Guerras Púnicas

As Guerras Púnicas foram conflitos envolvendo Roma e Cartago pelo domínio do Mar Mediterrâneo. O nome da guerra tem origem na denominação “puni” que os romanos deram aos fenícios. Cartago, localizada no Norte da África, era uma antiga colônia fenícia.

Ao longo dos séculos III e II a.C., Roma e Cartago travaram três guerras, que demonstraram a força militar das duas cidades. Os romanos derrotaram os cartaginenses no final da Terceira Guerra Púnica, destruíram a cidade cartaginense e conquistaram o norte africano, ampliando seus domínios sobre o Mar Mediterrâneo.

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Causas das Guerras Púnicas

Ao longo da Idade Antiga, o Mar Mediterrâneo foi o principal centro de comércio marítimo. Suas águas margeavam as civilizações da Antiguidade, como Grécia, Roma, Fenícia, Península Ibérica e Norte da África. A civilização que controlasse o Mediterrâneo praticamente dominaria todo o mundo antigo, por isso ele era bastante disputado.

Em meados do século III a.C., Roma já era uma cidade em expansão e seus domínios ultrapassavam os limites urbanos. Seu exército já era temido na Europa e os despojos de guerra colaboravam para o enriquecimento dos romanos. Os povos conquistados por eles se tornavam mão de obra escrava. Porém, para ampliar ainda mais esse domínio, faltava aos romanos o controle do Mar Mediterrâneo.

Outra cidade de destaque no mundo antigo era Cartago. Localizada no Norte da África, suas origens remontam à colonização fenícia. Essa cidade se desenvolveu economicamente por meio do comércio marítimo realizado no Mar Mediterrâneo. Antes de entrarem em guerra, Roma e Cartago eram aliadas e mantinham acordos comerciais. Com o projeto de expansão romana, as relações foram rompidas e as duas cidades se tornaram inimigas. Ambas almejavam a hegemonia sobre o Mediterrâneo.

Quando Roma dominou a Magna Grécia, Cartago ficou sob ameaça. Os cartagineses trataram de se organizar militarmente, pois o avanço romano aos seus domínios indicava um conflito iminente entre as duas cidades. Além do controle sobre o Mediterrâneo, quem derrotasse o inimigo teria as outras civilizações em suas mãos. Apesar de ter alguns problemas em seu exército, como a presença de mercenários entre seus soldados, a marinha de guerra de Cartago era forte e estava preparada para um possível confronto com Roma.

Romanos e cartaginenses, em 279 a.C., fizeram um acordo que estabeleceu os limites de domínios das duas cidades. Estabeleceu-se o Estreito de Messina, que fazia a ligação entre a Sicília e a Península Itálica. Porém, quando a cidade de Messina foi invadida pelos samnios, povo que habitava a Península Itálica, os messânios pediram ajuda militar a Cartago para expulsar os invasores. O exército cartaginense ocupou a cidade, e Roma considerou essa medida uma ruptura do acordo firmado em 279 a.C.

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Primeira Guerra Púnica (264-241 a.C.)

Ruínas da antiga cidade de Cartago, destruída pelos romanos logo após as Guerras Púnicas.
Ruínas da antiga cidade de Cartago, destruída pelos romanos logo após as Guerras Púnicas.

O primeiro conflito armado envolvendo Roma e Cartago começou no ano de 264 a.C., quando o exército romano foi enviado para a região da Sicília. A Primeira Guerra Púnica mostrou as táticas eficientes dos dois exércitos. Enquanto Cartago obteve vantagem ao atacar os romanos por via marítima, Roma respondeu ao obter ajuda dos gregos na construção de embarcações e de pontes até os barcos inimigos.

Os romanos conseguiram reverter as derrotas sofridas nos primeiros anos da guerra e impuseram aos cartagineses inúmeras derrotas nas batalhas ocorridas no litoral siciliano. Em 256 a.C., o exército romano desembarcava pela primeira vez no Norte da África, dando início ao primeiro conflito fora da Península Itálica. Ao desembarcar em Cartago, os romanos tentaram tomar a cidade, mas foram surpreendidos pelo exército de mercenários e tiveram que fugir da África.

