Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata foi um levante dos marinheiros praças da Marinha do Brasil ocorrido em novembro de 1910, iniciado no Rio de Janeiro, contra os castigos corporais aplicados contra eles nessa corporação, principalmente as chibatadas, e que teve como grande líder o marinheiro negro João Cândido, que passou a ser conhecido como o “Almirante Negro”. A revolta durou quatro dias, os marinheiros receberam anistia das autoridades e as chibatadas foram abolidas na corporação.

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Resumo sobre a Revolta da Chibata

  • A Revolta da Chibata, ocorrida em novembro de 1910, foi um levante de marinheiros praças da Marinha do Brasil, em sua maioria negros e pobres, contra os castigos corporais ainda praticados na corporação, especialmente as chibatadas.

  • O movimento começou com a tomada do encouraçado Minas Geraes, no Rio de Janeiro, sob a liderança de João Cândido Felisberto, o “Almirante Negro”. Os revoltosos exigiam o fim dos castigos físicos, melhores condições de trabalho e tratamento digno.

  • Durante quatro dias, controlaram três encouraçados e um cruzador, totalizando mais de 2.000 marinheiros, e ameaçaram bombardear a capital Rio de Janeiro caso o governo não atendesse às suas reivindicações.

  • A revolta teve origem nas condições desumanas de trabalho e no racismo estrutural que marcavam a Marinha brasileira, que era um reflexo da sociedade brasileira. A maioria dos marinheiros era composta por homens negros e pobres, muitos descendentes de escravizados, que sofriam castigos físicos, baixos salários e tratamento humilhante por parte de oficiais brancos e elitizados.

  • O estopim do motim ocorreu na noite de 22 de novembro de 1910, quando o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebeu 250 chibatadas por uma falta leve, diante de toda a tripulação do encouraçado Minas Geraes. A brutalidade provocou indignação e levou os marinheiros, liderados por João Cândido, a se rebelarem, tomando os navios e exigindo o fim dos castigos corporais e da opressão.

  • A revolta ocorreu no início da presidência do marechal Hermes da Fonseca, durante o período da Primeira República (1889-1930), um período da história brasileira marcado por profundas contradições entre o discurso modernizante e a permanência das mazelas sociais, raciais e institucionais da época do Império.

  • A Revolta da Chibata durou 4 dias e chegou ao fim em 26 de novembro de 1910 quando, sob pressão dos revoltosos e risco de bombardeio da capital, o Congresso Nacional aprovou uma lei de anistia para os amotinados e o presidente Hermes da Fonseca prometeu abolir de vez os castigos físicos na corporação, bem como melhorar as condições de trabalho e dar tratamento mais digno aos praças da Marinha. Diante disso, os marinheiros devolveram o controle dos navios às autoridades e encerraram o movimento.

  • No entanto, a anistia foi rapidamente descumprida e, poucas semanas depois, o governo iniciou uma repressão violenta e silenciosa contra os revoltosos que acabaram, muitos deles, presos e expulsos da corporação, inclusive o próprio João Cândido.

O que foi a Revolta da Chibata?

João Cândido com repórteres, oficiais e marinheiros no encouraçado Minas Geraes, no último dia da Revolta da Chibata.
João Cândido Felisberto (o homem alto ao centro) com repórteres, oficiais e marinheiros no encouraçado Minas Geraes, no último dia do motim.

A Revolta da Chibata foi um levante ocorrido em novembro de 1910, iniciado no Rio de Janeiro, dos marinheiros praças (de patente inferior à dos oficiais) na Marinha do Brasil contra os castigos corporais aplicados então a eles nessa corporação, principalmente as chibatadas, e que teve como grande líder o marinheiro negro João Cândido, que passou a ser conhecido como o “Almirante Negro”.

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O episódio teve como início a tomada do navio encouraçado chamado Minas Geraes,  então um dos mais modernos do mundo, pelos revoltosos. Os marinheiros exigiam, para devolver o controle do navio, o fim dos castigos corporais, melhores condições de trabalho e tratamento digno.

Durante quatro dias, os revoltosos controlaram parte da frota da Marinha do Brasil, pois o movimento se espalhou para outros navios de esquadra, ameaçando bombardear a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, caso o governo não atendesse às suas reivindicações. No total, os amotinados eram 2.379 homens, em três encouraçados e um cruzador.

