Romance regionalista
O romance regionalista é o romance que tem como espaço da narrativa o meio rural ou campestre. As primeiras obras com tais características foram escritas na Europa do século XIX, com destaque para os “romances campestres” da escritora francesa George Sand e o livro espanhol A gaivota, de Fernán Caballero.
Mas foi no Brasil que esse tipo de romance adquiriu força. No contexto do Romantismo brasileiro, o romance regionalista cumpriu o papel de fortalecer a identidade nacional. Já no século XX, o Modernismo brasileiro retomou a estética regionalista, mas sem a idealização romântica, pois buscava, com realismo, apontar os problemas sociais.
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Resumo sobre o romance regionalista
- O romance regionalista é uma narrativa longa ambientada no campo ou no meio rural.
- O romance regionalista apresenta estas características:
- românticas: idealização amorosa, idealização da mulher e costumes do meio rural;
- modernistas: determinismo (influência do meio), crítica social e aspecto realista;
- contemporâneas: diversidade temática e predominância do estilo individual.
- Os primeiros traços do romance regionalista estão presentes em obras europeias, como os “romances campestres” da autora francesa George Sand.
- O romance regionalista consolidou-se no Brasil, por meio de obras românticas, modernistas e contemporâneas.
- O primeiro romance regionalista brasileiro é O ermitão de Muquém, de Bernardo Guimarães.
O que é o romance regionalista?
O romance regionalista é uma história longa cujo espaço da narrativa é uma região específica de um país. Além disso, o romance regionalista também pode estar associado a um espaço campestre. Nesse sentido, ele se opõe a um romance urbano. Portanto, o romance regionalista costuma mostrar o homem do campo em oposição ao homem da cidade.
Por ser regionalista, ele deve apresentar as características da região na qual estão inseridos os personagens. Tais características podem ser geográficas ou culturais. Assim, se você for escrever um romance regionalista, ambientado no Nordeste, por exemplo, deve apresentar os costumes, as variações linguísticas, as questões sociais dessa região.
Características do romance regionalista
Na estética romântica do século XIX, o romance regionalista é descritivo, pois retrata detalhadamente a paisagem rural e os personagens que ocupam esse espaço. Tal romance busca mostrar a cultura regional de um país. A prosa regionalista, portanto, é oposta à prosa urbana, pois não narra acontecimentos das grandes cidades.
O espaço do romance regionalista romântico é o meio rural, o interior do país. Nesse ambiente, temos vaqueiros, sertanejos, camponeses e outros personagens típicos desse meio, com seus próprios costumes, valorizados pelo narrador. Os valores morais do homem do campo são mais rígidos, tais personagens são mais conservadores e, algumas vezes, brutos.
O nacionalismo é uma forte característica do romance regionalista. Ao lançar o foco sobre as regiões de um país, o autor ou a autora da obra tem o objetivo de valorizar a diversidade cultural de seu povo. Tal diversidade é uma característica identitária. Por retratar um meio mais rudimentar, a narrativa regionalista é mais realista, mas ainda atrelada ao Romantismo.
Assim, características românticas como a idealização amorosa e a idealização da mulher estão presentes. Os personagens estão inseridos em um contexto fortemente patriarcalista, mas sobressai nas obras a “cor local” (características geográficas e culturais) da região retratada. O herói desse tipo de romance é corajoso e forte, podendo também haver heroínas que se destacam pela coragem.
Na estética modernista do século XX, o romance regionalista ressurge com força política. Não há mais a idealização romântica, o caráter realista é predominante. Os problemas sociais das regiões do país são expostos. O narrador, portanto, faz crítica sociopolítica. O espaço, no romance regionalista modernista, é essencial.
O personagem acaba refletindo o meio em que vive. Assim, o determinismo (o destino dos personagens é determinado pelo meio) é marcante no romance regionalista modernista. Por ter intenção política, a linguagem utilizada é clara, o enredo é dinâmico, pois assim a obra pode ser digerida mais facilmente por leitoras e por leitores.
Na contemporaneidade, também se produz romances regionalistas, isto é, aqueles que apresentam como espaço da narrativa alguma região do país, de forma a evidenciar seus aspectos geográficos e culturais. Contudo, as obras contemporâneas são marcadas pela diversidade e pelo estilo individual de cada autora ou autor.
