo carente de fundamentação lógica e metafísica. Na tradição continental, várias correntes filosóficas exploraram o niilismo de maneiras diversas.

Pensadores como Martin Heidegger e Jean-François Lyotard abordaram as questões do niilismo, cada um com uma perspectiva única. Heidegger, por exemplo, analisou a relação entre o niilismo e a história da metafísica, enquanto Lyotard explorou o papel do niilismo nas transformações da sociedade pós-moderna.

O niilismo também foi abordado em contextos sociais e culturais, como na crítica cultural e nos estudos sociais. Alguns pensadores contemporâneos o examinam em relação às mudanças culturais, à tecnologia e à globalização, considerando suas implicações para a sociedade e a condição humana.

Em resumo, as ideias de Nietzsche sobre o niilismo tiveram um impacto significativo no pensamento filosófico subsequente. Filósofos continuaram a explorar, reinterpretar e responder ao niilismo de maneiras diversas, levando a uma variedade de abordagens e perspectivas ao longo do tempo.

Saiba mais: Cinismo — filosofia não sistemática baseada na libertação das convenções sociais

Qual é a origem do niilismo?

A origem do termo niilismo deriva do latim nihil, que significa “nada”. As suas primeiras ocorrências remontam à Revolução Francesa.

A palavra começou a circular em meio às ruas incendiadas de uma França em plena revolução para designar aqueles que não eram nem a favor nem contra, que não se interessavam pelo assunto. Então foram chamados de nihiliste, algo como “os indiferentes”, “os apáticos”.

No contexto filosófico, o primeiro a usar a palavra parece ter sido o pensador alemão Friedrich Heinrich Jacobi, no final do século XVIII, com o objetivo de criticar a filosofia de seu contemporâneo, o filósofo alemão Immanuel Kant, considerado um idealista, e também para expressar sua preocupação com a crescente secularização e desvalorização dos valores religiosos e morais em sua época.

Os russos também ligavam o termo à ideia de indiferença e pusilanimidade, principalmente no que concerne aos vícios de uma cidadania subserviente. Os niilistas eram indivíduos que permaneciam impassíveis apesar de estarem inseridos numa ordem político-social esgotada, que, para ser transformada, clamava por alguma atitude enérgica de seus integrantes.

Fonte

PECORARO, Rossano. Niilismo. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

Publicado por Rafael Pereira da Silva Mendes

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