A maioria dos revoltosos eram homens negros e pobres, e a lembrança da escravidão, que havia acabado oficialmente apenas há 22 anos (em 1888, com a Lei Áurea), fazia com que aquelas chibatadas dadas por oficiais brancos em marinheiros praças negros fossem sentidas claramente como uma herança direta da disciplina imposta nos tempos de escravidão para aqueles amotinados.

O episódio simboliza o quanto o início da República ainda mantinha estruturas de exclusão social herdadas do Império. Uma República que se pretendia moderna, mas que ainda conservava práticas autoritárias e racistas. Para além de um motim militar, a Revolta da Chibata foi um ato político e social que revelou o descompasso entre os ideais republicanos de liberdade e a realidade dos que ainda viviam sob opressão.

Jornal Correio da Manhã em 24 de novembro de 1910 noticiando a eclosão da Revolta da Chibata. [imagem_principal]
Jornal Correio da Manhã em 24 de novembro de 1910 noticiando a eclosão da Revolta da Chibata.

Quais as causas da Revolta da Chibata?

As causas da Revolta da Chibata estão profundamente ligadas às condições de trabalho desumanas e ao racismo estrutural que persistiam na Marinha brasileira no início do século XX. Era o ano de 1910, pouco depois da abolição da escravidão pela Lei Áurea, que ocorreu em 1888, e a maioria dos marinheiros subalternos (praças) era composta por homens negros (pretos e pardos), alguns deles ex-escravizados e muitos deles filhos de ex-escravizados. Esses marinheiros recebiam na corporação um tratamento brutal por parte dos oficiais, que eram praticamente todos brancos naquele que era então o corpo de oficiais mais elitizado das Forças Armadas brasileiras.

Destaca-se nos discursos dos marinheiros amotinados a revolta contra o uso da chibata como instrumento de punição, o que reproduzia a lógica dos castigos físicos dos tempos recentes e ainda bem vivos na memória da escravidão. Essa alusão à escravidão era explícita no ultimato dirigido ao presidente Hermes da Fonseca, em que os revoltosos declararam: “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira”.

No entanto, quando se trata das causas imediatas do motim, o caso que desencadeou a revolta se deu no anoitecer do dia 22 de novembro de 1910, quando o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes, embarcado no encouraçado Minas Geraes, foi punido com 250 chibatadas pelo fato de ter ferido o cabo Valdemar Rodrigues de Souza, denunciado por ter introduzido garrafas de cachaça a bordo.

A brutalidade da punição por uma falta considerada leve e o fato de ter ocorrido diante dos colegas serviram de estopim imediato para a revolta dos marinheiros, que, liderados por João Cândido, iniciaram o motim, tomando o controle de navios e exigindo o fim dos castigos corporais e das condições de opressão na Marinha.

Além dos castigos físicos, havia salários muito baixos, alimentação precária, longas jornadas de trabalho e ausência de direitos básicos, o que contrastava com os altos soldos e muitas benesses e privilégios dos oficiais, quase sempre brancos e de famílias abastadas.

A Revolta da Chibata foi, portanto, uma combinação explosiva de violência física herdada da escravidão, injustiça social e racismo institucional.

Registro fotográfico de 1909 do navio Minas Geraes, onde começou a Revolta da Chibata.
Registro fotográfico de 1909 do navio Minas Geraes, onde começou a Revolta da Chibata.

Contexto histórico da Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata ocorreu em novembro de 1910, no início do governo do marechal Hermes da Fonseca na presidência da República, durante o período da Primeira República (1889-1930).

Esse período da história brasileira é marcado por profundas contradições entre o discurso modernizante daqueles que promoveram e proclamaram a república e a permanência das mazelas sociais, raciais e institucionais da época do Império. Um dos maiores idealizadores e arquitetos dessa república, o intelectual baiano Rui Barbosa, expressou sua frustração com essas contradições se referindo a esse novo regime como “a República que não foi”. De fato, segundo o historiador José Murilo de Carvalho, a jovem República brasileira ainda não era de fato republicana, pois o povo continuava alijado do poder político, sem direitos sociais concretos e submetido a estruturas de mando personalistas e autoritárias.

A Marinha refletia, portanto, seu contexto histórico, pois, embora a corporação estivesse investindo fortemente na compra de navios modernos, a organização permanecia hierarquizada e racista, com oficiais brancos em cargo de comando e marinheiros subalternos pretos e pardos em funções braçais e sob disciplina severa e, por vezes, brutal.