Livros de romance regionalista
- Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis
- O ermitão de Muquém (1869), de Bernardo Guimarães
- O gaúcho (1870), de José de Alencar
- Til (1871), de José de Alencar
- Inocência (1872), de Visconde de Taunay
- A escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães
- O sertanejo (1875), de José de Alencar
- O Cabeleira (1876), de Franklin Távora
- O quinze (1930), de Rachel de Queiroz
- Menino de engenho (1932), de José Lins do Rego.
- Capitães da areia (1937), de Jorge Amado
- Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos
- Fogo morto (1943), de José Lins do Rego
- O tempo e o vento (1949-1961), de Erico Verissimo
- Grande sertão: veredas (1956), de João Guimarães Rosa
- Gabriela, cravo e canela (1958), de Jorge Amado
- Essa terra (1976), de Antônio Torres
- Cinzas do Norte (2005), de Milton Hatoum
- Galileia (2008), de Ronaldo Correia de Brito
Apesar de o romance regionalista estar fortemente ligado à literatura brasileira, apresentam caráter regionalista alguns romances da escritora francesa George Sand (pseudônimo de Amantine Aurore Lucile Dupin), que escreveu “romances campestres” como:
- O pântano do diabo (1846);
- O campesino (1847);
- Fadete (1849).
Vale também citar também A gaivota (1849), obra espanhola pré-realista (transição entre o Romantismo e o Realismo). De autoria de Fernán Caballero (pseudônimo da escritora Cecilia Böhl von Faber), ele é um marco do regionalismo na Espanha. Já em Portugal, apresenta caráter regionalista As pupilas do senhor reitor (1867), de Júlio Dinis.
Principais autores de romance regionalista
- Antônio Torres — literatura contemporânea
- Bernardo Guimarães — Romantismo
- Erico Verissimo — Modernismo
- Franklin Távora — Romantismo
- Graciliano Ramos — Modernismo
- João Guimarães Rosa — Modernismo ou Pós-modernismo
- Jorge Amado — Modernismo
- José de Alencar — Romantismo
- José Lins do Rego — Modernismo
- Maria Firmina dos Reis — Romantismo
- Milton Hatoum — literatura contemporânea
- Rachel de Queiroz — Modernismo
- Ronaldo Correia de Brito — literatura contemporânea
- Visconde de Taunay — Romantismo
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Romance regionalista no Brasil
O romance regionalista começa a ser produzido no Brasil durante o Romantismo (estilo de época que durou de 1836 a 1881). Esse movimento literário surgiu após a Independência de 1822. Assim, o Romantismo foi um instrumento artístico que ajudou a fortalecer o sentimento de identidade brasileira.
A estética romântica apresenta teor nacionalista e busca representar, de forma idealizada, o Brasil. No contexto do Segundo Reinado, a população brasileira era rural, em maioria. Isso também justifica o fato de alguns autores românticos decidirem usar o meio rural como espaço de seus romances.
Portanto, o primeiro romance regionalista brasileiro é O ermitão de Muquém, do escritor romântico Bernardo Guimarães (o mesmo que escreveu o famoso romance regionalista A escrava Isaura). Apesar de ser escrito em 1858, O ermitão de Muquém só foi publicado no ano de 1869.
A retomada do romance regionalista ocorreu na década de 1930, inserido no Modernismo brasileiro, estilo de época que tem caráter nacionalista, mas busca mostrar o Brasil como ele é de fato, sem idealizações. Dessa forma, os autores lançaram o foco sobre os problemas sociais das regiões brasileiras.
Origem do romance regionalista
A origem do romance regionalista está na Europa. É o que nos faz concluir a seguinte afirmação da doutora Fátima María López del Moral:
A seção inicial da Primeira Parte [de um prólogo à obra A gaivota, feito por Eva F. Florensa], “A Pré-história Europeia e o Gênero de La Gaviota” [...], dedica-se a explicar o contexto em que surgiu o chamado “romance nacional” — um gênero originado na Irlanda após a publicação e a difusão de The Wild Irish Girl: A National Tale (1806), da romancista Sydney Owenson, obra que defende os valores de uma sociedade menos desenvolvida diante da pressão de outra mais avançada. Da Irlanda, o gênero expandiu-se para a Inglaterra e a Escócia, deixando sua marca em obras de Walter Scott como Waverley (1814) e Rob Roy (1817); de lá, deslocou-se para o continente europeu — primeiramente para a Alemanha, onde fomentou o desenvolvimento de Dorfgeschichten (“histórias de aldeia”) e Bauernromane (“romances camponeses”), e depois para a França, onde evoluiu para o roman champêtre (“romance regional”) —, chegando, por fim, aos Estados Unidos e ao Canadá. Assim, em meados do século XIX, “a forma narrativa que relata a incursão de uma sociedade moderna (um império ou metrópole) sobre uma sociedade pré-moderna (nacional ou regional) — e que é escrita para exaltar a cultura desta última — já era praticada em todo o Ocidente” [...].