Na Primeira Guerra Púnica, destacou-se a liderança de Amílcar Barca, que comandou as tropas cartaginenses entre 249 e 241 a.C., derrotando os romanos em várias batalhas. Porém, em 241 a.C., o general romano Lutácio Cátulo conseguiu reverter as derrotas sofridas e venceu as tropas de Cartago em outras batalhas.

Ainda no ano de 241 a.C., romanos e cartaginenses, exaustos por causa das inúmeras batalhas travadas, entraram em um acordo. Cartago concordou com o pagamento de tributos a Roma por 10 anos e em desocupar a região da Sicília. Além disso, os cartaginenses tiveram que entregar os prisioneiros de guerra e destruir grande parte de sua frota.

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Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.)

Apesar da assinatura do acordo de paz, Roma e Cartago voltaram a entrar em guerra. Amílcar Barca obteve sucesso ao derrotar o exército romano em algumas batalhas durante a Primeira Guerra Púnica, por isso foi enviado à Península Ibérica para explorar a Hispânia, onde hoje se localiza a Espanha. A exploração obteve êxito e os cartaginenses fundaram cidades e dominaram as minas de prata da região. Essa expansão de Cartago ameaçou as cidades de Ampúrias e Sagunto, que foram fundadas pelos gregos, e ambas solicitaram auxílio de Roma.

Em 229 a.C., Amílcar morreu, e seu genro, Asdrúbal, o Belo, assumiu a colônia hispânica e reforçou a presença de Cartago na região. Os romanos já estavam incomodados com a presença cartaginense na Europa e decidiram fazer um acordo estabelecendo limites entre os dois domínios. Apesar do acordo, Asdrúbal reforçou a presença militar de Cartago ao fundar a cidade de Nova Cartago, em 225 a.C. Essa cidade se tornou a base naval na região. Em 221 a.C., Asdrúbal foi assassinado, e Aníbal, filho de Amílcar Barca, assumiu o comando da Hispânia.

O novo comandante reforçou a presença militar na fronteira com os domínios romanos. A cidade de Sagunto ficava sob o domínio de Cartago e os romanos pediram para que Aníbal não invadisse a cidade. Porém, os apelos não surtiram efeito, e as tropas cartaginenses invadiram a cidade, desencadeando a Segunda Guerra Púnica. Novamente Cartago e Roma estavam em uma batalha.

As tropas romanas se dividiram em duas frentes para atacar os inimigos: o general Plúbio Cornélio Cipião liderou os soldados que se dirigiam para a Hispânia, enquanto o general Semprônio Longo avançou com suas tropas em direção à África. Enquanto o exército romano se organizava para lutar contra as tropas de Cartago, uma rebelião de gauleses, no norte da Península Itálica, alterou os planos militares de Roma.

Cipião teve que deixar o caminho para a Hispânia e ir em direção à Gália para acabar com a revolta. Aníbal soube aproveitar essa mudança repentina nos planos de ataque de Roma e migrou com suas tropas até a Itália, passando pelos Pirineus e os Alpes.

Cipião deixou seu irmão Cneu e uma parte das tropas romanas na Hispânia e se dirigiu à Itália, onde estava Aníbal. Em 218 a.C., começou a guerra entre romanos e cartaginenses. Aníbal saiu vencedor da batalha e ampliou suas alianças contra os romanos, prometendo a liberdade do julgo de Roma. Nessa Segunda Guerra Púnica, os cartaginenses utilizaram elefantes nos combates contra o exército romano. Porém, as tropas romanas lideradas por Cipião conseguiram reverter a situação e saíram vitoriosas do combate contra Aníbal.

Os cartaginenses utilizaram elefantes nas guerras contra os romanos durante as Guerras Púnicas.
Os cartaginenses utilizaram elefantes nas guerras contra os romanos durante as Guerras Púnicas.

Terceira Guerra Púnica (149-146 a.C.)

Era a segunda vez que Roma e Cartago entravam em guerra e novamente os romanos saíam vitoriosos. Apesar de todas as perdas nos dois confrontos, os cartaginenses mantiveram-se de pé e retomaram sua rotina, dando a impressão de que a derrota para a Roma foi em vão. Cartago desenvolveu sua agricultura e ameaçava a economia romana. Os romanos não aceitaram esse comportamento de Cartago e decidiram que a vitória definitiva só viria se a cidade do Norte da África fosse destruída.