Fotografia oficial do presidente Hermes da Fonseca.[1]
Fotografia oficial do presidente Hermes da Fonseca.

Quais os objetivos da Revolta da Chibata?

Os marinheiros que protagonizaram a Revolta da Chibata tinham objetivos claros: eles não pretendiam tomar o poder nem instaurar um novo governo, mas, sim, pôr fim aos castigos corporais na Marinha e obter condições dignas e humanas de trabalho. O movimento, portanto, nasceu de uma reivindicação por dignidade e respeito e não de um projeto político revolucionário.

As exigências dos revoltosos foram explicitadas em um manifesto redigido pelas lideranças do movimento para o então presidente da República, marechal Hermes da Fonseca. A principal exigência descrita nesse manifesto era o fim do uso da chibata na Marinha. Além disso, os marinheiros também pediram uma melhor alimentação, remuneração justa, fim dos maus-tratos, das prisões arbitrárias, anistia para os revoltosos e substituição dos oficiais mais violentos. Vejam que os marinheiros não faziam nenhuma exigência de cunho político alheio ao âmbito da Marinha e que eles demonstravam querer continuar nessa corporação, mas com melhores condições. O líder João Cândido procurou manter o controle do movimento, evitando saques e confrontos desnecessários e chegou a enviar comunicações ao governo com discursos de lealdade à pátria.

Apesar da simplicidade das demandas dos marinheiros, elas atingiram o coração da hierarquia militar, pois questionaram o poder absoluto dos oficiais e a estrutura racista que sustentava a disciplina naquela instituição. Passado pouco tempo do acordo em que as autoridades concordaram em anistiar os revoltosos, suas lideranças e principais participantes passaram a ser severamente perseguidos, presos e expulsos da corporação, como aconteceu com o próprio João Cândido ainda em 1910.

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Quem liderou a Revolta da Chibata?

O principal líder da Revolta da Chibata foi João Cândido Felisberto, marinheiro negro gaúcho que, depois dessa revolta, ficou conhecido como o “Almirante Negro”, epíteto dito de forma tanto elogiosa, por alguns, quanto irônica, por outros.

Nascido na cidade de Encruzilhada do Sul, no Rio Grande do Sul, filho de ex-escravos, João Cândido iniciou uma trajetória que o levaria à Marinha com apenas 13 anos de idade, quando se apresentou na Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes, no Arsenal de Guerra de Porto Alegre. Apenas um ano depois, em 1895, conseguiu transferência para a Escola de Aprendizes Marinheiros, em Porto Alegre. Em dezembro desse mesmo ano, foi aceito na Marinha como grumete e passou a servir no Rio de Janeiro, então capital da República, com apenas 15 anos de idade.

Permaneceu nessa instituição até 1910, ano da revolta que liderou e que, apesar da anistia inicial concedida pelas autoridades, o levaria, na prática, a ser expulso da corporação a que se dedicou por 15 anos de sua vida poucos meses depois.

João Cândido demonstrou grande capacidade de articulação e liderança, pois não tinha a patente e a linha de comando para garantir que fosse obedecido e, ainda assim, era reconhecido e atendido pelas centenas de revoltosos que aderiram ao movimento, mesmo em meio à grande tensão que viviam e à apreensão pelo risco de represálias.

No entanto, ele não liderou o movimento sozinho, que contou com outras lideranças, como Francisco Dias Martins, Marcelino Rodrigues Menezes e João Avelino. Sob essa liderança, os revoltosos determinaram o tom da revolta, proibindo saques e violência desnecessária, acordaram um conjunto de demandas e negociaram com as autoridades da República o fim do motim.

O marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro”, principal líder da Revolta da Chibata.
O marinheiro João Cândido, o “Almirante Negro”, principal líder da Revolta da Chibata.

Como foi a Revolta da Chibata?

A Revolta da Chibata teve início por volta das 10 horas da noite do dia 22 de novembro, no moderno e recém-comprado encouraçado Minas Gerais, que era então o navio mais poderoso da Marinha de Guerra do Brasil.

O estopim foi o castigo imposto ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes, que recebeu 250 chibatadas (muito acima do que era costumeiro, que era de 20) por uma falta disciplinar considerada leve, uma cena presenciada pelos colegas marinheiros e que gerou imediata indignação e a revolta entre os tripulantes, que já vinham sofrendo há muito com maus-tratos, baixos salários e discriminação racial.

