O indígena

Ao aportarem em terras brasileiras, os colonizadores portugueses tomaram ciência de que as terras brasileiras eram habitadas muito antes de sua chegada. Os índios compunham uma vasta população com cerca de aproximadamente cinco milhões de indivíduos. Eram divididos em diferentes povos entre os quais podemos destacar os tupinambás, guaranis, potiguares, xavantes, caiapós, jês e arauaques. Além disso, possuíam diferentes línguas e práticas culturais.

As primeiras informações que temos sobre essa imensa população foram produzidas pelos cronistas que chegaram ao território brasileiro a partir do século XVI. Segundo consta, os tupi-guaranis – povo de grande predomínio na região litorânea – formavam aldeias com cerca de 700 habitantes divididos em grandes casas dispostas em formato semi-circular ou circular. Em seu dia a dia, utilizavam diversos utensílios feitos de barro, madeira, pedra e ossos.

Essas populações vivam da coleta dos recursos oferecidos pelo próprio meio ambiente e, em determinados casos, da prática da agricultura. Entre os gêneros alimentícios mais cultivados podemos destacar o milho, a mandioca, o amendoim, a batata-doce, a pacova, o abacaxi e outros tipos de planta. Para complementar a sua alimentação, os índios também desenvolveram excelentes técnicas destinadas à prática da caça e da pesca.

A organização social de boa parte das populações indígenas do Brasil não contava com a presença de um líder comunitário ou do próprio Estado. Apesar de não existir um líder político, muitos povos contavam com grandes guerreiros e pajés que se tornavam uma grande referência para aquela população. Não havia distinção de classes sociais, tendo apenas na divisão dos trabalhos cotidianos a separação das tarefas masculinas e femininas.

Apesar de serem taxados de selvagens pelos nossos colonizadores, os povos indígenas acumulavam um amplo grupo de conhecimentos ao longo de sua existência. Muitos classificavam as estrelas, realizavam a previsão das chuvas e reconheciam a influência da lua na variação das marés. No campo da saúde, sabiam distinguir as plantas que tinham poder curativo daquelas que poderiam ser utilizadas para a fabricação de poderosos venenos.

Alguns desses povos também contavam com complexas técnicas de artesanato, o que permitiu o desenvolvimento de uma extensa cultura material. Esteiras, urnas funerárias, jarros, redes e cestos eram alguns dos objetos desenvolvidos a partir desse saber acumulado pelos indígenas. No campo religioso, observava-se a realização de diferentes rituais que marcavam a adoração de algum elemento da natureza ou entidade espiritual superior.

Mesmo tendo sido duramente perseguidos e escravizados durante todo o período colonial brasileiro, os índios exerceram papel fundamental na constituição de nossa sociedade contemporânea. Além dos costumes e expressões incorporadas ao nosso cotidiano, devemos também salientar que os próprios colonizadores se valeram do auxílio de algumas tribos para sobreviverem às adversidades impostas pelo território colonizado.


Por Rainer Sousa
Mestre em História
Algumas representações do índio produzidas pelo artista holandês Albert Eckhout.
Algumas representações do índio produzidas pelo artista holandês Albert Eckhout.
Publicado por: Rainer Gonçalves Sousa
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Lista de Exercícios

Questão 1

(ENEM – 2016)

TEXTO I

Documentos do século XVI algumas vezes se referem aos habitantes indígenas como “os brasis”, ou “gente brasília” e, ocasionalmente no século XVII, o termo “brasileiro” era a eles aplicado, mas as referências ao status econômico e jurídico desses eram muito mais populares. Assim, os termos “negro da terra” e “índios” eram utilizados com mais frequência do que qualquer outro.

SCHWARTZ, S. B. Gente da terra braziliense da nação. Pensando o Brasil: a construção de um povo. In: MOTA, C. G. (Org.). Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000). São Paulo: Senac, 2000 (adaptado).

TEXTO II

Índio é um conceito construído no processo de conquista da América pelos europeus. Desinteressados pela diversidade cultural, imbuídos de forte preconceito para com o outro, o indivíduo de outras culturas, espanhóis, portugueses, franceses e anglo-saxões terminaram por denominar da mesma forma povos tão díspares quanto os tupinambás e os astecas.

SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2005.

Ao comparar os textos, as formas de designação dos grupos nativos pelos europeus, durante o período analisado, são reveladoras da:

a) concepção idealizada do território, entendido como geograficamente indiferenciado.

b) percepção corrente de uma ancestralidade comum às populações ameríndias.

c) compreensão etnocêntrica acerca das populações dos territórios conquistados.

d) transposição direta das categorias originadas no imaginário medieval.

e) visão utópica configurada a partir de fantasias de riqueza.

Questão 2

(ENEM – 2015)

A língua de que usam, por toda a costa, carece de três letras; convém a saber, não se acha nela F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei, e dessa maneira vivem desordenadamente, sem terem além disto conta, nem peso, nem medida.

GÂNDAVO, P. M. A primeira história do Brasil: história da província de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 2004 (adaptado).

A observação do cronista português Pero de Magalhães Gândavo, em 1576, sobre a ausência das letras F, L e R na língua mencionada demonstra a:

a) simplicidade da organização social das tribos brasileiras.

b) dominação portuguesa imposta aos índios no início da colonização.

c) superioridade da sociedade europeia em relação à sociedade indígena.

d) incompreensão dos valores socioculturais indígenas pelos portugueses.

e) dificuldade experimentada pelos portugueses no aprendizado da língua nativa.

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