O senador romano Catão, o Velho, pronunciou uma frase que entrou para a história como a grande motivadora para a Terceira Guerra Púnica. “Delenda est Carthago”, ou seja, “Cartago deve ser destruída”. Se Roma não aniquilasse a cidade, novas guerras aconteceriam, o que poderia abalar o domínio romano no Mar Mediterrâneo.

A Terceira Guerra Púnica começou tal qual as outras duas guerras anteriores: aliados romanos entraram em conflito com Cartago e pediram ajuda a Roma. Na África, Numídia era um reino aliado de Roma. Os númidas atacaram Horóscopa, mas foram derrotados por Cartago.

O ataque cartaginense à Numídia foi o pretexto para que Roma enviasse seu exército para África e, de uma vez por todas, eliminar Cartago do mapa. No primeiro momento, os cartaginenses esboçaram uma rendição, mas não aceitaram a imposição romana de destruir a própria cidade e reconstruí-la 15 km distante. Se isso acontecesse, a economia da cidade seria arruinada. Sem um acordo, os cartaginenses organizaram seu exército e se prontificaram a, mais uma vez, entrar em guerra contra Roma.

De 149 a 146 a.C., os romanos não conseguiram impor uma derrota definitiva contra Cartago. A cidade era murada e o exército romano teve dificuldades para entrar nela. Porém, em 147 a.C., a sorte mudou para Roma com a atuação do general Públio Cornélio Cipião Emiliano, neto adotivo de Cipião, o Africano, que derrotou Aníbal na Segunda Guerra Púnica. Ele era um dos melhores generais da época e foi até a África liderar as tropas romanas contra Cartago.

Como os muros que cercavam Cartago eram altos, dificultando o acesso dos soldados romanos, Cipião Emiliano decidiu cercar completamente a cidade, privando seus moradores de alimentos e água potável. Muitos cartaginenses morreram. Mesmo com a situação desfavorável, em 146 a.C., Cartago dificultou bastante a vitória romana. A cidade foi destruída logo após o final da guerra.

Consequências das Guerras Púnicas

Cartago foi destruída logo após as Guerras Púnicas. Os registros históricos escritos pelos gregos e romanos, apesar dos preconceitos ali presentes, mostram que os cartaginenses eram um povo valente. Roma precisou de três guerras para que a cidade fosse totalmente destruída.

Os romanos foram os maiores beneficiados após a guerra. Sem Cartago no mapa, eles poderiam dominar de forma hegemônica o Mar Mediterrâneo e expandir seus domínios para o Norte da África até a Península Ibérica.

Com o êxito nas Guerras Púnicas, o exército romano se fortaleceu e se tornou uma ameaça para a República romana, que não resistiu ao poder dos generais e foi substituída pelo império.

Exercícios resolvidos

Questão 1 - (FAU) A consolidação do poder romano sobre o Mar Mediterrâneo se deu a partir dos conflitos conhecidos como Guerras Púnicas. Qual cidade foi o principal núcleo de rivalidade com Roma Antiga naquele conflito?

A) Esparta

B) Tiro

C) Babilônia

D) Cartago

Resolução

Alternativa D. Cartago era uma cidade do Norte da África que rivalizou com Roma quanto ao domínio do Mar Mediterrâneo. As duas cidades entraram em guerra três vezes até que os romanos derrotaram definitivamente os cartaginenses, destruíram sua cidade e se tornaram donos do Mediterrâneo, expandindo seus domínios para o norte africano e a Península Ibérica.

Questão 2 - As Guerras Púnicas, conflitos entre Roma e Cartago, no século II a.C., foram motivadas:

A) pela disputa e controle do comércio no Mar Negro e posse das colônias gregas.

B) pelo controle das regiões da Trácia e Macedônia e o monopólio do comércio no Mediterrâneo.

C) pelo domínio da Sicília e disputa pelo controle do comércio no Mar Mediterrâneo.

D) pela divisão do Império Romano entre os generais romanos e a submissão de Siracusa a Cartago.

Resolução

Alternativa C. Roma e Cartago ambicionavam o domínio sobre o Mar Mediterrâneo. Por conta disso, as cidades travaram intensas e desgastantes guerras, vencidas por Roma, que estava a um passo de se tornar o maior império do mundo antigo.

Publicado por: Carlos César Higa
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