O movimento foi rápido: naquela mesma noite, os marinheiros se insurgiram já liderados por João Cândido, mataram quatro e feriram seis oficiais que resistiram ao motim. Tão generalizado era o clima de revolta, que rapidamente, até a manhã do dia 23, o movimento se expandiu para outras três embarcações na esquadra, com os nomes de São Paulo, Bahia e Deodoro. Em poucas horas, a principal força naval do país estava sob o controle dos insurretos, que tinham seus canhões apontados para a cidade do Rio de Janeiro.

Os marinheiros, apesar da ausência então de uma linha de comando oficial para manter a disciplina e da tensão que havia, agiram de forma organizada, mantiveram suas funções habituais na condução das embarcações e enviaram um manifesto às autoridades reportando suas exigências. Segundo a historiadora Sonia Regina de Mendonça, esse texto foi redigido com clareza e respeito às autoridades, o que demonstra que os marinheiros não tinham a intenção de subverter o Estado, mas sim de corrigir injustiças históricas dentro da Marinha.

Durante quatro dias, tempo de duração da revolta, que se encerrou no dia 26 de novembro de 1910, o país viveu um clima de tensão. O presidente recém-empossado, um militar do topo da carreira do Exército, o marechal Hermes da Fonseca, teve que lidar com uma das mais severas crises de hierarquia militar na história das nossas Forças Armadas e enfrentou essa crise cercado por pressões de oficiais e políticos de todos os lados.

Fim da Revolta da Chibata

Após quatro dias de tensão, que durou de 22 a 26 de novembro de 1910, a Revolta da Chibata chegou ao fim quando, sob pressão dos revoltosos e risco de bombardeio da capital, o Congresso Nacional aprovou uma lei de anistia para os amotinados e o presidente Hermes da Fonseca prometeu abolir de vez os castigos físicos na corporação, bem como melhorar as condições de trabalho e dar tratamento mais digno aos praças da Marinha. Diante disso, os marinheiros devolveram o controle dos navios às autoridades e encerraram o movimento.

No entanto, a anistia foi rapidamente descumprida. Poucas semanas depois, o governo iniciou uma repressão violenta e silenciosa contra os revoltosos. Sob a justificativa de um novo motim, dezenas de marinheiros foram presos, torturados e expulsos da Marinha.

João Cândido, a maior liderança do movimento, foi encarcerado na Ilha das Cobras, onde as condições de prisão eram penosas, e posteriormente foi expulso da Marinha. O Almirante Negro passou o resto da vida na pobreza, vivendo como vendedor de peixe no Rio de Janeiro.

A Revolta da Chibata durou apenas quatro dias, mas teve grande impacto simbólico, pois foi um símbolo de violência e racismo institucional e sua significação continua sendo ampliada e revista de acordo com o avanço da compreensão sobre as questões raciais, sociais e institucionais no Brasil de ontem e de hoje.

João Cândido entrega o comando do navio ao fim da Revolta da Chibata, no dia 26 de novembro de 1910.
João Cândido entrega o comando do navio Minas Geraes ao capitão Pereira Leite ao fim da Revolta da Chibata, no dia 26 de novembro de 1910.

Consequências da Revolta da Chibata

A Revolta da Chibata teve consequências que se manifestaram tanto nas instituições militares, que tiveram que fazer um exame dos seus métodos e processos e se modernizar, tanto quanto na consciência coletiva do país, que pôde compreender melhor o abismo entre o discurso republicano modernizante e a realidade de exclusão vivida por grande parte da população.

A princípio, do ponto de vista imediato, o governo de Hermes da Fonseca reagiu com severidade, pois, apesar de ter prometido anistia aos revoltosos, usou de artifícios e subterfúgios para rapidamente fazer uma “devassa” na Marinha, expulsando centenas de marinheiros e punindo severamente os líderes vinculados ao motim. No entanto, a chibata foi de fato abolida na Marinha.

No âmbito histórico e simbólico, a revolta revelou a distância entre o povo e o poder, um traço característico da Primeira República (1889-1930), que buscava manter um verniz de modernidade, mas a cor da pele e a origem social ainda definiam o valor da vida humana.

Com o passar das décadas e o avanço da compreensão histórica de todos os aspectos sociais e raciais envolvidos nesse evento, a memória de João Cândido, à época estigmatizado como “insubordinado, violento e mal militar”, foi sendo lentamente reabilitada como um herói da resistência negra à opressão.