O surgimento do “romance nacional” na Espanha alinhou-se perfeitamente ao clima sociopolítico e cultural que o país vivenciava na época — marcado pelo fim do absolutismo e pela abertura à Europa que se seguiu à morte de Fernando VII, em 1833. Esse desenvolvimento foi impulsionado por La Gaviota, obra cujo principal intertexto é The Wild Irish Girl; de fato, ela extrai dessa fonte a configuração de seus personagens, o enredo e diversos outros detalhes. Além disso, La Gaviota incorpora a vertente francesa do gênero, estabelecendo-se, assim, como uma referência fundamental não apenas para o “romance nacional”, mas também para o “romance regional”.
Apesar disso, foi no Brasil que o romance regionalista se consolidou, originando-se durante o Romantismo brasileiro. Portanto, a origem desse tipo de romance está fortemente vinculada à estética romântica, tanto aqui quanto na Europa.
Exercícios resolvidos sobre romance regionalista
Questão 1
Analise estes fragmentos de romance:
I- “Nesses campos, tão diversos pelo matiz das cores, o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol transforma-se em vicejante tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro, por acaso ou mero desenfado, ateia com uma faúlha do seu isqueiro.” (Visconde de Taunay)
II- “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.” (Graciliano Ramos)
III- “Começou ele pela origem do pequeno; remontou à pisadela e ao beliscão com que a Maria e o Leonardo tinham começado o seu namoro na viagem de Lisboa ao Rio de Janeiro, o que fez dar a D. Maria boas risadas. Passou em seguida à festa do batizado, que descreveu detalhadamente. Até aqui era o drama risonho e feliz; veio depois a tragédia; contou todas aquelas histórias da perfídia da Maria, dos ciúmes do Leonardo e da briga final, cujo resultado trouxera o pequeno às suas mãos.” (Manuel Antônio de Almeida)
Apresenta algum traço de romance regionalista o(s) fragmento(s)
A) I apenas.
B) II apenas.
C) III apenas.
D) I e II apenas.
E) I, II e III.
Resolução:
Alternativa D.
Fragmento I: “campos”, “o capim crescido e ressecado pelo ardor do Sol”, “tapete de relva, quando lavra o incêndio que algum tropeiro”. Fragmento II: “Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes”, “areia do rio seco”, “galhos pelados da catinga rala”. Assim, nesses fragmentos, há marcas de elementos do meio rural. Já no fragmento III, a história está centrada em um meio urbano, a cidade do Rio de Janeiro.
Questão 2
Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as seguintes afirmações:
( ) O romance regionalista romântico apresenta idealização.
( ) O romance regionalista modernista apresenta idealização.
( ) Dom Casmurro é um famoso romance regionalista.
A sequência correta é:
A) V, V, F.
B) V, V, V.
C) F, F, F.
D) V, F, F.
E) F, V, F.
Resolução:
Alternativa D.
A idealização do meio rural, do amor e da mulher faz parte do romance regionalista romântico. Já o Modernismo não recorre a idealizações, pois apresenta visão realista e aponta as mazelas sociais. Dom Casmurro, romance mais famoso de Machado de Assis, apresenta elementos urbanos e não regionalistas.
Fontes
ABAURRE, Maria Luiza M.; PONTARA, Marcela. Literatura: tempos, leitores e leituras. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2021.
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2004.
GIL, Fernando Cerisara. Sobre a ausência e o surgimento da noção de regionalismo na literatura brasileira: notas para repensar o problema. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, v. 72, jan./ abr. 2019.
MORAL, Fátima María López del. Reseñas. Nueva Revista de Filología Hispánica, Ciudad de México, v. 70, n. 2, jul./ dic. 2022.
PELINSER, André Tessaro; ALVES, Márcio Miranda. A permanência do Regionalismo na literatura brasileira contemporânea. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, v. 59, 2020.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1938.
TAUNAY, Visconde de. Inocência. 19. ed. São Paulo: Ática, 1991.