Seu nome, em 2008, foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria, e o Congresso Nacional aprovou uma lei reconhecendo a importância histórica da revolta, a Lei da Anistia Post Mortem (Lei nº 11.756/2008), que concedeu anistia post mortem a João Cândido e aos demais marinheiros envolvidos na revolta de 1910. Essa lei reconhece implicitamente a injustiça sofrida por eles e a legitimidade de suas reivindicações, que levaram ao fim dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

João Cândido aos 83 anos de idade, em 1963.
João Cândido aos 83 anos de idade, em 1963.

Exercícios resolvidos sobre a Revolta da Chibata

Questão 1

A Revolta da Chibata (1910) revelou uma das contradições mais marcantes da Primeira República brasileira. Apesar do discurso de modernização e progresso, as instituições ainda reproduziam práticas herdadas do período escravista.

Considerando o contexto e os objetivos do movimento, é correto afirmar que os marinheiros revoltosos:

A) buscavam a derrubada do governo Hermes da Fonseca e a instauração de uma república popular de caráter socialista.

B) reivindicavam o fim dos castigos corporais e melhores condições de trabalho, denunciando a permanência da lógica escravocrata nas Forças Armadas.

C) exigiam o aumento do soldo e o direito de votar nas eleições presidenciais, inspirados no movimento operário europeu.

D) pretendiam a substituição completa dos oficiais brancos por marinheiros negros em todos os navios da esquadra.

E) agiram de forma espontânea, sem liderança definida, e sem apresentar reivindicações formais ao governo.

Gabarito: B.

Os marinheiros, liderados por João Cândido Felisberto, não buscavam tomar o poder, mas abolir os castigos físicos e garantir tratamento digno dentro da Marinha. Suas reivindicações evidenciavam a continuidade das estruturas racistas e autoritárias herdadas do escravismo. A Revolta da Chibata foi, portanto, um ato de resistência social e moral, não um projeto político de tomada de poder.

 Questão 2

“O Brasil comprou navios modernos, mas manteve marinheiros do século XIX.” 

 (Adaptação de uma análise de Sonia Regina de Mendonça, 2006).

O comentário acima sintetiza uma contradição central que deu origem à Revolta da Chibata. Essa contradição se refere:

A) à ausência de treinamento técnico dos marinheiros, o que inviabilizava a operação das novas embarcações.

B) ao contraste entre a modernização material da Marinha e o atraso nas relações de trabalho e disciplina, ainda baseadas na violência e no racismo.

C) à oposição entre os oficiais positivistas e os marinheiros monarquistas que desejavam restaurar o Império.

D) à crise financeira da República, que impediu o pagamento dos soldos e levou ao motim.

E) à recusa dos marinheiros em aceitar a introdução de tecnologias estrangeiras na frota nacional.

Gabarito: B

Como destacam Mendonça (2006) e Fausto (2021), a Marinha brasileira da época era moderna em sua estrutura tecnológica, mas arcaica em suas relações humanas. Os castigos corporais, a discriminação racial e a ausência de direitos revelavam o descompasso entre a aparência de progresso e a realidade social herdada da escravidão. Essa contradição foi o combustível que levou à eclosão da Revolta da Chibata.

Créditos da imagem

[1] Wikimedia Commons

Fontes

CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2021.

MENDONÇA, Sonia Regina de. Marinheiros e chibatas: o motim de 1910 e a crise da Marinha brasileira. Revista de História, São Paulo, n. 155, p. 69-103, jul./dez. 2006.

MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. 6. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

SCHWARCZ, Lilia Moritz (org.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

VERBETE “Revolta da Chibata”. In: Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil – CPDOC/FGV. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, [s.d.]. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republicaREVOLTA%20DA%20CHIBATA.pdf .

Escritor do artigo
Escrito por: Alexandre Fernandes Borges Professor e historiador, Bacharel e Licenciado em História pela Universidade Federal de Goiás, com 20 anos de experiência no ensino de História no Ensino Médio. Servidor público de carreira da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás desde 2007, atuou como Chefe do Arquivo Histórico Estadual de Goiás entre 2012 e 2019. Atualmente, integra a Comissão de Avaliação de Bens Intangíveis da Secretaria de Estado da Cultura de Goiás.

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